Por Giselle Vanessa Carvalho*

Você entra na cabine de votação não é para escolher com quem gostaria de tomar cerveja, comer churrasco ou jogar conversa fora. Parece óbvio, mas, infelizmente, tem gente demais confundindo isso com representação política. Gostar ou não gostar de alguém é uma questão pessoal. Na política, a conversa é outra. 

Simpatia não paga boleto, não garante aposentadoria, não coloca remédio na farmácia. O sujeito que você gosta não vai morar com você, felizmente. Vai decidir coisas bem menos divertidas, como trabalho, aposentadoria, casa própria, universidade, sistema de saúde, etc., intimidade demais para alguém que eu nem convidaria para entrar. Todo o resto é conversa de botequim.

E aí, meu bem, a conta chega, e talvez bem mais cara do que você imaginava. A paixão política pode virar uma tremenda ressaca quando você perceber que o que vai ser decidido é quantas horas você vai trabalhar, se vai conseguir comprar uma casa, ter férias com a família, 13º, FGTS, licença quando adoecer ou tiver um filho, quando vai se aposentar, se essa aposentadoria vai ter aumento anual ou não, e por aí vai. 

O que deveria entrar naquela cabine é a vida que você terá quando sair dela. Não o político que você aprendeu a amar ou a odiar, muito menos a briga que comprou emprestada de gente que provavelmente nem sabe que você existe. E, antes que você torça o nariz para o que estou dizendo, convém lembrar que, “nessa canoa furada”, o grupo que entendeu como o poder funciona já sabe disso há muito tempo. 

Grandes empresários defendem os próprios interesses. Banqueiros, o agro, categorias profissionais, igrejas, corporações, idem. Setores inteiros da economia se organizam, pressionam, financiam, negociam e procuram colocar na mesa aquilo que é importante para eles.

O que nunca consegui entender é por que justamente quem vive do próprio trabalho parece constrangido em fazer uma pergunta elementar: o que é melhor para mim e para os meus? Uma das ironias mais perversas da política é que quem mais tem a perder aprendeu a votar por identificação pessoal, enquanto quem mais tem a proteger vota pelos próprios interesses. 

Todo político, seja de direita, esquerda, centro ou da matriz ideológica que preferir, chega ao poder cercado de grupos e compromissos. A pergunta que me interessa é por que eu deveria entrar nessa relação pensando no que é melhor para eles, enquanto eles estão pensando no que é melhor para si e para aqueles que representam. 

Eu também tenho os meus interesses, já passou da hora de perdermos a vergonha de dizer isso. E são os meus interesses que vou levar para a urna. Se banqueiro pode votar pensando no banco e o grande empresário pode pensar na empresa, por que diabos quem vive de salário deveria votar como se fosse dono de algum dos dois?

Minha mãe é MEI. Quero que o negócio dela continue viável sem que o preço da taxa mensal dela dobre. Meus sobrinhos e os filhos dos meus amigos podem precisar de universidade pública ou ProUni. Gente da minha família vive de salário mínimo. Outros, sonham com a casa própria, precisam do SUS, da Farmácia Popular, do Samu, do Bolsa Família, do BPC. Eu quero trabalhar com direitos, tempo para viver e, claro, me aposentar aos 62, não aos 70 anos. 

Sei que tudo isso parece pouco importante perto das discussões ideológicas que o Brasil trava, mas tenho essa mania de refletir sobre como uma decisão política vai atingir a minha vida e a de quem eu amo, ao invés de fazer parte de torcida organizada de político. 

Provavelmente porque quando olho para o retrovisor vejo exatamente de onde vim. Hoje tenho casa própria, carro quitado, plano de saúde, um bom emprego, escala 5×2, e estou começando um pequeno negócio. Trabalho muito para isso, mas seria preciso uma dose cavalar de desonestidade comigo mesma para concluir que fiz tudo sozinha. Não fiz. Tive oportunidades, portas abertas e pessoas que seguraram minha mão e pelas quais sou profundamente grata. Melhorar de vida não me deu amnésia.

Aliás, conheço muita gente que deveria se lembrar disso. Gente que se formou graças ao ProUni ou à ampliação das universidades públicas, que comprou a primeira casa pelo Minha Casa Minha Vida, que formalizou o pequeno negócio como MEI. Gente que teve  chance, aproveitou, melhorou de vida, e, depois de subir alguns poucos degraus, parece disposta a recolher a escada. Não consigo pensar em metáfora melhor.

É uma contradição difícil de engolir. Mas eleição tem uma inconveniência danada. Depois de muita música, bandeira, paixão, briga, herói, vilão, vem uma baita segunda-feira. Com amnésia ou não, vai ter boleto para pagar. A realidade tem essa mania desagradável de estragar a festa.

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* Giselle Vanessa Carvalho é jornalista