Articulação que valeu foi silenciosa

Marconi Perillo, que nunca conseguiu eleger prefeito em Goiânia, viabiliza aliança que potencializa Vanderlan Cardoso ao 2º turno

Tucanos e socialistas comemoram aliança: Vanderlan Cardoso ganha aliados de peso com os quais nunca contou em duas eleições para o governo | Foto: André Saddi

Tucanos e socialistas comemoram aliança: Vanderlan Cardoso ganha aliados de peso com os quais nunca contou em duas eleições para o governo | Foto: André Saddi

Cezar Santos

Está certo que o grande fato da política na semana passada foi a volta de Iris Rezende ao campo de batalha — na verdade, do qual ele nunca saíra —, anunciada na quinta-feira, 4. No calor do retorno de Iris, especulações e mais especulações sobre o movimento do timoneiro da base aliada governista, Marconi Perillo, em relação ao lance que muitos consideram um xeque-mate do decano peemedebista. Marconi propusera a Iris uma improvável aliança.

A jogada causou muito barulho, como não poderia deixar de ser. Como assim, Marconi capitulou a Iris, sua nêmesis política nestas quase duas décadas?

Como se fosse pouco, e para confundir mais a plateia, o próprio governador admitiu em entrevista, numa solenidade em Anápolis, a possível aliança entre PSDB e PMDB em Goiânia, com o os tucanos apoiando o decano para prefeito: “Se o Iris Rezende for candidato, se ele realmente quiser um entendimento conosco, esse entendimento será feito”.

Os emissários de ambos os la­dos, entre outros, os irmãos Orion e Olvanir Andrade, aquele pelo lado mar­conista, este pelo lado irista. Ve­ja só, leitor, como é a política! Dois ir­mãos são os porta-vozes dos dois maiores líderes políticos numa in­trincada e para muito improvável, pa­ra não dizer impossível, articulação.

Foi o que bastou para se dizer a torto e a direito que Marconi estava decretando o próprio fim, que estava capitulando, que isso, que aquilo.

A questão é que tudo isso se deu em meio a um intenso barulho. Rádios e sites noticiosos narravam os acontecimentos em tempo real, cada um adicionando pimenta ao próprio gosto, acrescentando ou diminuindo detalhes.

Ocorre que política é um mundo diferente do mundo “normal”. Às vezes, o óbvio fica disfarçado como um camaleão furta-cor. Em política, barulho acontece quando os agentes envolvidos querem que o barulho aconteça. Em política, barulho funciona como cortina de fumaça. Serve para confundir, para embaçar, para desviar atenção, para aumentar ou diminuir expectativas. Serve para criar efeitos. Em política, onde há muito barulho a verdade se esconde atrás dos hiatos de silêncio, nos tons do camaleão furta-cor.

O fato é que o resultado prático, efetivo, verdadeiro, da “proposta” de aliança que Marconi fez a Iris Rezende foi a aliança da base aliada com… Vanderlan Cardoso, do PSB.
Percebe, caro leitor, o que é o barulho na política?

Percebe, caro leitor, o resultado de uma estridência aberta aos olhos e ouvidos de toda a imprensa, que pôde acompanhar e registrar o barulho em tempo real?

Repetindo termos de alguns parágrafos atrás: cortina de fumaça, confundir, embaçar, desviar atenção, aumentar ou diminuir expectativas, criar efeitos.

E qual foi o efeito criado?

O efeito é que Marconi Perillo, que mesmo com seu imenso prestígio político nunca conseguiu viabilizar uma candidatura vitoriosa na capital; que mesmo tendo a força e a máquina do governo estadual desde 1999 — exceto nos anos de Alcides Ro­drigues, mas mesmo assim contando com um bom naco do poder; que neste período nunca conseguiu ter de fato um candidato de sua base em condições reais de competitividade; Marconi agora está aliado a um nome em condições de ganhar a Prefeitura de Goiânia.

Quer saber, leitor, mais um efeito? Então veja. Vanderlan Car­doso, que depois de sair consagrado de duas administrações municipais em Senador Canedo; que fracassou em duas campanhas ao governo, justamente por falta de alianças consistentes e de apoios de peso; Vanderlan, agora, passou a ser competitivo de verdade.

