Versos revolucionários de Drummond de Andrade dissecam a dura realidade do eu-mundo
18 abril 2026 às 21h00

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Eurípedes Leôncio
Especial para o Jornal Opção
Procura da poesia
Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor
no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumo do mar
nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza,
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança
nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões,
vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
(Andrade, 1967, p. 138-139)

Nestes versos revolucionários de Carlos Drummond de Andrade, a dura realidade do eu-mundo, do eu-consigo mesmo ao escutar uma voz, um “Tu” que determina, mostra, nega imperativamente o passado e expõe uma nova realidade que é tão antiga como em Eclesiastes (1: 9): “Não há nada de novo debaixo do sol”. Com essa certeza o eu lírico se submete, e reiteradamente ecoa a sentença negativa do “Não”, desde o primeiro verso, recebendo e direcionando uma nova ordem poética que vem desde a epopeia de Homero a “Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, a palavra poesia: “Não faças versos sobre acontecimentos. / Não há criação nem morte perante a poesia. / Diante dela, vida é um sol estático. / Não aquece nem ilumina”.
Drummond apreende os enigmas do cosmos que só a alma pode captar e devolver em forma de poema carregado de poesia que só outro ser recriará no mesmo estágio de volitante captação, como nos ensina Octavio Paz:
[…] quando a poesia acontece como uma condensação do acaso ou é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta, estamos diante do poético. O poeta é o fio condutor e transformador da corrente poética. Um poema é uma obra (Paz, 1982, p. 16).
O pensador mexicano tem razão, visto que se pode classificar o poema mencionado como uma obra revolucionária, demonstração de uma concepção estética. Esse “tu” expresso, se repete em todo o texto como uma voz da consciência que direciona o eu lírico, ao impor-lhe uma nova mensagem, longe das banalidades da roda vazia: “Não faças versos sobre acontecimentos”, ou seja, não misture poesia com história, definitivamente separados por Aristóteles, na ”Poética” e proclama que “não há criação nem morte perante a poesia. / Diante dela, a vida é um sol estático, / não aquece nem ilumina”, porque o absolutamente novo, o definitivo não existe, onde uma nova mensagem atende ao sopro do instante, com elucida Bachelard: “a poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ele deve dar uma visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo tempo” (Bachelard, 2010, p. 93).

Nesse caminhar, numa mistura de vozes polifonicamente entrelaçadas, em todo o poema, configura-se um lampejo metafísico, psicológico, metalinguístico, nos versos de 5 a 9: “As afinidades, os aniversários, os incidentes/pessoais não contam. / Não faças poesia com o corpo, / esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica”.
Nestes versos, o eu lírico consciente expõe, na terceira pessoa, justificando, explicando o próprio “Tu” determinante: “afinidades”, “aniversários”, “incidentes pessoais” são frivolidades poéticas, como também, “o corpo” “excelente, completo e confortável”, tão somente um culto apolíneo do ser. Observa-se, ainda, que há um eixo metapoético percorrendo a realidade que cerca e ameaça o eu-poético, afastando-o, para que um terceiro elemento censure, imponha, ditando uma nova modalidade que abrirá uma cortina de lampejos ao novo reino que se instaura na veia criadora, onde a palavra é o começo e o deslumbramento da alma que o secreto, o abstrato, o indizível povoa.
Essa alternância de pessoas e vozes permeia quase todo o poema, numa síntese das negações, numa nítida recusa ao romantismo: “Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor / no escuro são indiferentes. / Nem me reveles teus sentimentos, / que se prevalecem do equívoco / e tentam a longa viagem. / O que pensas e sentes, isso não é poesia”.
A crítica aos textos encomendados de caráter bajulatório sobre a urbe, ou mesmo a exaltação futurista mitificando a velocidade, a reprodução da natureza e dos galanteadores sociais. Verifica-se o esfacelamento de tais procedimentos oportunísticos, porquanto, a poesia, a partir de agora, se transforma numa fusão de “sujeito e objeto”, não produto da imitação, da verossimilhança, das ideias, e nesse encaixe, ou conectando, é fortemente marcado e configurado pelo poeta na estrofe seguinte, ligando a continuidade da análise em questão:
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas
nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumo do mar
nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza,
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança
nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Nesse fio condutor, o tu, este eu lírico que recrimina, pontua caprichos, mergulha nas vaidades mundanas, na falsa aparência, e usando do carisma da palavra, para inundada de poesia não tatear no precipício da funesta história do cotidiano: ”Não dramatizes, não invoques, / não indagues. Não percas tempo em mentir. / Não te aborreças. / Teu iate de marfim, teu sapato de diamante. / vossas mazurcas e abusões, / vossos esqueletos de família / desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável”.
Essa marca não ficará, senão no olhar, no balbuciar do outro, que não é a palavra mas cacos, pedaços do eco doentio, como proclama Octavio Paz, fazendo coro aos versos de Drummond:
Muitos poetas contemporâneos, desejosos de salvar a barreira de vazio que o mundo moderno lhe opõe, tentam buscar o perdido auditório: ir ao povo. Só que já não há povo, há massas organizadas. E assim, ¨ir ao povo¨ significa ocupar um lugar entre os “organizadores” das massas. O poeta se converte em funcionário. Não deixe de ser assombrosa essa troca (Paz, 1982, p. 49).
Drummond, mostra nos versos acima, que o poeta não é caçador social para registros diários, no vai e vem do sorriso da sociedade com seus lustres materialistas expondo e deleitando-se na veia discriminatória, onde o divã psicanalítico é mais importante que a cadeira de balanço para a leitura literária.
Continua a voz da consciência crítica, contundentemente, apelando para que não se proceda com as memórias saudosistas dos românticos, voltados tanto à pátria, como à infância ou o narcisismo: espelho partido, não conectado com o momento presente e deixando de ser poesia. O próprio poeta nega a si mesmo e não atende tal imperativo da consciência que lhe fala através de um Tu, visto que o eu lírico se mistura ao homem Carlos Drummond que para suavizar o choque com o mundo exterior, ameniza a expiação, retorna a Itabira, a casa dos pais, como filho pródigo.

