A seis meses da eleição, redes sociais dão o tom da campanha para o governo

A internet deixou de ser “terra sem lei”, sobretudo no combate a fakenews e, políticos e sua equipe de marketing, já sabem que seguidores não são eleitores

Os três principais pré-candidatos ao governo de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), que busca sua reeleição, Gustavo Mendanha (Patriota) e Vitor Hugo (PL), aliado do presidente Jair Bolsonaro (PL), são engajados nas redes sociais. Caiado lidera o ranking de seguidores, com mais de 458 mil perfis; em seguida, o deputado federal Vitor Hugo, com 225 mil e o ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, Mendanha com 180 mil.

Caiado, desde o início de seu mandato possui uma equipe de comunicação e marketing ao seu lado, seja com fotos bem elaboradas, postagens em formato de “cards” – publicações com textos escritos nas imagens-, cobertura de ações, eventos e prestação do governo e uma “quebrada” de seriedade ao entrar nas “trends”/memes da internet – tendências para dialogar com o público mais jovem-. Mendanha, ainda enquanto prefeito de Aparecida, publiciza seu dia-a-dia para os seguidores, mas diferentemente do atual governador de Goiás, parecia não ter profissionais direcionados ao design gráfico, visto que, apesar de suas fotos serem consideradas de qualidade, a estratégia adotada não demonstra tantos materiais publicitários elaborados. Vitor Hugo segue o mesmo caminho, com o diferencial de postagens frequentes com vídeos – sem parecer se importar com qualidade de edição e também com vários posts de prints de jornais com assuntos relacionados ao governo federal e também ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em relação a frequência de postagens, Caiado e Mendanha seguem padrões parecidos, com uma média de dois a três posts por dia. Já Vitor Hugo possui uma aleatoriedade, chegando a ter 10 publicações diárias. A taxa de engajamento segue a seguinte porcentagem: Gustavo Mendanha, 1,99%; Ronaldo Caiado, 1,3% e Vitor Hugo com 0,35%. O engajamento considera a relação entre curtidas e comentários nas postagens relacionado com a quantidade de seguidores.

Como especialistas enxergam as redes sociais

Para Tâmara Reis, especialista em marketing político e eleitoral, Caiado e Mendanha seguem um princípio básico de comunicação que é a permanência da identidade visual “do mais próximo do real, de quem eles realmente são no dia-a-dia”, apesar de ainda assim terem estilos diferentes. Reis destaca que os três governadoriáveis trazem a seriedade do trabalho feito, sobretudo em suas legendas, que tentam, a seu modo, escrever textos com uma linguagem mais acessível e que dialogue com os seguidores.

Segundo a especialista, “o melhor trabalho de branding (conjunto de ações alinhadas ao posicionamento, propósito e valores de uma marca ou pessoa pública) é o do Caiado. Ele cumpre os papéis de estar presente na rede, produzir conteúdo, prestação de contas e, principalmente, mantém a sua identidade, com estilo e paleta de cores”. Tâmara pontua que o Mendanha também tem um bom trabalho digital, mas pode ser avaliado em dois momentos “antes da pré-campanha dele ao Estado, ele possuía um perfil de ‘pessoa comum’, ou seja, com mais fotos/vídeos, sem cards e sem muita preocupação com a construção de identidade visual. A parte de produção publicitária ficava mais no instagram da Prefeitura de Aparecida de Goiânia. Com a proximidade das eleições, ele já começou a investir em branding. Já Vitor Hugo ainda não tem se movimentado nesse sentido, apesar de ter produções volumosas. Os três possuem um fluxo intenso de feed e stories, estratégia usada para quem quer crescer nas redes sociais”.

Ela diz que as redes sociais vêm crescendo já há algum tempo, vide candidatos de outras eleições que foram eleitos, sobretudo, pelo seu relacionamento virtual, já que não possui um custo alto. “Isso é uma realidade e é o presente e futuro da comunicação política e eleitoral”, diz. Segundo Reis, a avaliação dessa influência pode ser medida pela possibilidade de investimento em tráfego pago e a utilização dos disparos de mensagens em massa, que chegou até mesmo a ser proibido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)  em 2019. “Conforme as coisas iam acontecendo, com a evolução da internet e das redes sociais, a legislação brasileira também precisou se adequar, entretanto, alguns políticos encontram brechas e burlam a lei para não ficarem presos somente ao tráfego pago, daí a importância e alcance do mundo virtual”.

Segundo Tâmara, “hoje, não só as candidaturas, mas os próprios mandatos observam as redes sociais como um instrumento essencial e algo que pode reduzir os custos de uma campanha, pois sabemos o quão caro é o momento eleitoral. Eles [políticos] entendem que as redes são um caminho para se chegar ao eleitor e trazer um voto de convencimento, um voto que é difícil de se perder. Hoje, um político que possui um trabalho parlamentar e pretende se reeleger, o melhor caminho para ele, sobretudo na pré-campanha, é a rede social. É onde ele consegue conquistar o eleitor. O período de campanha, 45 dias, é muito pouco para você conseguir converter um número expressivo de votos”, salienta.

