Ana Braga

Patrona e 1ª Titular da Cadeira 4 da AFLAG

            Bonfim é um local antigo, dos tempos da Província. Chão pisado, também, pelos escravos e garimpeiros, à época do esplendor aurífero da histórica Natividade.

            Em Bonfim se realiza todos os anos, no dia 15 de agosto, a maior romaria do Estado do Tocantins. Antigamente devotos iam ali somente a cavalo ou, então, a pé. Hoje, toda a região tocantinense dispõe de excelentes rodovias asfaltadas. O povoado do Bonfim, sede da Romaria, se distancia apenas 60km de Natividade, cuja riqueza de história e tradições conferiu-lhe o título de CAPITAL DO TOCANTINS. Mas, até hoje, muita gente, seja pela experiência e aquisição de informações, ainda vai a pé ao Senhor do Bonfim.

            Natividade se liga às cidades do nordeste brasileiro por excelentes estradas asfaltadas. Mesmo assim os romeiros ainda vão àquela romaria, a pé, para cumprirem suas promessas, levando seus variados ex-votos. Centenas de pessoas, se dirigem àquela vila, onde se guarda, ainda, singelo e humilde aspecto provinciano. À época das festas, pelas poucas e desalinhadas ruas do povoado se acotovelam milhares de devotos, comerciantes, turistas. A festa é precedida de novenário, com “padrinhos” de cada noite. Durante esses nove dias, há terços e missas na igreja.

            Erguem-se no povoado, por essa ocasião, centenas de barracas às suas margens, desde o centro da vila, até às margens do Rio Manoel Alves, que oferece, nesse tempo, praias, água límpida e corrente. O alívio das sombras de grandes árvores que ladeiam a margem direita desse rio amaina o calor intenso.

            À noite, depois dos leilões, os seresteiros aparecem com seus violões e modinhas. Há bailes e arrasta-pés por todo lado. Alegria! Então, os amigos se reencontram, mais das vezes, depois de muito tempo de distanciados. Nos barracões e nas poucas casas, hospedam-se dezenas de pessoas. Porém, a alegria e a fé que a todos anima, apagam o desconforto. A felicidade de se estar “aos pés do Senhor do Bonfim” é contagiante.

            O Senhor do Bonfim: A imagem é antiga. Um crucifixo de mais de metro, feito de madeira trabalhada se ergue acima do altar principal. Dele pende o Cristo. O amor e o sofrimento se misturando no seu rosto e no seu corpo ensanguentado.

            No dia 15 de agosto, todos os anos, é o dia da missa festiva. Os milhares de romeiros na praça, (que se torna pequena para acolhê-los). À hora da bênção com a imagem, aquela multidão entoa o Canto do Senhor do Bonfim. Milhares de mãos se erguem. Há risos e lágrimas. A fé invade a todos.

            Antigamente, por ali havia muitas árvores e um cipoal denso, sob os quais os romeiros se alojavam. Era a hospedaria que, então, a natureza oferecia aos devotos, sob aqueles cipós entrelaçados, nos quais belas orquídeas se prendiam, enfeitando e perfumando aquelas barracas tão originais. Modernamente, tudo se modificou: barracões de lona se misturando com os de palha; comida oferecida em improvisadas pensões, guloseimas oferecidas nas esquinas e sob frondosas mangueiras. Música alta saindo dos alto-falantes, pelas verdadeiras ruas de barracões de palha. A animação geral! Na igreja, dia e noite, fiéis cumprindo promessas. Contam-se os mais variados milagres, precedidos cada um de interessantes estórias ou, quem sabe? Verdadeiras histórias.

            Bonfim, nos dias da Romaria, é um cenário de demonstrações religiosas. Mas, entre as barracas de palha e as casas antigas, no vai e vem pelas ruas estreitas, o observador atento pode ver o carro de bois, o vendedor de “bugigangas”, os potes e vasos de barro, artesanatos vindos de longe. Cavalos, automóveis, carroças, caminhões e bicicletas se misturando, por todo lado, num confronto do antigo com o moderno. Às vezes se torna escassa a água. O sol queima. Os restaurantes são improvisados.

            Há poucos anos, a maioria dos romeiros levava seus alforjes, suas bruacas, latas e outras vasilhas cheias de biscoitos e bolos tradicionais; não faltava “beréns” saborosos, nem a “paçoca de carne socada no pilão”.  Outros levavam seus vasilhames e faziam suas comidas sob sombras de copadas árvores, ou cozinhavam-nas ali mesmo, ao relento.

