Antes do feminicídio: como saúde, Justiça, igrejas, família e sociedade podem interromper o ciclo da violência contra a mulher
19 setembro 2026 às 21h00

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A violência contra a mulher não começa no feminicídio. Antes do crime que estampa as manchetes, quase sempre existem sinais que passam despercebidos — ou são deliberadamente ignorados: o controle, a ameaça, a humilhação, o isolamento, a agressão e o medo. Enfrentar o feminicídio não pode ser uma tarefa atribuída apenas à polícia, à Justiça ou aos órgãos de segurança pública. Quando uma mulher é assassinada, o fracasso não está apenas na ponta do sistema. Ele também revela uma sociedade que, muitas vezes, viu os sinais e preferiu não se envolver.
O combate à violência contra a mulher exige uma responsabilidade coletiva. Famílias, escolas, empresas, igrejas, profissionais de saúde, políticos, imprensa, vizinhos e instituições públicas têm papel na identificação da violência, no acolhimento das vítimas e na interrupção de ciclos que podem terminar em morte. Mais do que discutir o que a polícia poderia ter feito depois da tragédia, é preciso perguntar o que cada parte da sociedade pode fazer antes que ela aconteça.
Você já parou para pensar que o olhar atento de um profissional de saúde pode interromper um ciclo de violência e até salvar a vida de uma mulher? Depois de uma agressão física, a vítima costuma estar em um dos momentos de maior vulnerabilidade: ferida, assustada e, muitas vezes, sem saber a quem recorrer. É nesse momento que ela chega a uma unidade de saúde — em alguns casos, acompanhada pelo próprio agressor — e o atendimento médico pode representar uma oportunidade decisiva para identificar o problema, oferecer acolhimento e ajudá-la a romper o silêncio.
Foi durante um exame de mamografia que a equipe da Center X percebeu que havia algo além de um procedimento médico acontecendo. A paciente chegou à clínica acompanhada do marido. Enquanto ele aguardava do lado de fora, ela entrou na sala para realizar o exame. Naquele ambiente, longe do acompanhante, a técnica responsável percebeu hematomas pelo corpo da mulher e perguntou o que havia acontecido.
A resposta veio acompanhada de uma tentativa de esconder a origem das lesões. “A mamografia é um exame em que a mulher fica ali mais exposta, estando só ela e a técnica dentro da sala. Neste caso específico, havia hematomas no corpo dessa mulher. A profissional perguntou pra ela o que tinha acontecido, se ela tava precisando de ajuda e num primeiro momento ela negou, falando que achava que tinha caído”, relata Sheyla Pereira, gerente operacional da clínica.
Para a equipe, porém, a resposta não encerrou a suspeita. Segundo Sheyla Pereira, a mulher deixou transparecer que queria falar, mas não conseguiu. A colaboradora procurou saber o que poderia ser feito, mas, quando voltou para tentar ajudá-la, a paciente já havia deixado o local acompanhada pelo marido.
O agressor não entra na sala, por vezes ele fica ali fora, esperando essa mulher, conta Sheyla.
A situação acendeu um alerta dentro da clínica. O episódio fez a Center X transformar uma situação pontual em uma discussão interna sobre prevenção. Hellen Luiza, médica radiologista e coofundadora da clínica, conta que, a partir daquele caso, a equipe decidiu aproveitar o Agosto Lilás para capacitar os colaboradores e discutir como os profissionais de saúde poderiam reconhecer sinais de violência.
A preocupação não se limita à identificação de hematomas. Uma mulher em situação de violência pode chegar ao serviço de saúde sem conseguir dizer abertamente o que está acontecendo. Por isso, o comportamento, a maneira como o acompanhante se relaciona com ela e até a forma como responde às perguntas também podem funcionar como sinais de alerta.
“Então, essa mulher, por vezes, começa a chorar e é quase um pedido de socorro, porque é um momento que ela tá longe do agressor”, afirma Hellen Luiza. “A violência doméstica não começa com agressão física. Ela vai começar com a agressão psicológica, com a violência verbal e com a violência patrimonial.”
