Única mulher na disputa pelo Governo de Goiás, Luciana Amorim diz que “a mulher também pode fazer parte desses espaços”
12 agosto 2026 às 12h25

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A disputa pelo Governo de Goiás nas Eleições de 2026 tem apenas uma candidata mulher. Com candidatura própria, a Unidade Popular (UP) escolheu a anapolina Luciana de Deus Amorim, de 54 anos, para participar da disputa. Servidora pública da Justiça Federal há mais de duas décadas, Luciana entrou na militância política durante a pandemia, aos 49 anos, e encontrou na Unidade Popular o espaço que, segundo ela, procurava havia anos. Depois de duas candidaturas — como vice-governadora, em 2022, e à Prefeitura de Goiânia, em 2024 —, agora ela assume o posto de cabeça de chapa na corrida pelo Palácio das Esmeraldas.
Para Luciana, ocupar esse espaço tem um significado que vai além da própria campanha. Ao Jornal Opção, ela afirmou que a presença feminina na política é necessária para ampliar a participação das mulheres nos espaços de decisão e incentivar outras a também entrarem na disputa. “Eu acho que a principal importância que tem é mostrar que a mulher também pode fazer parte desses espaços, deve fazer parte desses espaços de debate, de decisão”, afirmou.
No entanto, Luciana reconhece que a política ainda é um ambiente marcado pelo machismo e pela misoginia. Para ela, não basta apenas colocar mulheres nas urnas: é necessário que as candidaturas também estejam acompanhadas de propostas que enfrentem problemas que atingem diretamente a população feminina. “A política, principalmente, é muito machista, muito misógina, mas a gente está aí enfrentando com a cabeça erguida e levando a nossa linha”, disse.
A candidata cita como exemplo a atuação no Movimento de Mulheres Olga Benário, do qual participa. O grupo mantém uma casa de referência em Goiânia para acolhimento de mulheres vítimas de violência. Segundo Luciana, o espaço foi ocupado pelo movimento e funciona com trabalho voluntário, reunindo profissionais como psicólogos e advogados.
Ela afirma que a experiência também influencia sua visão sobre políticas públicas para mulheres. Entre as propostas defendidas pela candidata estão a ampliação de espaços de acolhimento, o enfrentamento à violência e ao feminicídio e a adoção de medidas que, segundo ela, reduzam a precarização do trabalho feminino.
Campanha com pouco espaço na televisão
A candidatura da UP também enfrenta uma dificuldade prática: o pouco tempo disponível na propaganda eleitoral. Sem o mesmo espaço de televisão e rádio destinado às legendas maiores, Luciana aposta em uma estratégia que já faz parte da rotina do partido: estar nas ruas.
Ela admite que a limitação do tempo de TV reduz a possibilidade de apresentar as propostas ao eleitorado em comparação com candidaturas de partidos maiores. Ainda assim, vê o período eleitoral como uma oportunidade para ampliar a circulação das ideias defendidas pela legenda. “É um período em que a gente tem maior abertura para falar sobre política, para apresentar, para levar nosso conteúdo nas portas das fábricas, nas praças, nas escolas, nas universidades”, afirmou.
Luciana afirma que a estratégia de sua campanha será intensificar a presença em feiras, praças, universidades e portas de fábricas, além de manter o contato direto com trabalhadores. A candidata diz que esse tipo de mobilização não será restrito ao período eleitoral. “Não vai ser só no período de eleição. Todo ano a gente vai continuar fazendo o mesmo trabalho que a gente continua fazendo. Diferente dos outros, que aparecem de dois em dois anos, de quatro em quatro anos, nós estamos todos os dias nas ruas”, afirma.
A dificuldade de acesso à propaganda eleitoral também é tratada por Luciana como parte das limitações que, na avaliação dela, existem para partidos menores no sistema político. A UP optou por manter uma candidatura própria em vez de integrar uma frente com outras siglas de esquerda.
Segundo a candidata, a decisão foi tomada após discussões internas sobre as possibilidades eleitorais. A avaliação da legenda foi de que havia diferenças programáticas suficientes para justificar uma candidatura independente. “Vimos que a gente tem um projeto diferenciado, que não conversa com os grandes produtores, a velha política. O único partido que realmente hoje, aqui em Goiás, está fazendo essa defesa intransigente é a defesa da classe trabalhadora”, declarou.
Fim da escala 6×1 e aumento de salário
Entre as principais bandeiras da candidata está o fim da escala de trabalho 6×1. Luciana defende que a redução da jornada venha acompanhada de aumento salarial.
À reportagem, ela argumentou que a rotina de trabalho atual impede que parte dos trabalhadores tenha tempo para descanso, lazer e convivência familiar. Para as mulheres, segundo ela, a situação seria ainda mais pesada por causa da dupla jornada. “As mulheres geralmente estão nos empregos mais precarizados e, além de contar ainda com jornadas de trabalho que são extenuantes, ainda têm a jornada em casa com os filhos”, afirmou.