            Há 50 anos, água encanada chegou às casas, em 1973. Antes, era comum se verem nas praças as mulheres com potes e latas na cabeça, levando água para o abastecimento das barracas.

            Hoje, porém, tudo mudou. Só vai a pé ao Bonfim quem o faz por promessa ou por curiosidade. Há transporte por todo lado. A igreja cuida de assistir os romeiros, oferecendo-lhes orientação.

            Desde que foi instalado o Estado do Tocantins, o Governador, todos os anos assiste, à missa com os romeiros. E, juntos, agradecem a Deus o progresso e as bênçãos para o povo tocantinense.

            À Romaria do Bonfim é comum a afluência dos que vêm do Norte nordestinos e do Brasil Central. Ainda, de outras regiões. No entanto, o que nos chama a atenção, na romaria, é a continuidade daquela tradição religiosa, que se repete, sem receber a influência do luxo ou das ostentações modernas. Em tudo, a originalidade, os primitivos costumes, a singeleza do povo, a repetição dos cantos e cerimônias religiosas, numa humilde demonstração de pura fé que a todos anima.

            A missa do dia do Senhor do Bonfim é celebrada na praça, frente à vetusta igrejinha. No altar, bem alto, as autoridades religiosas celebram o santo ofício. E foi dali que, em 15/08/1993, D. Celso Pereira de Almeida, (que durante 23 anos foi Bispo da Diocese de Porto Nacional), leu, à vista de todos os romeiros, o Decreto de sua Santidade, o Papa João Paulo II, documento de 29/05/1992, cujo Diploma papal concedeu à Nossa Senhora da Natividade o título de PADROEIRA DO ESTADO DO TOCANTINS.

            Esse DECRETO resultou de um longo trabalho iniciado por mim Ana Braga, quando Diretora do ex-Departamento de Cultura do Estado. No dia instalação do Conselho de Cultura desse novel Estado, (14/5/1989), numa sessão solene que aconteceu no átrio da igreja da Padroeira daquela cidade, depois de uma missa soleníssima. Foi um fato histórico a que estiveram presentes o ex-Governador Siqueira Campos e todo seu secretariado; todos os deputados estaduais e federais e, também, os Senadores do Tocantins, da primeira legislatura tocantinense.

            No seu discurso de abertura da sessão, a Diretora do Departamento de Cultura, Sra. Ana Braga, lançou o movimento para se pedir à Santa Sé decretasse como Padroeira do Tocantins – Nossa Senhora da Natividade. Trata-se da 1ª imagem que penetrou a terras tocantinenses trazida, em 1735, pelos jesuítas do Grão-Pará até o vilarejo de São Luiz, que, pela Lei Provincial nº 769, foi elevado à categoria da cidade com o nome atual: NATIVIDADE! (A mais velha cidade tocantinense, cujas história e tradição consagraram-na como Capital deste novo Estado).

            No dia 08/09/1996, em solenidade de alto significado religioso e histórico, na Igreja Matriz daquela cidade, D. Celso Pereira de Almeida, OP., colocou na venerada e bicentenária imagem de Nossa Senhora de Natividade a faixa: “PADROEIRA DO TOCANTINS”. Ouviram-se, então, hinos, aclamações e salva de tiros em louvor ao acontecimento.

            Sob aclamações, o então Governador Siqueira Campos assinou DECRETO, da mesma data, estipulando o dia 8 de setembro, dia da Padroeira do Tocantins, feriado estadual.

            Fez parte do ritual daquela solenidade a colocação na cabeça da padroeira de pesada coroa de ouro nativitano, (obra de arte do mais famoso ourives tocantinense, o falecido artesão Juvenal Rodrigues). Esse notável artista fez de Natividade um centro de aprendizado de ourivesaria. Foi Juvenal Rodrigues, com sua arte admirada em outros estados do Brasil, quem fez, ainda, os colares e a PALMA, em ouro, que ornam a referida e venerada imagem.

            Para registro histórico, saibam os tocantinenses que Ana Braga, ex-Diretora do Departamento de Cultura do Tocantins, foi autora de toda correspondência oficial indispensável ao processo em que se pleiteou para Nossa Senhora da Natividade o título de Padroeira do Tocantins. Esse processo foi enviado ao Bispado de Porto Nacional e, logo mais, ao Vaticano. Foi, também, à Dra. Ana Braga que o Vaticano encaminhou o DECRETO de S. Santidade, Paulo II, no qual o Santo Padre também nomeou Padroeira do Tocantins – Nossa Senhora da Natividade. E foi por carta de 21 de agosto de 1992, que D. Celso comunicou à Dra. Ana Braga, que o Santo Padre lhe enviou correspondência, anexada ao referido DECRETO.

