Acabou a recessão, mas pode haver recaída

A economia brasileira superou a pior fase, embora ainda apresente sérios riscos de recaída. Basta uma palavra dita sem pensar e o pânico se instala imediatamente no mercado. A confiança não é grande

Afonso Lopes

Para uma taxa de inflação acumulada nos últimos 12 meses inferior a 3%, a taxa de juro referencial ainda é estratosférica. Mais ou menos como era antes, quando a inflação visitava dois dígitos e os juros chegaram a mais de 14%. Tudo somado, não há tanto assim para comemorar em relação à Selic. A taxa caiu porque a inflação despencou mais ainda. Portanto, continua existindo margem para novas reduções. Se é assim, por que o Banco Central não mete o pé no bre­que e diminui ainda mais a Selic? Falta de confiança. As autoridades que dirigem a política econômica temem que um deslize de percurso obrigue a um ajuste futuro na taxa caso ela caia para patamares civilizados. Na dúvida, o lema adotado é o de piloto de avião: se o pouso é arriscado, arremeta.

Se essa desconfiança ocorre na mais alta cúpula do comando econômico-financeiro do país, é óbvio que ela permeia por todo o mercado. Ninguém percebe uma garantia real de que as coisas consertaram de vez, e tomaram rumo correto. No máximo, o mercado acredita que o caminho adotado está certo, mas há uma enorme incerteza no campo político. O governo de Michel Temer após as denúncias que o atingiram e ao núcleo central do seu ministério é um zumbi, um morto-vivo sem forças suficientes para garantir o rumo econômico adotado.

Recessão

Não há consenso sobre o marco que determina o fim de um ciclo recessivo. Para alguns economistas, basta registrar somente um trimestre de crescimento para decretar oficialmente o fim da recessão. Muitos outros entendem ser mais seguro observar pelo menos dois trimestres, ou seis meses, de crescimento constante para determinar que a recessão ficou para trás.

Seja lá qual critério se quiser adotar, o Brasil conseguiu escapar da recessão, mas crescimento econômico que se espera com os pés no chão não vai muito além disso. O ministro Henrique Meirelles tem dito que o país pode crescer entre 2 e 3% já em 2018. É otimismo inflacionado. Se a economia crescer entre 1,5 e 2% já estará de ótimo tamanho por causa do volume de desempregados que o país tem. São pelo menos 13 milhões de trabalhadores que foram excluídos do consumo por absoluta falta de renda. Para se ter melhor ideia do tamanho desse contingente, o Brasil tem mais desempregados do que toda a população da Grécia, Portugal, Hungria ou Suiça. É mais do que a soma das populações de Paraguai e Uruguai. Essa é a multidão que poderia estar produzindo e gastando, fazendo a roda da riqueza rodar no comércio, na prestação de serviço, na indústria, e na vida de cada um de forma geral.

De qualquer forma, se o quadro era terrível até meados do segundo semestre de 2016, agora pelo menos deixou de ser tão sombrio. Na época, especulava-se se a economia tinha chegado no fundo do poço ou se tinha um alçapão a ser aberto para continuar caindo. Alçapão, como se vê, não havia, mas em compensação, a escada para voltar ao topo terá que ser construída degrau por degrau. E a subida será perigosa diante daquilo que se tem hoje em Brasília.

Recentemente, desanimado com a votação que obteve na Câmara dos Deputados ao derrotar a segunda denúncia do então procurador-geral da República Rodrigo Janot, Michel Temer confessou que a reforma da Previdência Social iria ficar para o próximo presidente. Foi o suficiente para desencadear uma cascata de má notícias no mercado. Enquanto o dólar subiu, até para acompanhar tendência mundial, mas não somente por essa razão, e a bolsa de valores impactou negativamente. Temer viu que o caminho, evidentemente, não é esse. Ele pode até não conseguir promover mais reforma alguma – como a necessária simplificação dos impostos e um novo padrão para o comportamento das relações políticas -, mas terá que tentar até o fim. Só assim para segurar o rabo do rojão da economia.

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