Desabafo por Santa Cruz de Goiás, terra mártir
01 setembro 2026 às 18h16

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Eu sou Sônia Marise, filha de Dagmar, que é filha de Idomeneu, que era filho de João “Grandão”, que era filho de Zacharias, que era filho do Padre Provison Teixeira de Vasconcelos, que era filho não sei de quem. Só sei que todo mundo carregou ou carrega o Teixeira, de Santa Cruz de Goiás, onde nasceram, viveram, com exceção de mim e dos meus colaterais, Teixeiras nascidos em Goiânia. Costumo lembrar a todo mundo que minha mãe, inclusive, nasceu na data da fundação da veneranda dama antiga do sul goiano – 27 de agosto de 1729 – duzentos anos depois.
Raízes expostas, portanto, não tenho como ignorar a história desse nosso berço. E como me impactou sabê-la ao longo da minha vida adulta.
Desde criança escuto histórias de Santa Cruz, essa terra que serviu de berço aos meus, uma das mais antigas e tradicionais cidades da era setecentista da Província de Goiás.
Eu já sabia de suas riquezas naturais, do ouro abundante, da inteligência de seus filhos, do profundo amor dos santacruzanos por sua terra, do orgulho de terem nela nascido, de sua devoção, enfim, por tudo que ela representou no passado, da mágoa, da imensa mágoa de terem-na espoliado, vilipendiado, reduzindo-a ao pedacinho de chão esquecido do Goiás de hoje.
Um pedacinho de cidade abandonada, com poucas ruas, desprovida de quase tudo que é material, uma cidadezinha pobre, mas digna, orgulhosa e estoica. Eis o que é Santa Cruz para mim, que não tive a honra e o prazer de conhecer melhor.
Sempre percebia uma tristeza funda no meio das conversas do meu avô, da minha avó, da minha mãe, quando falavam de seu berço, em determinado ponto do assunto. Era assim como se estivessem falando de alguém querido, muito querido, que possuía tudo, saúde, beleza, riqueza, esperança e perspectivas infinitas e a quem, numa sucessão de agressões, alguém houvesse destruído, covardemente, gratuitamente, quem sabe por inveja, deixando só o orgulho, a altivez, a persistência e a esperança.
Tinha tristeza na história, sim, eu me lembro.
Era cada suspiro fundo…
Hoje eu compreendo e fico triste também.
Incansáveis, persistentes, fiéis e inconformados, prosseguiram na luta pelo resgate do rescaldo: sua terrinha pequena, pobrinha, esquecida, mas altiva e honrada. Quiseram-na de volta, com seu nome original: Santa Cruz. Foram em frente. Não foi fácil. Depois de muita luta e quinze anos passados, renasceu das cinzas, ostentando o seu nome de batismo, que lhe houvera sido dado pelo bandeirante Manoel Dias da Silva: Santa Cruz. Coimbra Bueno era o governador.
Desde então, caindo daqui e dali, reerguendo-se sofrida, ainda ostentando a cicatriz indelével da ferida que lhe impingiram os sem alma, Santa Cruz vem se aguentando, ora feliz nas festas de junho, ora esquecida durante o resto do ano, mas amada, amparada, respeitada e cultuada por seu bravo povo. É pura devoção todo esse amor! É pura teimosia sua existência!
Santa Cruz, agora eu compreendi as razões da tristeza dos meus avós; agora eu soube direitinho a sua história; agora eu descobri que você não é simplesmente a terra dos meus.
É mais que isso. Minha história se mistura à sua, quando descubro que até o aniversário da minha mãe, 27 de agosto, é o seu!
Desculpe-me se não a conheço bem, se nunca a visitei, se não solidarizei com você antes, se demorei tanto!
Se lhe bastar, posso lhe dizer que, a partir de hoje, tal qual uma santacruzana de fé, eu me disponho a não perdê-la de vista, fazendo o que puder pelo seu bem, porque descobri que eu, Teixeira até a medula, também amo você e vou lhe dizer isso de frente, logo!
Sônia Marise Teixeira Silva de Souza Campos – 2ª Titular da Cadeira 04 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – AFLAG.
Sônia Marise Teixeira Silva de Souza Campos
2ª Titular
Cadeira 04
Sônia Marise Teixeira Silva de Souza Campos, ou simplesmente Sônia Marise, conforme artisticamente assina, é natural de Goiânia, Goiás, filha de artistas: mãe, pintora (Dag França), e pai, músico (Atinil Silva).
Tomou posse no dia 08.08.2024.
É casada com Lázaro Campos, mãe de Paula Beatriz e Leonardo, e avó de Sophia, Gustavo, Maria Luísa e Rafael. Completou o ensino médio em Jataí, Goiás, nos Colégios Nestório Ribeiro e Nossa Senhora do Bom Conselho.
Graduou-se em Letras (Português, Francês e literaturas correspondentes), pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), e em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG), onde também cursou especializações em Direito Civil, Direito Penal e Direito Processual relativo às duas áreas.
Atuou profissionalmente na docência de Língua Portuguesa em estabelecimentos públicos e privados da capital e do interior, bem como em cursos profissionalizantes de Língua Portuguesa aplicada (SENAC e a então Escola Técnica Federal de Goiás, programa PIPMO, preparação de mão de obra especializada).
Como advogada, foi procuradora jurídica da então CELG – Centrais Elétricas de Goiás S.A., atuando no Contencioso Cível amplo, incluindo a área de pareceres.
Foi conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Goiás, integrando importantes comissões, notadamente relativas à mulher e ao advogado empregado.
Escrevendo desde a adolescência, embora tendo seu texto reconhecido (conto e poesia), constantes de coletâneas locais, muitos deles premiados, sua publicação solo só aconteceu na maturidade. Iniciou-se com a Trilogia Escritos do Baú, com Guardados, Poemas (2005), Outros Guardados, prosa (2012) e Achados & Perdidos, prosa e poesia (2016), todos pela Cânone Editorial.
Em 2024, lançou Confissões de uma Caneta Sensível e Malcriada, seu mais recente título, pela mesma editora.
Atualmente, segue trabalhando em Cartas do Século Passado.
Integrante da UBE-GO (União Brasileira de Escritores) e da AGI – Associação Goiana de Imprensa, assina artigos para jornais e outras publicações. Escreveu, produziu, dirigiu, roteirizou e fez locução de produções audiovisuais contextualizadas (temáticas diversas) em episódios disponibilizados em seu canal do YouTube, criado por ocasião do isolamento social severo em razão da pandemia da Covid-19.
Divide seu tempo entre Goiânia, Palmas e Gurupi, no Tocantins, estado onde a família também tem residência, terra natal de seus netos, que lá residem com seus pais, veraneando sempre que possível nas praias do maravilhoso Rio Tocantins, notadamente em sua margem esquerda, apaixonados que são pela Praia do Peixe, local que, por feliz coincidência, remete à ANA BRAGA, acadêmica e cofundadora da AFLAG, patrona e titular da Cadeira nº 4.
Tem habilidades na oratória e interpretação, ferramentas que utiliza, sobretudo, na concepção de personagens diversos, destinados ou não ao universo infantil.
Concilia a literatura com a música, tendo produzido e gravado um trabalho musical solo (CD), não comercial, para treinamento de língua italiana, idioma adotado pelo Coro Italiano Toscanelli, da Associação Italiana de Goiás, do qual é integrante.
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