A segurança privada tem se tornado um mercado promissor e em franco crescimento no estado de Goiás, o avanço atinge desde a utilização de carros fortes até a instalação de câmeras e alarmes em residências. Em um primeiro momento, esse ímpeto pode parecer contraditório com as quedas nos índices de criminalidade no Estado, principalmente no que tange aos crimes contra o patrimônio.

Entretanto, mesmo com quedas expressivas, superiores a 50% no furto de residências e 87% no roubo e furto de carros, o mercado da segurança privada e de seguros identificou oportunidades de crescimento em parcerias com o poder público e também no desenvolvimento econômico proveniente da maior sensação de segurança no Estado. Especialistas e empresários do setor explicam que a melhora na segurança pública não prejudica o mercado de segurança privada, por conta do perfil da clientela e da necessidade inerente de alguns negócios realizaram contratações deste setor.

Para compreender essas razões, as dimensões desse mercado, os fatores que explicam seu crescimento mesmo diante da melhora dos índices de criminalidade e as estratégias adotadas pelo setor diante desse novo cenário, a reportagem reuniu dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Secretaria de Segurança Pública de Goiás. Também foram ouvidos empresários e especialistas dos segmentos de segurança privada, segurança eletrônica, seguros e blindagem.

Dimensão e tendências da Segurança Privada

Ivan Hermano, presidente do Sindicato das Empresas de Segurança Privada de Goiás (SINDESP), explica que o mesmo fenômeno acontece em países desenvolvidos, pois “a segurança privada é construída de forma que atenda especificamente à necessidade de cada contratante. Então, você tem o shopping center que precisa de segurança, tem o condomínio horizontal que precisa de segurança, tem o banco, entre outras demandas”, destaca.

Ivan Hermano destaca que a segurança privada atende a necessidade de cada contratante | Foto: Acervo Pessoal

Atualmente, existem 176 empresas no Estado de vigilância armada, incluindo transporte de valores e segurança VIP. Há 5 anos, o número de empresas era de 162. Além disso, são 21,5 mil vigilantes na ativa em Goiás e 443 instituições financeiras registradas.

Todas as empresas precisam ser cadastradas na Polícia Federal (PF), que pratica um controle e regulação dessas companhias. Os carros-fortes, que custam cerca de R$ 400 mil, também precisam ser cadastrados na PF. Atualmente, Goiás conta com 77 carros-fortes com liberação do órgão.

Ivan Hermano também conta sobre mudanças federais recentes na legislação desse setor facilitaram o combate à clandestinidade. “Agora, quem contrata a segurança clandestina responde por essa má contratação. Antigamente, podia se dizer que não sabia que estava contratando um vigilante clandestino. Hoje, já não pode mais e o contratante responde por isso junto com o contratado”.

Transformações tecnológicas, segurança pública e o impacto no mercado

Outra alteração relevante que Ivan Henrique ressalta é o barateamento mais recente de equipamentos eletrônicos, o que demandou mais serviços de segurança privada. Este setor específico de segurança eletrônica movimentou R$ 500 milhões no ano passado e agrega cerca de 1,2 mil empresas só em Goiás.

A maior parte destas companhias fica em Goiânia (290) e região metropolitana (440). As demais ficam no entorno do DF (85) e no interior do Estado (674). Em termos de contratações diretas, são entre 7 mil e 10 mil funcionários, número que cresce consideravelmente se levar em conta os autônomos, a cadeia de revenda e distribuição, alcançando os 15 mil trabalhadores.

Exemplificando como os investimentos na segurança pública impulsionam o setor privado: o programa “IA contra o Crime”, do Governo de Goiás, tem o valor global de R$ 304,8 milhões e pretende comprar 5.012 câmeras em mais de 200 municípios. Essas câmaras, provavalmente, virá do setor privado, o que reforça que um acaba sendo o complemento do outro.

Veja com mais detalhes a distribuição das empresas de segurança eletrônica no estado de Goiás, conforme os dados do Sindicato das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Siese).

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Renato Gonçalves, diretor comercial da Condoease e presidente fundador do Siese, disse que a melhora dos indicadores de segurança pública não diminuiu a procura por soluções privadas. “Segurança pública e segurança eletrônica não são concorrentes: são complementares”, afirma. Para ele, os sistemas privados passaram a cumprir um papel que vai além da proteção patrimonial, auxiliando na identificação de pessoas e veículos, na produção de evidências e no compartilhamento de informações com as forças policiais.

Essa aproximação também muda a relação entre empresas e poder público. O apoio mútuo entre a segurança eletrônica particular e os sistemas de monitoramento estatal permite ampliar a capacidade de vigilância sem que todos os equipamentos precisem ser instalados diretamente pelo governo. Para o setor, esse modelo tende a ganhar espaço à medida que ferramentas de inteligência artificial passam a interpretar as imagens e identificar padrões de comportamento.