A proposta da UP inclui a defesa do que Luciana chama de “dobra do salário”, além da redução da jornada. Ela cita experiências de negociação trabalhista em outros estados como exemplos de que mudanças na jornada podem ser alcançadas por meio da organização dos trabalhadores.
A candidata também associa a pauta à necessidade de fortalecer a mobilização sindical e política. Para ela, o principal obstáculo não seria a falta de conhecimento dos trabalhadores sobre os próprios problemas, mas a ausência de uma organização política capaz de reunir essas demandas. “Eu acho que o que está faltando é ter, realmente, um partido forte que vá organizar a classe trabalhadora. Eu acho que é o que a gente se propõe a fazer”, disse.
Segurança pública
Na segurança pública, Luciana se distancia da defesa do aumento do armamento e do efetivo policial, propostas que, segundo ela, costumam aparecer entre os candidatos. A candidata defende uma mudança no modelo de atuação das forças de segurança e a criação de uma polícia comunitária.
Ela critica o caráter que considera repressivo da política de segurança e afirma que a atuação policial atinge de maneira desigual moradores de regiões periféricas. “O que a gente defende é uma polícia comunitária, porque essa polícia que existe hoje não traz segurança. O povo tem mais medo da polícia do que do bandido, às vezes”, afirmou.
A candidata também relaciona segurança pública à educação, especialmente para jovens das periferias.
Educação pública e crítica às OS
Na educação, Luciana defende a ampliação do ensino público, a valorização dos profissionais e a realização de concursos. Ela também se posiciona contra a presença de organizações sociais na gestão de serviços públicos de educação e saúde.
Para a candidata, o Estado deveria fortalecer diretamente essas estruturas, em vez de transferir a gestão para empresas ou organizações privadas.
Luciana também critica o modelo de bonificação adotado para profissionais da educação em Goiás. Na avaliação dela, mecanismos que condicionam parte da remuneração ao cumprimento de determinados critérios podem prejudicar trabalhadores que precisam se afastar por motivos de saúde. “A gente é a favor do ensino público, de qualidade, com valorização dos profissionais, mais concursos públicos”, afirmou.
Críticas a Caiado e defesa da reestatização
Ao falar sobre a atual gestão estadual, Luciana faz uma crítica ampla ao modelo político e econômico adotado pelo governo Ronaldo Caiado. Ela afirma que a administração estaria alinhada aos grandes grupos econômicos e cita como exemplos as discussões envolvendo privatizações e a gestão de recursos naturais.
A candidata também se posiciona contra a privatização de serviços públicos e defende a retomada, pelo Estado, de setores considerados estratégicos. “Para nós, a privatização nada mais é do que dar dinheiro para os grandes empresários do setor privado”, afirmou.
Entre as propostas defendidas pela UP está a chamada “reestatização” de serviços públicos, incluindo áreas como saneamento e transporte.
Feminicídio como uma das principais pautas
Além da participação feminina na política, Luciana afirma que o combate à violência contra a mulher terá espaço central em sua campanha. Ela classifica os índices de feminicídio como alarmantes e critica o que considera uma resposta insuficiente do poder público.
A candidata também defende medidas de combate à misoginia e afirma que a pauta precisa avançar no Congresso Nacional.
Para ela, a violência contra as mulheres está relacionada à precarização do trabalho e às desigualdades sociais. Por isso, a campanha pretende tratar as pautas femininas em conjunto com questões trabalhistas e econômicas. “Não é possível normalizar esse tipo de conduta fascista, machista, misógina”, declarou.
De olho no eleitorado goiano
Apesar das limitações de tempo de televisão, Luciana diz não pretender mudar a estratégia que acompanha a construção da UP em Goiás. A campanha será baseada no contato direto com os eleitores e na atuação dos movimentos sociais ligados ao partido.
A candidata aposta que a presença nas ruas pode compensar, ao menos parcialmente, a menor exposição nos meios tradicionais de propaganda. “Nós vamos continuar nas ruas, nas praças, nas feiras, na frente das fábricas, nas universidades. Vamos continuar fazendo nosso trabalho”, afirmou.
Ao eleitorado, Luciana pede que conheça a legenda e suas propostas antes de decidir o voto. A candidata também convida trabalhadores a se aproximarem dos movimentos que formam a base da UP. “Conheçam a Unidade Popular, se aproximem dos nossos movimentos, conheçam a nossa candidatura e dos demais candidatos”, disse.
Com uma campanha de poucos segundos de televisão e uma estrutura menor que a dos principais grupos políticos de Goiás, Luciana terá pela frente o desafio de tornar conhecida uma candidatura que aposta justamente em um discurso de ruptura com a política tradicional. Ao mesmo tempo, a presença de seu nome na corrida pelo governo garante uma marca inédita à eleição de 2026: até o momento, ela é a única mulher a disputar o comando do Estado.
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