O Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou nesta terça-feira, 11, um vídeo em que reafirma o domínio estadunidense sobre o continente americano, citando a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro como exemplo recente da aplicação da Doutrina Monroe, em um movimento que especialistas interpretam como um recado direto à América Latina em meio a tensões comerciais com o Brasil. 

A publicação, feita na rede social X (antigo Twitter), afirma que “o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado”, resgatando a política externa criada em 1823 pelo então presidente James Monroe, que defende que potências europeias não deveriam interferir nas Américas. Nesse contexto, a administração de Donald Trump coloca os EUA como a potência local que deve dominar a região, enquanto apoia aliados de Javier Milei nas eleições legislativas da Argentina de 2025 e Abelardo de la Espriella, eleito presidente da Colômbia neste ano.

A publicação gerou reações entre analistas políticos brasileiros. Ricardo Kotscho, colunista do UOL, classificou o conteúdo como uma “verdadeira declaração de guerra” durante participação no UOL News. Para Kotscho, o gesto pode ser uma retaliação à denúncia feita pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas americanas, ação que contou com o apoio da China. “Isso é uma verdadeira declaração de guerra. Queria entender por que eles fizeram isso hoje. O que nos últimos dias vimos foi que o Brasil entrou na OMC pra denunciar as tarifas americanas e, em seguida, a China se juntou na mesma ação do Brasil. Será que foi esse o motivo? Eles estarem agora fazendo essa ameaça clara, que não é bem velada, de domínio da América Latina. Sabemos que é esse o objetivo deles. Mas aí é uma declaração de guerra. Qual é o próximo passo?”, questionou o comentarista. 

Kotscho ainda ponderou que o Brasil não tem condições de “confrontar” os EUA, mas também não deve “se ajoelhar” diante de sanções e ameaças, tentando entender “onde eles querem chegar” e qual seria o objetivo do governo Donald Trump e do secretário Marco Rubio.

A partir dessa premissa, João Paulo Charleaux, também colunista do UOL, avaliou no mesmo programa que os Estados Unidos já adotam medidas e discursos de força e podem ampliar a interferência no processo eleitoral brasileiro até outubro. O comentarista afirmou que o “maior temor” dele é uma tentativa de associar o governo Lula e o PT a facções criminosas, como parte de uma estratégia de intervenção militar contra o país, principalmente se o presidente se reeleger. “O meu maior temor, isso não é uma previsão, mas acho que vale a pena fazer o alerta, é a associação do governo Lula com facções. Esse é o novo meio de intervenção americano, é pela via securitária”, disse Charleaux. 

Ele reforçou que não faz previsão, mas enxerga os EUA “armando um arcabouço discursivo e militar” contra o Brasil e contra o presidente Lula. “Se vai fazer ou não, eu acho que depende de fatores que vão se desenrolar daqui a outubro”, acrescentou. Charleaux destacou que a avaliação do Planalto leva em consideração que essa situação é de liga-desliga, mas ele vê como uma escada de gradientes. “Você fazer declarações inamistosas, mover embarcações na direção da costa de um país, fazer posts em redes sociais, adotar medidas econômicas que na prática têm um papel semelhante ao de um embargo ou de uma sanção. Tudo isso são medidas de força e já configura uma interferência indevida no processo eleitoral brasileiro”, concluiu.

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