“13 Reasons Why” e a incapacidade de um adulto em entender o sofrimento de um adolescente

Psicanalista diz que tentativas de suicídio entre adolescentes não são algo novo, mas que chamam a atenção apenas agora devido às redes sociais

“Melancolia”, quadro de Edvard Munch, serve de parâmetro para demonstrar a infelicidade de uma geração praticamente esquecida pela sociedade | Imagem: Tinta a óleo, 1891

“Oi, é a Hannah. Han­nah Baker. Isso mes­­mo. Não ajuste seu… seja lá qual for o aparelho que esteja usando para ouvir isso. Sou eu, ao vivo e em estéreo. Sem promessa de retorno, sem bis, e, desta vez, definitivamente sem atender pedidos. Pegue um lanche. Acomode-se, porque estou prestes a contar a história da minha vida”.

Essas são as primeiras palavras que ouvimos quando começamos a ver “13 Reasons Why”, a tão falada série da Netflix, e nada mais justo do que serem também as primeiras deste texto, que não trata da série, mas de assuntos a ela relacionados, especificamente o suicídio, indo de encontro à velha regra do jornalismo de não falar sobre o autoextermínio.

O motivo de iniciar a matéria com a fala de Hannah é justamente pelo debate gerado pela menina de 17 anos que se mata nos últimos minutos da série: a necessidade de falar a respeito do tema, que é tabu em grande parte das sociedades humanas, sobretudo as ocidentais, que têm pavor em falar sobre a morte. Vem daí a noção de muitos de que a série promoveu uma espetacularização do ato cometido pela adolescente.

De início, podemos dizer que é um erro descartar o seriado por seu mote ou mesmo por achar que ele dá um incentivo a pessoas de idades semelhantes à da personagem principal a seguirem caminhos parecidos. A razão é simples: o objetivo da série, assim como a de qualquer obra de arte, não é dar respostas, mas estimular debates. Logo, o que pode motivar ou não alguém a tomar uma ou outra atitude são as análises feitas a partir dela. A espetacularização é promovida, ou não, por quem fala a respeito da série.

Passada a nota de abertura, podemos falar diretamente de Hannah. Sua narrativa é oral e registrada em sete fitas cassete, que contêm 13 capítulos, cada um com um “responsável” principal por sua morte. Hannah é uma boa contadora de histórias e, mesmo que sua narrativa seja oral, suas palavras são bem escolhidas. Sua introdução, por exemplo, nos diz muito daquilo que ela pretende expor em seu relato.

Hannah está ali para esclarecer diretamente aos seus “carrascos” as razões que a levaram ao suicídio e trazer à luz a parcela de responsabilidade de cada um deles. E isso só poderia ser feito “ao vivo e em estéreo”, pois cada uma das personagens precisa tê-la por perto, sentir sua presença para saber que não há “promessa de retorno”, não existe “bis” e que, desta vez, “definitivamente”, ela “não atenderá pedidos”.

A garota descreve sentenças, em todos os sentidos da palavra. Ela está ali para deixar claras tanto a sua vontade quanto a racionalidade de sua escolha. Sua vontade é demonstrada, mas sua racionalidade não. Veja o período final: “A­co­mode-se, porque estou prestes a contar a história da minha vida”. Depois de terminar os 717 minutos da série, fica claro que a narração não dá conta de toda a vida de Hannah, mas apenas daquela parte que diz respeito à sua luta pela sobrevivência. Aquela parte em que sua vida “deu errado”.

Hannah é recém-chegada à Liberty High School e tenta se enturmar, mas não tem uma boa recepção. De cara perde é a única amiga “verdadeira” que tinha e, logo em seguida, é traída pelo rapaz com quem tem seu primeiro beijo e se torna alvo de calúnia em toda a escola. É chamada de “vagabunda”, “fácil”, e isso atrai vários outros dos garotos que só querem se aproveitar dela, o que cria em Hannah um trauma atrás do outro ao longo daquele ano.

As férias de verão trazem um muito esperado intervalo das perseguições sofridas na escola e uma perspectiva de renovo. O retorno das aulas, contudo, mostram a ela que não é bem assim. Logo nos primeiros dias, ela presencia o estupro de sua ex-melhor amiga e experimenta a sensação de impotência diante do ato. A incapacidade de comunicar seu sofrimento às pessoas mais próximas a isola inclusive dos pais. Por fim, o sentimento de vazio a leva a uma apatia diante de atos cruéis cometidas contra ela. Seu próprio estupro e o não esforço das pessoas para protegê-la de si são a gota d’água. Sentindo-se já semiviva, Hannah tira a própria vida.

É esse o resumo dessa parte da vida a que Hannah nos deixa ter acesso e mostra a dificuldade que um adolescente com de­pres­são tem em pedir ajuda. A es­colha pelo suicídio não é racional e nem culpa exclusiva da­queles que protagonizam os episódios narradas por ela. Não é, contudo, culpa dela, como po­dem pensar muitos dos que te­nham visto a série.
O processo de adoecimento mental da personagem é muito mais complexo e remete a uma dificuldade vivida por muitos jovens e adolescentes ao redor do mundo e isso, ao contrário do que se pode pensar, não é um fenômeno novo.