Na recepção, por exemplo, é onde a equipe observa os primeiros sinais. “Normalmente, quando a mulher chega acompanhada, a gente percebe quando ela não tem muita voz ativa. A gente direciona as perguntas para ela, mas é o companheiro quem responde. Então, esse é um comportamento que chama a nossa atenção”, afirma Iza Gusmão, supervisora de agendamento da Center X.
Segundo ela, outro comportamento observado é quando o companheiro tenta permanecer ao lado da mulher durante todos os momentos do atendimento, inclusive quando não há necessidade de acompanhamento. A intenção, em alguns casos, pode ser controlar o que ela fala e com quem conversa.

Hellen Luiza ressalta, porém, que a equipe também precisa ter cuidado para não transformar comportamentos comuns em acusações. A própria clínica incorporou perguntas de segurança ao atendimento. Iza Gusmão explica que, em determinados exames, a paciente é questionada sobre sua preferência em relação ao gênero do profissional que realizará o procedimento.
O olhar também se estende para os exames de imagem. Para Hellen Luiza, a radiologia pode revelar marcas de agressões que não necessariamente aparecem na história contada pelo paciente. Lesões em diferentes estágios de cicatrização, fraturas incompatíveis com o relato de uma queda e traumas em regiões menos expostas do corpo podem levantar suspeitas.
“Geralmente, a história não bate com o achado de imagem. Às vezes, a pessoa apresenta traumas antigos, de diferentes fases de cicatrização. Isso acontece porque, quando a violência é recorrente, geralmente não é a primeira vez que ela procura atendimento. Muitas vezes, é na segunda, terceira, quarta ou quinta vez que ela consegue chegar ao médico. E, em muitos desses casos, infelizmente, a situação acaba evoluindo para um homicídio”, explica a médica radiologista.
A comparação com exames anteriores também pode ajudar. Iza Gusmão explica que a clínica mantém um banco de dados com informações dos pacientes, permitindo que exames atuais sejam comparados com imagens realizadas anteriormente. “Então, é possível verificar, fazer essa análise comparativa de um exame anterior com o exame atual”.
Esse histórico pode se tornar especialmente importante quando a paciente não consegue ou não quer relatar o que aconteceu. A equipe pode encontrar uma sequência de lesões que não aparece na narrativa apresentada naquele momento.
Para Hellen Luiza, a responsabilidade do profissional não termina quando a lesão é identificada e descrita no laudo. A imagem pode revelar uma agressão, mas o atendimento também pode representar uma oportunidade de interromper um ciclo que, em alguns casos, já dura anos.
Então, assim, na medicina, precisamos ter esse olhar atento, mais humano, que muitas vezes pode salvar vidas. Precisamos buscar esse caminho, porque, se olharmos uma imagem e não associarmos o que está vendo à história clínica, nós estamos fazendo apenas o básico. Eu não estou fazendo errado: eu vi uma lesão, diagnostiquei, descrevi corretamente e vai ter o tratamento adequado. Mas e aí? O que vai ser da vida dessa mulher? Qual é a chance e a oportunidade que ela tinha de ser salva? Aqui na clínica, graças a Deus, temos um controle de qualidade e, quando identificamos uma lesão desse tipo, alertamos o médico.
Foi a partir dessa pergunta que a clínica estruturou um protocolo para situações consideradas críticas. A ideia é acelerar o atendimento e criar um caminho para acionar a rede de proteção quando houver indícios de violência.
“Então, diante de uma situação como essa, tratamos como um achado crítico. Essa paciente passa a ter prioridade para a liberação do diagnóstico e do laudo. E foi aí que entrou a parceria com o Batalhão Maria da Penha: para saber o que fazer diante de uma situação como essa”, completa Sheyla Pereira.
