Quando a saudade canta o natal
18 agosto 2026 às 09h55

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Nelly Alves de Almeida
Patrono e 1ª titular da cadeira 31 da AFLAG
Evoguei-as com saudade nesta aproximação festiva do Natal. Que alegria recebê-las naquele reunião amiga de almas sem nome no turbilhão da vida, mas cheias de luz na simplicidade dos humildes!
Quando se ia aproximando o dia de nosso reencontro, lembro-me de que minhas mãos se enchiam de ternura, uma ternura diferente que tinha que ser repartida com elas, que a mereciam.
Então, vinha-me à alma mansidão infinita, tão infinita que se tornava indefinível e me envolvia como se fosse essência de santidade, tornando-me diferente o coração.
Reuníamo-nos a 23 de dezembro, véspera do Natal, e juntas, comemorávamos o aniversário de Jesus, sentindo a magnificência do grande dia. Ah! as minhas amigas queridas que a vida me deu e que a vida levou!
Conhecemo-nos pela força das circunstâncias, que os fatos cotidianos se encarregaram de plasmar no correr sucessivo do tempo.
Todas me serviram na função de lavadeiras: Silivera, Conceição, Maria, Zefa, Manoela… faziam como que um rodízio; quando uma se cansava da bruteza do tanque, da aridez do sol ou da umidade das chuvas, vinha outra substituí-la. E nossa amizade foi crescendo em confiança e afetividade.
No Natal, trocávamos presentes, relembrávamos casos, ríamos-nos em meio à nossa festa. Meu parco ordenado de professora, relativo ao mês de dezembro, pertencia-lhes, transformado em vestidos coloridos, de acordo com o gosto de cada uma. E delas recebia também, um presentinho que se tornava régio para meu coração.
Silivera, com ares de líder de uma turma sempre se ufanava com a pretensão de querer trazer-me o melhor; uma caixa de pó de arroz Coty que, segundo afirmava, “não era comprado em Farmácia da vila não, mas na de Sô Felinho, que fica na Avenida, onde tinha tudo quanto era movimento…”
Conceição, vaidosa, exibia-me, como dádiva, um litro de polvilho alvinho, tão alvinho “feito trigo comprado em armazém granfino”. Elogiava-o como sua obra-prima, lamentando a sovineza do dono da chácara em que morava, que lhe não permitia arrancar mais de pé de mandioca para conseguir em maior quantidade, o produto de seu interesse.
O presente de Maria comovia-me muito: lavava-me de graça a roupa da semana, na véspera do Natal. Molhavam-se-me os olhos ao receber aquela dádiva caríssima, umedecida de sacrifício.
Zefa, também, enternecia-me: vinha de longe, a pé, arrastando cansaço e revendo do saudades, animada somente pela força de trazer-me sua parte: chegava disposta a torrar-me muitas bebidas de café. “Ah!” afirmava ela, relembrando um elogio materno; “ninguém torrava café com tanto acerto não,” (Estávamos nos primórdios de Goiânia, e não contávamos, ainda, com o café prontinho, em pacotes).
Manoela, tinha um filho doente e presenteava-me, todos os anos, com uma latinha de doce de cidra em pedaços e feito com encomparável capricho. Doía-me recebê-lo: quem sabe não estaria ela arrancando-o da gulodice do filho enfermo?
E nosso encontro era uma festa! Sentavamo-nos em torno de minha mesa preparada especialmente para elas. Éramos uma assembléia de cordialidade e compreensão, que alicerçava um carinho especial, firmado em estima que caminhou no tempo como um desafio ao desamor.
Alta, magrinha, ágil, Silivera era a que mais falava. Perdera uma vista, mas não se desesperara por isso. Conceição era filósofa e gostava de relembrar o nada da vida, o egoísmo dos homens…
Maria chorava sempre a amargura do abandono em que a deixara o companheiro, a arcar, sozinha, com arrimo da filharada.
Zefa, que não se casara nunca, mas que tivera muitos amores, relembrava-os, ironizando uns, recordando apaixonadamente outros, cuja lembrança lhe ficara perpetuada no coração.
Manoela, viúva, sustentava o peso de uma vida difícil, sofrendo, ainda, a dor imensa de saber irrecuperável o filho doente.
Mas o certo era que, naquele nosso encontro na véspera do Natal, todas as mágoas se eclipsavam, todos os sofrimentos se escondiam, todas as frustações se diluiam na atmosfera de felicidade que nos unia como a irmã que se queriam muito – minhas lavadeiras, que a vida levou e eu, que as perdi.
E, nesse 23 de dezembro que se aproxima, eu as revejo na melodia das músicas que sonificam o ar no ir e vir apressado dos que sonham, no anseio dos que amam, no riso cristalino dos que esperam, na segurança dos que têm fé, porque eu sei que, nesse dia, a terra se encontra com o céu e Jesus, descendo até nós, une as estrelas com as flores. E, com o brilho de uma e com o perfume de outras, incensa o coração do mundo, que pulsa em suas criaturas.
E a lembrança de Silivera, Conceição, Maria, Zefa e Manoela, que me serviram tanto, está viva em meu coração, como presente de Deus. E, na noite infinita de Jesus- Menino, sinto que a saudade canta dentro de mim, num louvor à memória grandiosa de minhas amigas humildes.
Dezembro, 72.
Natural da fazenda Cachoeira, no município de Jaraguá, Goiás, nascida em 1º de outubro de 1916
Faleceu em Goiânia, em 5 de dezembro de 1999
Fez os primeiros estudos no Colégio Santana de Goiás. Bacharelou-se em Línguas Neolatinas pela UCG, dedicando-se ao magistério. Membro titular e co-fundador desta Academia, tomou posse na AFLAG em 9 de novembro de 1970. Seu currículo e um trabalho, em área literária, estão publicados no Anuário 1970. Acadêmica atuante, participou de quase todos os anuários, com crônicas ou trabalhos de análise filológica, atividade em que se especializou, ao longo de sua vida. Faz parte do Museu de Imagem e Som da AFLAG. Foi vice-Presidente da Academia até 1994, quando, por problemas de saúde, afastou-se da Diretoria.
Foi membro da União Brasileira de Escritores, Seção de Goiás, da Academia Goiana de Letras, da Associação Goiana de Imprensa e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Recebeu inúmeros diplomas, medalhas e troféus, que se encontram em seu memorial, na AFLAG. Emprestou seu nome a auditórios, salas e bibliotecas.
Obras publicadas:
- Estudo sobre quatro regionalistas, 1968, com 2ª edição, 1985;
- Hugo de Carvalho Ramos, ensaios;
- Bernardo Elis, ensaios;
- Carmo Bernardes, ensaios;
- Mário Palmério, ensaios;
- Presença literária de Bernardo Elis, 1970;
- Estudo sobre a crase, 1970;
- Estudo sobre lingüística, 1970;
- Estudo sobre análise sintática, 1970;
- Análise literária de Jurubatuba,1972;
- Tempo de Ontem, 1972;
- Análise de Homens de Palha, 1973;
- A fala Roseana, 1973;
- Análises e Conclusões, 2º vol., 1988.
Leia também: Romaria do Bonfim ao civismo de Natividade