Para a cientista política Ludmila Rosa, não se pode negar o quão importante foram as redes sociais para a eleição do atual presidente da República, Jair Bolsonaro. “Ele estava naquela época em um partido inexpressivo no ponto de vista do número de deputados na bancada e, portanto, também com menos recursos para fazer campanha. Ele teve algumas dificuldades e precisou enfrentar um certo ceticismo de alguns partidos e não conseguiu nem mesmo fazer uma coligação tão ampla, ainda que a tendência bolsonarista fosse forte no segundo turno e grandes lideranças se apoiaram nele por mirarem nas pesquisas eleitorais. Havia uma onda antipetista muito forte facilmente percebida e, como parte estratégica, sobretudo para os governadores que estavam disputando o segundo turno, eles se apoiaram nessa onda anti PT e também nessa onda que veio trazer o Bolsonaro como o grande ‘messias’, portador de uma nova era e de um novo tempo para o Brasil”, diz.

A campanha de Bolsonaro em 2018 foi alvo de investigação do TSE e hoje há acordos entre os supremos – Eleitoral e Federal para que durante as campanhas o combate a fakenews seja uma marca evidente. Ainda em 2021, o TSE julgou as ações contra a chapa de Bolsonaro e Hamilton Mourão como improcedentes exatamente pela dificuldade de se comprovar fraudes. A acusação era de impulsionamento ilegal de mensagens em massa via WhatsApp durante a campanha, bem como uso fraudulento de nome e CPF de idosos para registrar chips de celular utilizados para garantir os disparos. Ludmila explica que 2018 foi um divisor de águas na forma tradicional de fazer campanhas. Ela relembra que nas últimas eleições presidenciais, Geraldo Alckmin, candidato à República, aglutinou para si a maior parte de partidos, bem como o tempo de TV e “nada disso foi suficiente para estar à altura dessa nova dinâmica de fazer campanha”. Na época, Alckmin alcançou apenas 4,78% dos votos. 

Rosa acredita que 2018 foi um ano atípico neste ponto e, para este ano, haverá uma mescla importante do jeito tradicional de fazer campanha política: pensado em palanque eleitoral, apoio de lideranças locais e paroquiais e, em paralelo, um fortalecimento das redes sociais, visto que a maior parte da população está conectada. Entretanto, ela ressalta que há no ambiente virtual uma indisposição em “estar nas redes sociais e ficar se ‘incomodando’ o tempo todo com notícias políticas, além de existir um ceticismo grande em relação ao que recebemos pelas redes sociais e, sobretudo, pelo Whatsapp”, diz.

Atualmente, a sociedade brasileira está acostumada com o conceito de fakenews. É comum a discussão sobre o assunto nos jornais e nos meios políticos. Segundo Ludmila, “em 2018 isso era muito incipiente, fakenews era uma coisa que as pessoas não se apropriavam dessa definição e, hoje, até mesmo os mais adeptos desse repasse de informação sem checar a veracidade, já tem a consciência da existência deste conceito e conseguem dizer ‘eu busquei em tal lugar'”, diz. Rosa destaca ainda que “a vacinação contra a fakenews foi passada, não tem a cobertura absoluta, mas já há um apelo à informação e à checagem de fontes. A geração mais jovem que entrou de maneira recorde no processo eleitoral deste ano também é uma geração que vem atenta ao conteúdo que recebe, é uma galera que está muito mais vigilante do que fomos nós em 2018”.

Assim como Tâmara Reis, Ludmila acredita que as redes sociais são uma ferramenta importante para as eleições deste ano, contudo, a vigilância no combate às notícias falsas terá um espaço maior que no último pleito. Rosa relembra que em 2018 a fakenews da “mamadeira de piroc*” escoou por vários grupos de whatsapp e ganhou força como uma verdade pelo tanto que foi repassada. Neste ano será diferente, segundo a cientista. “O próprio STE fez acordo com as plataformas digitais para coibir conteúdos que sejam flagrantemente contrários à democracia e que estejam ofendendo a honra do outro, ou que sejam informações falsas efetivamente. Isso tudo será objeto de muita vigilância”.

Pela custo x eficiência, Ludmila frisa dois pontos: na mesma medida em que as redes sociais trazem um certo barateamento das campanhas e uma acessibilidade do eleitor ao candidato na medida em que ele consegue comentar e questionar em suas postagens, possibilitando que candidato tenha uma percepção da sua imagem para com o eleitorado, além de romper fronteiras territoriais, há também uma facilidade para as candidaturas mais estridentes e que gostam de polêmicas estarem no auge. “Sabemos que os algoritmos das redes sociais privilegiam esses conteúdos pois eles possuem uma  entrega orgânica, então é algo que a gente precisa ficar atento: como estamos selecionando essas pessoas que nos representam a partir desses espaços em que, necessariamente, eles são catapultados e colocados em evidência na medida em que eles mais polemizam as coisas do que apresentam dados ou soluções concretas para os problemas?”, diz. 

Por fim, a dica que fica para quem acompanha as redes sociais de políticos vale a máxima do clichê “rede social aceita tudo”.”Precisamos ter cuidado sobre como as redes sociais estão pasteurizando as pessoas e criando personagens com falas bem pontuadas, passando uma imagem que as vezes não guarda a autenticidade da candidatura, porque as pessoas querem votar em pessoas reais e as redes sociais acabam sombreando o que é real e mostrando aquilo que os marqueteiros e estrategistas de campanha acham conveniente”, finaliza Ludmila.

2 respostas para “A seis meses da eleição, redes sociais dão o tom da campanha para o governo”

  1. Avatar Zildete disse:

    Querem saber mesmo a verdade? Não confio em urnas eletrônicas. Quero que o voto seja mesmo auditavel.

  2. Avatar Carla Daniele disse:

    Matéria muito boa! Parabéns Ysabella, deu futuro está traçado no brilho. Tâmara é incrível, que profissional exemplar. Os jogos já começaram. ✅

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