O procedimento, no entanto, tem limites. A equipe não pode impedir fisicamente que uma paciente deixe o estabelecimento. Se ela estiver acompanhada pelo agressor e sair antes que o atendimento seja concluído, a clínica pode acionar a polícia, mas a partir daquele momento a situação passa a depender da atuação das autoridades responsáveis.
A Center X afirma que o episódio da mamografia não se transformou em uma rotina de casos dentro da clínica, justamente porque se trata de um serviço de exames eletivos, e não de uma unidade de emergência. Ainda assim, Hellen Luiza chama atenção para a possibilidade de situações desse tipo aparecerem em horários e períodos em que a violência doméstica tende a aumentar.
O aprendizado adquirido com a violência contra mulheres também se conecta a outro tipo de vítima: crianças. Hellen Luiza lembra de um caso ocorrido durante um plantão no Hospital Samaritano, em que uma criança que ainda não caminhava chegou ao pronto-socorro com uma fratura na perna.
A idade da criança e o tipo de fratura fizeram com que o exame levantasse uma suspeita que não poderia ser ignorada. “Primeira pergunta que eu fiz para a mãe. Ele anda? Não. Ele tentou andar? Está tentando andar? Não. Aí eu já não tinha dúvida.”
O laudo apontou uma fratura que, segundo Hellen Luiza, era compatível com maus-tratos. A investigação posterior mostrou que a mãe não havia sido responsável pela agressão. “Descobriram que não era da mãe. Era o pai que tinha batido. A mãe estava inocente. Ela não estava entendendo. Ela não estava nem sabendo.”

O episódio reforçou para a médica a importância de observar aquilo que não é dito. A violência, muitas vezes, pode acontecer dentro de casa sem que outros familiares tenham conhecimento do que ocorre. “A maior parte das violências e dos abusos acontece dentro de casa, são situações domésticas”, continua Hellen Luiza.
Mas reconhecer a violência é apenas o primeiro passo. Para as profissionais da Center X, outro desafio é saber como agir sem colocar a própria vítima em uma situação ainda mais perigosa. Uma intervenção inadequada pode fazer com que ela deixe de procurar ajuda ou seja exposta ao agressor.
“É uma linha muito tênue entre o ajudar e o atrapalhar nessa situação. Porque ela quer ser ajudada. Mas ela não consegue pedir. Nós temos uma responsabilidade muito grande. Da mesma forma que a gente quer ajudar, a gente não pode atrapalhar”, afirma Hellen Luiza.
A médica lembra ainda que muitas mulheres desistem de denunciar mesmo depois de chegarem a procurar ajuda. Dependência financeira, medo e diferentes vínculos podem influenciar essa decisão.
Às vezes é dependência financeira. Nós não sabemos. As vidas são muito subjetivas. Cada uma tem as suas relações. Nós temos que realmente fazer a nossa parte. De uma maneira organizada e protocolada.
É nesse ponto que as profissionais defendem que a prevenção não pode depender exclusivamente da vítima. Para elas, o conhecimento sobre os sinais da violência precisa chegar também a quem está ao redor.
É uma rede. Não é só um trabalho da justiça ou só da segurança.
A pergunta que permanece, então, é se essa percepção está presente em toda a rede de proteção. Para Sheyla Pereira, o principal desafio está na integração entre os diferentes setores que precisam atuar quando uma mulher sofre violência.
“Eu acho que falta o alinhamento, o entrosar, a integração das áreas.”

Hellen Luiza amplia a avaliação para a relação entre saúde, segurança, Justiça e poder público. Para ela, profissionais que estão diariamente em contato com possíveis vítimas precisam estar conectados aos demais setores responsáveis pela proteção.
Eu vejo, como na área da saúde, algo que parece que nós andamos numa caixinha separada do resto, sendo que eu acho que é fundamental estarmos associados.
Na avaliação dela, iniciativas criadas individualmente por instituições podem ajudar, mas uma integração mais ampla poderia aumentar a capacidade de identificação e resposta. A médica também chama atenção para uma mudança que considera necessária na forma como a sociedade encara a violência contra a mulher. Em vez de esperar que o problema chegue às instituições públicas, ela defende que cada pessoa reconheça o papel que pode desempenhar.