É justamente nessa transformação tecnológica que Rodrigo Dourado, CEO Nacional da Tutor S.A, vê uma das principais oportunidades para o mercado nos próximos anos. “Tecnologia de IA e integração com segurança pública são as maiores oportunidades de crescimento futuro”, afirma. Segundo ele, Goiás apresenta um ambiente favorável para essa expansão, com um mercado disposto a incorporar novas soluções.

Rodrigo Dourado afirma que a segurança privada e a pública andam juntas | Foto: Acervo Pessoal

O movimento, porém, também revela um dos principais gargalos enfrentados pelo segmento: a dificuldade para encontrar profissionais. Rodrigo Dourado aponta a falta de mão de obra como o maior problema das empresas e afirma que os próprios clientes enfrentam dificuldade semelhante. A escassez, por sua vez, acaba estimulando a procura por tecnologias capazes de automatizar processos e reduzir a necessidade de intervenção humana.

Na prática, isso ajuda a explicar a mudança no perfil da demanda. O consumidor deixou de procurar apenas equipamentos isolados e passou a buscar sistemas integrados, capazes de monitorar ambientes, controlar acessos, reconhecer padrões e emitir alertas.

Sérgio Monteiro, presidente atual do Siese e vice-presidente da Fecomércio, diz que essa transformação resume a evolução do mercado. “Saímos da câmera que apenas grava para a câmera que interpreta, identifica e ajuda a prevenir”.

A tendência acompanha o movimento observado no mercado nacional. De acordo com o Siese, o setor brasileiro faturou mais de R$ 16 bilhões em 2025, com crescimento de 16,2%, e a expectativa da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (ABESE) é de expansão de 18,8% em 2026. Em Goiás, a entidade também projeta crescimento de dois dígitos, sustentado tanto pela demanda privada quanto pela ampliação dos investimentos públicos em videomonitoramento e inteligência artificial.

Dados da segurança pública em Goiás

Essas novas estratégias de combate ao crime irão se somar a uma tendência de queda encontrada em diversos indicadores. O mais exemplar é o roubo às instituições financeiras que, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 113 casos em 2016 e se mantém zerado desde 2022, como demonstrado no seguinte gráfico:

O mesmo padrão de queda também pode ser observado nos dados referentes aos roubos e furtos de veículos em Goiás. Os números, igualmente retirados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram uma redução expressiva ao longo da última década: foram registrados 29.243 casos em 2016, enquanto, em 2025, o total caiu para 3.683 ocorrências. A diferença representa uma redução de aproximadamente 87,4% no período, reforçando a tendência de recuo dos crimes contra o patrimônio no Estado. Confira:

A mesma tendência pode ser observada na evolução dos índices relacionados aos furtos de residências em Goiás. Os dados registrados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) apontam para uma redução superior a 50% no número de ocorrências ao longo do período analisado, reforçando o cenário de queda dos crimes contra o patrimônio no Estado. Confira:

Quando comparados os números atuais com os registrados em 2018, ainda é possível identificar uma série de outros crimes que, de alguma forma, impactam a atuação e a demanda por serviços de segurança privada e que apresentaram quedas consideráveis em Goiás.

O recuo aparece em diferentes modalidades de crimes contra o patrimônio e contra a pessoa e ajuda a dimensionar a transformação do cenário da segurança pública no Estado ao longo dos últimos anos. Abaixo, é possível conferir a evolução completa dos principais indicadores e a variação registrada em cada um deles:

Natureza do CrimeTotal 2018Total 2025Redução AbsolutaRedução (%)
ROUBO DE CARGA43512-423-97,24%
ROUBO A TRANSEUNTE45.8453.757-42.088-91,80%
ROUBO EM COMÉRCIO3.518318-3.200-90,96%
FURTO A TRANSEUNTE51.4984.728-46.770-90,82%
ROUBO EM RESIDÊNCIA2.350393-1.957-83,28%
LATROCÍNIO10419-85-81,73%
HOMICÍDIO DOLOSO2.081756-1.325-63,67%
LESÃO SEGUIDA DE MORTE6130-31-50,82%
ESTUPRO797755-42-5,27%

Consequências no mercado de seguros

Com a melhora dos indicadores de segurança pública em Goiás nos últimos anos, o mercado de seguros também passou a operar com menor risco, especialmente no segmento de automóveis. Segundo Vinícius Porto, presidente do Sindicato dos Corretores e Empresas Corretoras de Seguros no Estado de Goias (Sincor-GO), a redução da criminalidade contribuiu para uma queda de cerca de 30% no valor dos seguros no período.