A psicanalista Márcia Mar­ques Pires afirma que, estatisticamente, os dados de tentativa de suicídio na adolescência são alarmantes há muito tempo. “Te­mos estatísticas mostrando que, a cada cem jovens, 20 tentam suicídio. Os números são altos e preocupam há bastante tempo, mas que têm hoje uma notoriedade diferente devido às redes sociais, que mostram às pessoas o que de fato está acontecendo”, relata.

Para ela, a culpabilização das pessoas em relação à série, ou a qualquer outro fator, é um erro, visto que, a busca por culpados pelo grande número de tentativas de suicídio, deixa o debate principal à margem. “A culpa é dos pais, é da sociedade, de quem é? Isso só atrapalha um debate adequado sobre o problema, porque, quando começamos a apontar culpados, as pessoas começam a se defender e isso não leva a lugar algum. E, quando se trata de adolescência, todos estão implicados de alguma forma”.

Agora, por que o autoextermínio, ou a tentativa dele, é alto entre jovens e adolescentes? Os motivos, como o leitor pode imaginar, são os mais diversos, mas a psicanalista explica que a adolescência é um período da vida muito desamparado de cuidados e de entendimento, sobretudo na contemporaneidade. “Todos acham que a criança é linda, feliz e não sofre. Existe essa idealização. Po­rém, quando a criança se torna adolescente, ela fica desassistida daqueles cuidados dispensados a ela anos antes”.

Na visão da psicanalista, que trabalha com adolescentes há muitos anos, a adolescência pode ser classificada como aquele período da vida em que a pessoa não sabe quem ela realmente é. “A criança tem que brincar e o adulto, teoricamente, precisa trabalhar para pagar contas. E o adolescente? Não existe realmente aquilo que ele consegue ou não fazer. É um momento incerto na vida de todos e sem margem. Quando se entra e quando se sai da adolescência? É uma pergunta a ser feita”, destaca.

Fora isso, aponta Márcia, existe aquela promessa de que os adolescentes conseguirão determinadas coisas quando crescerem, mas, em contrapartida, não há disponibilidade das pessoas em ouvir seus anseios. “O que o adolescente fala só vale alguma coisa quando eles dão o grito que escancara aquilo que já estava presente, mas que as pessoas não viam. É isso o que está acontecendo agora. Então, esse estado de vulnerabilidade do adolescente faz com que ele não veja saída”, argumenta.

Isso pode ser exemplificado com uma situação aparentemente simples: uma pessoa termina o ensino médio com 18 anos, em média, e deve escolher sua carreira. Não é nenhum exagero dizer, portanto, que, aos 18 anos de idade, o adolescente precisar escolher que rumo dar a sua vida, visto que, em uma sociedade capitalista, a profissão selecionada rege praticamente todos os outros passos a serem dados.

Essa opção é um peso na vida de qualquer um e, na de um adolescente, é ainda pior, pois nessa fase da vida, além de lidar com as expectativas da sociedade, dos pais, dos amigos etc., ele ainda tem que dar conta de suas próprias questões. “Ele precisa cuidar do entendimento sobre quem ele é, de como ele se posiciona em relação ao grupo, de sua sexualidade, de suas afeições e relacionamentos. Ou seja, é um momento de total transição. É um momento normal de conflito”, ressalta Márcia.

Se essa fase é normalmente de conflito, imagine em um adolescente desestabilizado e que não tenha alguma estrutura que lhe dê suporte? “E estrutura não é pai e mãe”, assegura a psicanalista, “mas pai, mãe, escola, amigos etc.; é a rede. Ele precisa de uma estrutura que suporte as instabilidades que terá e essas estruturas, muitas vezes, falham. Se a pessoa tem um conjunto de estruturas que a cercam, será muito mais difícil que ela se mate. Quando uma pessoa chega ao ponto de cometer suicídio, significa que tudo o que a sustentava se rompeu”, salienta.

Em outras palavras, a psicanalista diz que é fundamental entender que o suicídio não tem uma única causa. “Quando alguém se mata, é comum que as pessoas foquem em um problema específico, seja na escola ou no relacionamento. Sim, mas, sem dúvida alguma, todo o resto deveria estar frágil também, porque uma fala recorrente dos adolescentes que tentam o suicídio é: ‘Eu não tinha saída’. E não é que não exista saída. Existe, mas eles não conseguem enxergar uma”, explica.

Estrutura

Psicanalista Márcia Marques: “O olhar do adulto é sempre o que julga o adolescente e isso o afasta e cria dificuldades para que ele peça ajuda” | Foto: Arquivo pessoal

É comum o pensamento de que famílias estruturadas tradicionalmente, aquelas com pai, mãe e irmãos, sem graves problemas financeiros e sem envolvimento com drogas, por exemplo, previnem fragilidades psicológicas e coíbem tentativas de suicídio. En­tretanto, nem sempre é assim. A psicanalista Márcia Marques adverte que não se pode considerar como estruturada somente aquela família que tem pai, mãe e irmãos morando juntos numa mesma casa.