Para Hellen Luiza, o conhecimento é uma das principais ferramentas para que familiares, amigos, profissionais e vizinhos saibam identificar os sinais e, principalmente, entendam até onde podem agir sem aumentar o risco para a vítima.
Iza Gusmão concorda que o enfrentamento passa por uma espécie de corrente, em que diferentes instituições e pessoas reconhecem sua responsabilidade. Para ela, a experiência da Center X poderia ser reproduzida em outros ambientes.
Então, cada um reconheceu o seu papel e como que você pode apoiar e ajudar. Surgiu aqui, numa instituição privada, esse apoio. Por que não, por vezes, isso acontecer de uma corrente de outras instituições.
Na Center X, o caso que começou com uma paciente em uma sala de mamografia terminou provocando uma mudança na forma como a equipe olha para o próprio trabalho. A imagem continua sendo o centro do serviço, mas, para as profissionais, ela não pode ser separada da pessoa que está diante do equipamento. “É uma rede. Não é só um trabalho da Justiça ou só da segurança”, resume Hellen.
A história daquela mulher, que deixou a clínica antes que a equipe conseguisse estabelecer contato com o Batalhão Maria da Penha, permanece sem desfecho conhecido para as profissionais. Se ela voltar para realizar a próxima mamografia, porém, o atendimento será diferente. O histórico estará registrado e a equipe estará atenta aos sinais.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das questões centrais quando se fala em prevenção do feminicídio: nem sempre é possível saber quando aquela oportunidade será a última. Mas, para quem trabalha na ponta, reconhecer um sinal pode significar a diferença entre simplesmente registrar uma lesão e perceber que, por trás dela, existe uma mulher precisando de ajuda.

A diferença da rede privada com o pronto-socorro
Se na Center X o alerta surgiu durante um exame de imagem, nos hospitais de alta complexidade a violência chega, muitas vezes, pela porta do pronto-socorro. Para Haikal Helou, presidente do Conselho de Administração da Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade do Estado de Goiás (Ahpaceg), a experiência de quem trabalha nesses serviços mostra que os casos raramente começam e terminam em uma única agressão.
“Dificilmente você atende alguém que já não passou por isso antes. Era muito comum estar de plantão e você ver uma mulher que chegava e ela não falava, depois ela dizia que caiu, depois ela dizia que já estava melhor e que iria embora.”
Segundo Haikal Helou, o medo, a vergonha, a culpa e a presença do próprio agressor estão entre os principais obstáculos para que a violência seja revelada. “É muito raro, eu lembro com muita dificuldade de alguma mulher chegar e dizer: ‘o meu marido me bateu’.”
Em alguns casos, porém, a gravidade das lesões deixa pouco espaço para dúvidas. Haikal Helou cita um episódio ocorrido em um hospital em que uma mulher foi espancada pelo companheiro até entrar em coma. O agressor teria apresentado aos profissionais uma versão de que ela havia caído no banheiro. A paciente morreu dias depois.
Para o médico, casos extremos como esse são apenas a face mais visível de um problema que costuma escalar aos poucos. “Esses são os casos mais extremos, mas é muito raro você ver um que só aconteceu uma vez. Se você conversar com a mulher, ela vai dizer que é a quarta ou quinta, mas quer justificar que ele estava nervoso ou que ele havia bebudo e até mesma que ela teria provocado aquela agressão. Há muito uma tentativa de minimizar o quadro e de contemporizar.”
É justamente nesse intervalo entre a primeira agressão e o agravamento da violência que o presidente vê uma oportunidade para os serviços de saúde. Ele defende que profissionais sejam preparados não apenas para tratar as lesões, mas também para reconhecer sinais que podem indicar uma situação de violência e saber qual caminho seguir.