As chances de o empresário e ex-prefeito de Senador Canedo ir ao segundo turno passaram a ser reais, para o que ele terá de tirar do páreo um dos dois dianteiros — dificilmente Iris não voltará à liderança ou, pelo menos, não estará em segundo lugar, trocando de posição com Waldir Soares, nas próximas pesquisas. Mas Iris e Wal­dir tendem a se canibalizar, pe­lo fato de serem ambos populistas e disputarem o mesmo eleitorado.

Vanderlan ganhou o que nunca teve em suas duas campanhas ao governo, disputadas em 2010 e em 2014, quando teve boas votações, mas amargou o terceiro lugar, vendo Marconi e Iris disputarem o segundo turno, com vitórias do tucano.

Densidade

O ex-prefeito ganhou densidade política com o apoio da base marconista. Mesmo com uma divisão — o PSD de Vilmar Rocha e o PTB de Jovair Arantes optaram por caminhar juntos autonomamente, com a candidatura do de­putado estadual Francisco Júnior — candidatura que, diga de passagem, não empolgou o eleitor e tampouco os correligionários da base.

Fato é que o apoio da base aliada a Vanderlan Cardoso é oficial. A aliança PSDB-PSB em Goiânia, confirmada na manhã, foi ratificada na tarde de sexta-feira, 5. Já com definição de um vice tucano, o vereador Thiago Albernaz — as articulações incluíam como possibilidade a também vereadora Dra. Cristina.

Se as vantagens para Vanderlan são evidentes — como dito, ele ganhou força e competitividade que não teve em duas campanhas ao governo —, Marconi ganhou o quê?
O tucano saiu dessa agitação barulhenta dos últimos dias com um candidato consistente e com sua base ampliada para a disputa de 2018. O PSD e PTB, mesmo que persistam na aventura da candidatura própria sem chances de sucesso, voltam ao ninho basista no segundo turno com Vanderlan.

O outro lado da moeda é que o tucano tirou da oposição esse possível reforço. Lembre-se que Vanderlan estava sim conversando com o PMDB. Naquele interregno da aposentadoria fajuta de Iris, a aliança com os socialistas era defendida pela ala do presidente da sigla, deputado federal Daniel Vilela, e do prefeito de Aparecida, Maguito. Com a volta de Iris, a defesa da aliança continuou, com a oferta da vice a Vanderlan. Marconi acabou com esse idílio.

É verdade também que nas últimas semanas Vanderlan vinha esnobando a base aliada. Mas isso apena para consumo externo. Ele nunca deixou de conversar também com Marconi. E essa conversa se intensificou justamente no momento em que o barulho da “aliança” entre PSDB e PMDB ficou mais forte.

Costuma-se dizer que a política é um jogo tão intrincado como o xadrez, mas diferentemente desse jogo, na política podem ser feitos dois ou mais movimentos ao mesmo tempo. Marconi fez dois movimentos ao mesmo tempo. Um com o PMDB, na base de muito barulho; outro com o PSB, na surdina e com o qual resultou uma aliança.

Vanderlan Cardoso foi cacifado. Tem ao seu lado uma base sólida, mesmo que ainda não totalmente coesa no início. Terá em seu palanque um eleitor que tem peso e com muito a mostrar em Goiânia. Obras concluídas como o novo Hospital de Urgências (Hugol), o espetacular Parque do Autódromo, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, o novo Estádio Olímpico, hospitais prestando bom atendimento, e até um Credeq, que está localizado em Aparecida, mas produz ressonância também na capital.

Não é pouca coisa. Vanderlan poderá dizer aos eleitores: tenho esse aliado importante, o governador do Estado, Marconi Perillo, com quem vou fazer parcerias para realizar muito mais obras e ações em Goiânia.

São trunfos com os quais Iris não poderá contar, mercê de ter patrocinado a reeleição de Paulo Garcia e sua gestão de baixa aprovação popular. Waldir Soares, então, é pior, porque nunca administrou nada e só tem um discurso fora de foco a aparesentar ao leitor..

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.