“Nos últimos anos, nós tivemos uma redução drástica do índice de criminalidade, do índice de roubo e, consequentemente, isso fez com que o seguro diminuísse o número de indenizações”, afirma Vinícius Porto. O principal impacto ocorre sobre a sinistralidade, índice que mede a relação entre gastos com indenizações e arrecadação, já que roubo e furto de veículos estão entre os fatores que mais influenciam a quantidade de indenizações.

Para se formar o preço, o parâmetro principal utilizado é a sinistralidade, quando diminui, reflete em preços menores. A redução dos riscos, portanto, pode se refletir em apólices mais baratas e, consequentemente, estimular a contratação.

Apesar da influência da criminalidade, o preço dos seguros também considera fatores como modelo do veículo, região de circulação, CEP, perfil do condutor e frequência de utilização. Em Goiás, Vinícius Porto afirma que menos de 30% da frota é segurada, e o setor trabalha para elevar esse percentual para 40%.

Além dos automóveis, os segmentos de vida, residência, empresarial e previdência privada estão entre os que mais movimentam o mercado goiano. Segundo Vinícius Porto, o mercado de seguros de danos passou de R$ 135 milhões em 2024 para R$ 145 milhões em 2025, um crescimento de 7,31%.

Questionado sobre o preço do seguro em Goiás, Vinícius Porto afirmou que várias fatores interferem no preço, como idade, gênero, modelo de carro, não ficando rotulado apenas aos índices de criminalidade.

Como blindagem se relaciona com a segurança pública?

Andreia Canassa, presidente da Associação Brasileira de Blindagem (ABRABLIN), explica que o mercado de blindagem não é afetado pela melhora nos índices de segurança pública. Em Goiás, de acordo com ela, ainda há 68 carros blindados cadastrados.

Em entrevista ao Jornal Opção, ela destacou a realidade de um estado que é marcado pela violência: São Paulo. Segundo a presidente, o Brasil conta com o registro de 400 mil veículos blindados. Entretanto, 85% dessa frota está no estado paulista. Ainda do valor total, 40 mil veículos receberam a proteção só em 2025.

“A sensação hoje de insegurança é maior do que os índices, principalmente no estado paulista. Eu posso contextualizar aqui, mesmo com algumas quedas pontuais no número de assaltos, roubo, o que é mais comum acontecer por aqui é o furto de celular, a chamada “gangue do quebra vidro”.

Ela afirma ainda que a procura por blindagem vai além de números registrados pela Segurança Pública, mas tem ligação psicológica também, principalmente após a pandemia, onde a ansiedade e o medo aumentaram. “As pessoas têm medo de perderem alguma coisa, de serem assaltadas, de não terem como agir. Esse sentimento de insegurança está até mais relacionado ao psicológico, o que tem refletido na busca maior por blindagem”. Esse recurso de segurança começa a ser associado a qualidade de vida, explica Andreia. “É um investimento como se você fosse fazer uma viagem: ele vai te trazer uma sensação de estar dentro de um ambiente seguro, e isso faz com que a pessoa se sinta melhor”.

Andreia Canassa traz exemplos de São Paulo, estado que é assolado pelos altos índices de criminalidade | Foto: Acervo Pessoal

O investimento realizado para blindar um carro é um valor considerável. Um modelo Sedan, por exemplo, pode exigir entre R$ 80 mil e R$ 120 mil para ficar à prova de tiros. A presidente afirma que a quantidade de tipos de carros que podem ser blindados tem aumentado diante do avanço tecnológico da blindagem que tem permitido a execução do serviço em carros menores.

Uma nova lógica para a segurança privada

A trajetória dos indicadores mostra que a melhora da segurança pública não significa o encolhimento dos mercados privados ligados à proteção. Ao contrário, a redução da criminalidade cria um ambiente em que empresas passam a buscar novas formas de atuação, seja por meio da tecnologia, da integração com o poder público ou da oferta de serviços mais especializados.

Nesse cenário, a segurança deixa de ser pensada apenas como resposta à criminalidade e passa a incorporar prevenção, monitoramento e gestão de riscos. Câmeras capazes de interpretar imagens, sistemas integrados e seguros com preços influenciados pela redução dos sinistros mostram como a melhora dos índices públicos também produz efeitos econômicos sobre um setor que, cada vez mais, atua em complementaridade com o Estado.

A chamada “mão invisível” do mercado, portanto, não substitui a atuação estatal na segurança pública, mas se adapta a ela. Em Goiás, a queda dos crimes patrimoniais abriu espaço para uma mudança no perfil da demanda privada, com empresas e consumidores incorporando novas tecnologias e formas de proteção enquanto o poder público amplia sua capacidade de monitoramento e prevenção.

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