Eu acho que uma campanha pode ser feita. Um treinamento mais intensivo, no sentido de perceber os sinais. Que nem sempre são óbvios. Qual a conduta que deve seguir. O gatilho. O disparo legal.
O médico também chama atenção para a existência de mecanismos de notificação dos casos de violência e para a necessidade de que os profissionais conheçam os procedimentos previstos. “Porque não sei se todo mundo sabe que existe essa necessidade de notificação compulsória. Não só à polícia, mas também ao Estado e ao Ministério da Saúde.”
Para Haikal Helou, a saúde precisa estar inserida na rede de proteção desde o primeiro atendimento. O profissional pode ser a primeira pessoa fora do círculo familiar a perceber que aquela mulher não chegou ao hospital apenas por causa de uma lesão.
“A responsabilidade nossa é do primeiro atendimento. (…) A responsabilidade é óbvia, é de dar socorro, é nossa obrigação, é o nosso juramento, é a nossa profissão, é de dar socorro e amparar e entender que não são ferimentos só físicos, existem outros níveis de ferimentos e essa pessoa precisa de cuidado.”
A experiência também deixou marcas no próprio médico. Ao lembrar das mulheres que atendia no pronto-socorro, Haikal Helou diz que o mais difícil era perceber que muitas criavam coragem para procurar ajuda, mas ainda assim carregavam a sensação de culpa e constrangimento.
Acho que dois lugares mudam as pessoas pro resto da vida: pronto-socorro e delegacia. Ali você conhece o que é pior do ser humano: violência contra mulher, violência contra criança, violência entre parentes, violência de todas as formas. É o ser humano fazendo coisas uns com os outros que você vê e não acredita.

Para ele, o desafio da rede de proteção não está apenas em criar mecanismos de atendimento, mas em impedir que a violência seja naturalizada. “E você não pode acostumar com isso nunca. Você passar a achar que isso é normal, o problema passa a ser você.”
A avaliação de Haikal Helou sobre a integração entre os serviços é mais cautelosa. Segundo ele, os hospitais têm obrigações de notificação, mas existem limites para o compartilhamento de informações entre instituições, especialmente em razão do sigilo médico e da proteção dos dados dos pacientes. Para ele, cabe ao poder público fazer a articulação necessária entre os diferentes pontos da rede.
Mais do que ampliar a estrutura depois que a agressão acontece, o médico defende que a prevenção comece pelo preparo de quem está diante da vítima. “Por isso, eu quis, de alguma forma, participar. Porque é uma abordagem do ponto de vista da assistência médica. Não da assistência policial.”
A proposta, para ele, é transformar a experiência acumulada nos hospitais em conhecimento compartilhado entre os profissionais. “Então, sim. Eu acho que essa abordagem é necessária para que haja essa provocação. Para que haja um preparo, um curso, um simpósio. Algo nesse sentido.”
“Não é possível falar em defesa da família enquanto uma mulher está sendo violentada”
Se hospitais e clínicas podem ser portas de entrada para identificar a violência, outros espaços de confiança também podem cumprir esse papel. Para a vereadora Aava Santiago (PSB), que levou a discussão sobre o enfrentamento à violência contra a mulher para dentro de comunidades religiosas, as igrejas precisam estar preparadas para acolher mulheres que procuram ajuda antes mesmo de chegar aos serviços públicos.
“Eu decidi levar esse debate para dentro da igreja porque, para muitas mulheres, especialmente para as mulheres cristãs, a igreja é um lugar de vínculo, confiança e acolhimento. Muitas vezes, antes de procurar uma delegacia ou qualquer serviço público, essa mulher conversa com uma pastora, um pastor ou uma liderança em quem confia. Então, se a igreja é um lugar onde essa mulher confia, também precisa ser um lugar onde ela esteja protegida.”
A parlamentar afirma que o desafio é preparar as lideranças para reconhecer situações de violência e saber encaminhar as vítimas. Segundo ela, em 2021, foi construída uma parceria com a Defensoria Pública para discutir os aspectos teológicos e jurídicos da violência contra mulheres e meninas nas instituições religiosas.