            Fizeram parte da Comissão, acima referida, o pároco de Natividade, Pe. Joatan Bispo de Macedo, Dr. Bolívar Camelo Rocha, Sr. Deocleciano Aires, Joaquim Rodrigues Cerqueira, o ex-Deputado Adail Santana, Dr. Zacarias Nunes, as professoras Celuta Rodrigues Ribeiro e Diva Alves Araújo, a Sra. Adélia Camelo Nunes Pinheiro e a Srta. Adília Camelo Rocha, secretária da Paróquia.

            O maior apoio clerical a esse processo foi o do Exmo. Sr. D. Celso Pereira de Almeida que, em curto prazo, convocou todos os bispos da Diocese de Porto Nacional e deles conseguiu a aprovação unânime à propositura da Comissão. Ainda, com todo empenho, D. Celso Pereira, com seu diplomático prestígio, enviou e acompanhou o referido pedido a Dom Carlo Furno, DD Núncio Apostólico, que em Brasília. Isso após os trâmites canônicos feitos na Diocese de Porto Nacional e examinados, posteriormente, pelo Núncio Apostólico, que encaminhou o expediente ao Beatíssimo Papa, com a carta diocesana, datada de 14/03/1992.

            Todo o andamento daquele louvável pedido percorreu o tempo de: 14/04/1989 a 29/05/1992 (data do Decreto do Papa João Paulo II). Dois anos e 16 dias.         

                                                                         Palmas, 12 de agosto de 2003.

(Maiores informações sobre esse fato, de fundo religioso e histórico, leia o Livro “Nossa Senhora da Natividade, Padroeira do Tocantins”, de autoria de Ana Braga)

Natural de Peixe, Tocantins

Bacharel em Geografia e História, com Licenciatura pela Faculdade de Filosofia da UCG, e Direito pela UFG. Professora , historiadora, advogada, vereadora, deputada estadual e procuradora do Estado. Aposentada, fez vários cursos de Especialização em Direito e Filosofia. Seu currículo e alguns de seus trabalhos encontram-se publicados no Anuário 1970.

ATIVIDADES CULTURAIS – Co-fundadora desta Entidade e atual Presidente desta Casa de Letras, desde 1994. Tomou posse na AFLAG em 9 de novembro de 1970, tendo sido a primeira Oradora Oficial da Entidade, por vários anos. Seu primeiro discurso na AFLAG, pronunciado na Sessão festiva de 9 de novembro de 1970, é considerado peça de grande valor histórico e cultural. Acadêmica atuante, tem poemas, crônicas, ensaios e discursos publicados em quase todas as revistas da AFLAG e em jornais e revistas deste Estado e do Tocantins. Tem palestras e discursos gravados no Museu de Imagem e Som da Entidade. Foi Diretora do Departamento Estadual de Cultura de Goiânia, em 1973. Foi vereadora por Goiânia, na primeira Legislatura; deputada estadual por Goiás; Secretária de Serviços Sociais, em Goiás. É membro do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Tocantins e fundou, naquele Estado, a Academia Tocantinense de Letras, em 1991. Pertence à Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes, é Sócia Titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Membro da UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES – SEÇÃO DE GOIÁS e da AGI – Associação Goiana de Imprensa. Seu nome é citado em enciclopédias, antologias e dicionários biobibliográficos goianos e nacionais, tendo recebido medalhas, diplomas e troféus de reconhecimento na área lítero-cultural.

Obras publicadas:

  1. A Comunicação no médio norte goiano;
  2. Nossa Senhora de Natividade, padroeira do Tocantins;
  3. Dom Alano Maria Du Noday, apóstolo do Tocantins;
  4. Minhas lembranças na expansão da cultura tocantinense;
  5. Nelly Alves de Almeida, escritora e amiga
  6. Comentários à obra literária de Juarez Moreira Filho;
  7. Retalhos, no prelo.
  8. Escreveu, ainda, vários ensaios, conferências, pesquisas e discursos.

A coluna Prosas em Artes é uma colaboração de Andréa Luísa Teixeira e Dani de Brito.

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