Segundo ela, às vezes, encontram-se famílias aparentemente estruturadas, mas na qual inexistem relações afetivas saudáveis. E isso pode gerar solidão, mesmo que haja um grupo familiar ali para sustentar a pessoa. “Às vezes, o adolescente está extremamente solitário. Ele fica ali no quarto, na internet, durante horas e horas a fio. E ninguém faz ideia do que eles estão fazendo. É lógico que isso é típico dessa fase, mas não há nada que os monitore minimamente”, relata.

A psicanalista conta que, às vezes, recebe adolescentes que estão com muitos cortes e que os pais não fazem a mínima ideia de que eles se cortam. Trata-se de uma automutilação para, por meio da dor física, minimizar seus sofrimentos psicoemocionais. “É como se o adolescente ‘bonzinho’ fosse aquele que fica dentro do quarto e não dá trabalho. Só que, às vezes, é aí que mora o problema, pois seus relacionamentos são muito restritos. O adolescente que fica calado, fechado dentro do quarto, pode nos preocupar muito mais que aquele que é rebelde. E essa pessoa, muitas vezes, está dentro de uma família estruturada”, frisa.

A complexidade da questão está no fato de não existirem regras para identificar quem está fragilizado emocionalmente. Po­rém, aponta Márcia, mudanças de comportamento sempre chamam a atenção. “O adolescente era muito tranquilo e, de repente, começa a ficar agressivo demais, ou o inverso: era sociável e agora se fecha e não conversa com ninguém. Esse tipo de mudança no padrão de comportamento da pessoa precisa ser notado, inclusive na escola”, orienta.

Essas mudanças de comportamento são, de fato, importantes. Devido ao “aumento” repentino de casos registrados de tentativa de suicídio ou da procura por atendimento nos plantões de emergência de saúde mental pelo Brasil, vários Estados têm emitido alertas. E quase todos eles citam tanto a série “13 Reasons Why” quanto o “jogo” Baleia Azul, que tem causado certo pânico nas últimas semanas, sobretudo devido à grande divulgação pela imprensa.

E os alertas costumam chamar a atenção justamente para mudanças de comportamento, como: Falas sobre morte ou, mesmo indiretamente, sobre vontade de “sumir”, “desaparecer”; Isola­mento; Perda do interesse em atividades costumeiras; Perda do interesse nas pessoas; Mudanças no hábito de sono (insônia ou aumento das horas dormindo); Mudanças dos hábitos alimentares (perda ou aumento de apetite); Irritabili­dade; Piora no desempenho escolar; Com­por­ta­mentos autodestrutivos (automutilação, uso de álcool e outras drogas); e situações de bullying.

Em pessoas com quadro depressivo já diagnosticado e, muitas vezes, em tratamento psicológico, seja com psicólogo, psicanalista ou psiquiatra, especialistas dizem que uma melhora repentina pode, às vezes, ser uma espécie de simulação, com a intenção de conseguir espaço para, enfim, executar o ato suicida.

Comunicação
Qual é o papel da família diante de uma situação assim? Como perceber? E, quando se percebe, como abordar o adolescente? Essas são perguntas importantes de serem feitas, por exemplo, pelos pais de adolescentes com depressão, sobretudo a última. A razão: adolescentes costumam ter dificuldades para comunicar seu sofrimento às outras pessoas. Às vezes, a pessoa acha que tem sido clara nesse informe, mas não é. E como as pessoas ao seu redor não percebem, na visão do adolescente, elas não ligam, o que aumenta o sentimento de isolamento e, consequentemente, leva ao suicídio.

Márcia Marques, psicanalista, relata que, no meio da saúde mental, são poucos os que gostam de trabalhar com adolescentes, justamente porque eles não falam. “Adolescentes falam entre seus pares, mas eles geralmente não falam para um adulto. Aí mora a grande dificuldade, porque o adulto conversa com esse adolescente como se soubesse da vida dele, mas banalizando-o. Ele diz: ‘Eu sei o que você está passando, também já fui adolescente, e isso é só uma fase’. Quer dizer, o adulto banaliza o sofrimento do adolescente e vem daí a dificuldade do acesso”, explica.

A psicanalista afirma que os recursos de comunicação do adolescente são diferentes do da criança e do adulto. Segundo ela, esse jovem costuma dizer o que está sentindo por meio de um vídeo que viu ou de uma música que ouviu ou através da história de um amigo. “E o que o adulto geralmente faz quando um adolescente vem mostrar algo do tipo? Desprezar mais ainda aquela tentativa e dizer ‘Pelo amor de Deus, o que é isso que você está ouvindo ou que você está jogando?’. Nin­guém chega para perguntar o que é e o que significa.”

Nesse sentido, Márcia recomenda que os familiares e pessoas próximas estejam disponíveis para seus adolescentes. “E estar disponível não é uma tarefa fácil”, diz. De fato não é, pois estar disponível significa mais que ouvir, significa participar, se envolver. E, em grande parte das vezes, o adulto tem preconceito com a­quilo que o adolescente gosta, seja uma música, um fil­me ou um jogo.

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