Para Aava Santiago, o acolhimento precisa ocorrer sem culpabilizar a vítima ou usar a preservação da família como justificativa para mantê-la em uma relação abusiva.
Não é possível falar em defesa da família enquanto uma mulher está sendo violentada dentro daquela família. A família não pode ser um argumento para pedir que uma mulher suporte a violência.
Ela também defende que a liderança religiosa não tente substituir os serviços especializados. O papel da igreja, na avaliação dela, é criar um ambiente seguro e funcionar como uma ponte para a rede de proteção.
“A igreja não substitui a delegacia, a Defensoria, o serviço psicológico ou a assistência social. Mas pode ser uma ponte muito importante entre essa mulher e toda essa rede.”

A parlamentar cita ainda experiências realizadas em Goiás para aproximar diferentes comunidades religiosas da rede de proteção. Em 2024, segundo ela, representantes de diferentes tradições religiosas, além da Defensoria Pública e da OAB Goiás, participaram da construção de uma Carta-Compromisso pelo Enfrentamento às Violências contra Mulheres e Meninas.
A proposta, afirma Aava Santiago, é fazer com que a prevenção deixe de depender de iniciativas isoladas. Para isso, ela defende formação permanente das lideranças, acesso aos canais de proteção e a inclusão dos homens nas ações de prevenção.
“Precisamos discutir masculinidade, machismo, controle, ciúme, violência e responsabilidade. A igreja pode ser um espaço muito poderoso de transformação porque trabalha com valores e com vínculos comunitários. Mas isso precisa ser colocado a serviço da proteção, e não do silêncio.”
Para ela, aproximar as comunidades religiosas da rede pública não significa criar uma estrutura paralela, mas ampliar os caminhos pelos quais uma mulher pode chegar à proteção.
“Eu comecei a trabalhar com isso justamente porque acredito que precisamos chegar antes do feminicídio. Se uma mulher encontra, dentro da própria comunidade de fé, alguém que reconhece a violência, não a culpa, não manda que ela simplesmente aguente e sabe encaminhá-la para o lugar certo, essa comunidade pode ajudar a interromper um ciclo de violência.”
Mais de 23 mil medidas protetivas em Goiás apenas em 2026
Se a violência pode dar seus primeiros sinais em uma sala de exames, em casa, no trabalho ou dentro de uma igreja, é no Judiciário que muitas mulheres chegam quando precisam transformar o pedido de ajuda em uma medida concreta de proteção. Mas os números mostram que a decisão judicial, sozinha, não encerra o risco.
Em Goiás, 23.188 medidas protetivas de urgência foram solicitadas entre janeiro e junho de 2026. Deste total, 14.213 foram concedidas, segundo dados do Tribunal de Justiça de Goiás. No mesmo período, 1.319 foram negadas e 4.969 revogadas. Em 72% dos casos, a primeira decisão ocorreu em até um dia.
A desembargadora Alice Teles explica que, depois da concessão, a proteção depende também do acompanhamento do caso e da atuação dos demais órgãos. Polícia Militar, Batalhão Maria da Penha, Ministério Público, Defensoria Pública, assistência social e saúde precisam atuar de forma articulada para que a decisão judicial se transforme em proteção efetiva.
A realidade mostra, porém, que mesmo uma medida protetiva não elimina completamente o perigo. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, cinco das 59 mulheres assassinadas em feminicídios em Goiás no ano de 2025 tinham uma medida protetiva de urgência ativa quando morreram. O número foi o mesmo registrado em 2024.
Para Alice Teles, a medida é fundamental, mas precisa estar acompanhada de uma avaliação contínua do risco. Histórico de violência, ameaças, perseguição, descumprimento de medidas anteriores, acesso a armas e situações relacionadas ao rompimento da relação estão entre os fatores que podem indicar agravamento do perigo.
“E há uma compreensão muito importante quando falamos em feminicídio: o feminicídio pode ser prevenido, pois ele é precedido por episódios sucessivos de violência, ameaças, perseguição, controle e outros sinais de agravamento do risco. Identificar esses sinais e agir precocemente pode salvar vidas.”
A Justiça também passou a contar com mecanismos que buscam aumentar a capacidade de fiscalização. A Lei nº 15.383/2026 incluiu expressamente a monitoração eletrônica entre as medidas protetivas de urgência, com prioridade em situações de descumprimento anterior ou risco iminente. O equipamento pode ser associado a um dispositivo ou aplicativo para a vítima, capaz de emitir alertas quando o agressor ultrapassa o perímetro determinado pela Justiça.
Mas talvez uma das respostas mais importantes para a prevenção esteja justamente antes de a mulher chegar ao Judiciário. Um estudo realizado em Goiânia pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) em parceria com a Vital Strategies analisou a trajetória de mulheres vítimas de violência entre 2010 e 2020, cruzando notificações, internações e óbitos.
O levantamento encontrou que mulheres notificadas por suspeita de violência apresentaram risco quatro vezes maior de morrer por causas externas do que a população feminina em geral. Em alguns casos, a morte ocorreu menos de 30 dias depois da notificação. O estudo também mostrou que 70% das internações por agressão não tinham registro de notificação no sistema de vigilância.
O dado que mais aponta para uma possibilidade concreta de prevenção é outro: mulheres atendidas pela saúde e encaminhadas para serviços de proteção apresentaram redução de 64% no risco de morte por feminicídio. Quando o encaminhamento ocorreu para serviços da Justiça, a redução observada chegou a 80%.
É justamente essa trajetória que o Projeto Piloto de Vigilância do Feminicídio no Brasil, coordenado pelo Ministério da Saúde em articulação com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e com participação de Goiânia, pretende aprofundar para entender por onde essas mulheres passaram antes de morrer e quais sinais poderiam ter indicado que estavam em situação de risco.
Para Alice Teles, o desafio é fazer com que esses diferentes pontos deixem de funcionar como caminhos separados.
Eu acredito que esse é um dos caminhos mais promissores para a prevenção do feminicídio: fazer os dados conversarem entre si e transformar cada contato da mulher com o poder público em uma possível oportunidade de proteção.
A frase resume o desafio apresentado ao longo desta reportagem. A mulher pode falar primeiro com uma amiga, uma irmã, uma liderança religiosa, um profissional de saúde ou chegar diretamente à polícia. Pode carregar no corpo uma lesão que conta uma história que ela ainda não consegue contar. Pode procurar ajuda e desistir. Pode receber uma medida protetiva e continuar em risco.
Em todos esses momentos existe uma oportunidade de interromper o ciclo.
O feminicídio costuma aparecer nas estatísticas como o último ato de uma história que começou muito antes. Por isso, impedir que uma mulher chegue a esse ponto depende menos de uma única instituição e mais da capacidade de todas elas reconhecerem que, antes da morte, houve sinais.
E talvez a pergunta mais importante não seja apenas quantas mulheres morreram. É quantas tiveram contato com alguém que poderia ter percebido o que estava acontecendo — e quantas dessas oportunidades ainda podem ser transformadas em proteção antes que seja tarde demais.
ONDE BUSCAR AJUDA
Batalhão Maria da Penha
Mulheres que se sentem violadas, abusadas ou agredidas podem procurar atendimento do Batalhão Maria da Penha, em Goiânia.
WhatsApp: (62) 9 9930-9778
Atendimento presencial: Setor Coimbra, próximo ao supermercado Hiper Moreira, em Goiânia.
O contato também pode ser feito por aplicativo.
Outros canais
- Polícia Militar – 190;
- Central de Atendimento à Mulher – 180;
- Delegacia da Mulher;
- Batalhão Maria da Penha;
- Defensoria Pública;
- Serviços de saúde;
- Canais de denúncia.
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