Retomando a análise do poema em pauta, o poeta aceita e registra a nova mensagem: “Não recomponhas / tua sepultada e merencória infância. / Não osciles entre o espelho e a / memória em dissipação. / Que se dissipou, não era poesia. / Que se partiu, cristal não era”.
Na poética de Carlos Drummond a reflexão é constante e por isso mesmo nunca se esgota. Eis que no estado de negação, a linha do tempo é mensurada e captada pela alma e expressa na poesia, onde cada segundo é um começo, um novo momento e a palavra ali, na espreita seduzindo o seu artista.
Assim, a afirmação, redundantemente, positiva de um novo fazer poético drummondiano, nos versos incisivos de engajamento ao novo reino são enunciadas de tal forma inovadora e contundente, sem perder a força emotiva, como esclarece Iumna Maria Simon:
Mesmo seus poemas engajados realizam-se como resposta emocional aos acontecimentos de seu tempo revolta, angústia, solidariedade, esperança, desesperança, grito. Não consegue escapar à força da subjetividade, que se expressa sob a forma de fluxo da memória afetiva, de eclosão dos sentimentos, de revolta individua (Simon, 1978, p. 56).
Com efeito, Drummond não somente traz um novo momento para a poética, como também aos colegas de ofício que com ele ombrearam o poetar na mesma época e, continuam a influenciar os que iniciaram e iniciam a arte de versejar.
Pode-se verificar, uma gama de estudos sobre o poema em questão, como uma nova “Poética”, que extrapola o próprio modernismo, tal a atualidade do fazer e do questionar a própria poesia, a arte e o poeta, para qualquer iniciante e mesmo os “ditos poetas”, como os chamou Drummond, “da roda vazia dos cafés”. Drummond descobre e anuncia um reino mágico, inseparáveis do próprio ofício do poeta:
Penetra surdamente no reina das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consome
Com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.
A revelação está consumada. É a metáfora anímica da palavra, a voz poética da recuperação, da revitalização da linguagem que direciona o poeta Carlos Drummond de Andrade. Não é o eu poético que sugere uma possibilidade, um estado de espírito, onde a palavra repousa na forma, no poema, visto que o poeta é receptador, onde a palavra manifesta para que todas as perplexidades em desassossegos céticos e impenetráveis sonde tal desafio. A lição: “Espera que cada um se realize e consome / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio” e com ela, o poeta exerceu os dois instantes, simultaneamente, calado, fechado, ensimesmado, arredio, mas o seu poema comunicando o poderoso sopro da palavra. A sua poética fala por si mesma, quebrando o silêncio da geração de Carlos Drummond de Andrade, para que ela se alardeasse cada vez com uma infinidade de significações.
Ainda neste estudo sobre este poema inovador e norteador de novos rumos para a poética brasileira e para o próprio poeta, que é aconselhado e se aconselha e presta contas da teoria captada, na prática iluminada dos seus versos: “Não forces o poema a desprender-se do limbo. / Não colhas no chão o poema que se perdeu. / Não adules o poema. Aceita-o / como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada / no espaço”.
Um encontro que se dá, na descoberta e na revelação, como plantio e colheita, fruta e sabor, ou seja, forma e conteúdo poético ao mesmo tempo, na busca e no achado se completam.
Assim, cabe ao eu lírico, depois de tanto aprendizado, censura, atualização metafórica, metalinguística, metapoética, aproximar-se desse reino com absoluta consciência, paciência, seguro do seu fazer e atento ao sopro do instante, mesmo porque a palavra basta a si mesma e apreende a imensidão ao penetrar o tempo imensurável nos seus crispas. Assim, do momento da partida de Itabira, como gauche, ao novo reino conquistado, o da palavra, está revelado na última estrofe: / “chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: / Trouxeste a chave?”
A palavra, colhida pela mente ou pela alma se corporifica no poeta, mostra o mundo e suas eternas contradições, pelos labirintos de cada verso em cintilantes metáforas. Agora, não é questionado como “José”, ou “Raimundo”, mas assumindo a si mesmo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, nas suas múltiplas faces, que refletem a de todos os seres humanos, no espia-expiando.
No final, ainda existe um desafio a desvendar: e se as palavras escapassem e se tornassem indiferentes ao transgressor e para não serem adulteradas enveredassem por um corredor impenetrável, cansadas da oferta e mimos, esperando o despertar de um ritmo novo, acolhedor que lhe dê a música ao acordar e alegrar-se como a rainha de todas as comunicações com o brilho crescente da infinitude? A resposta está no final do poema analisado, pois, as palavras são indiferentes e estranhas aos que lhes querem escravizar, como nos versos que conclui a procura drummondiana e por certo se estendem a todos os poetas que povoam em torno deste novo reino: / “Repara: / ermas de melodia e conceito / elas se refugiam na noite, as palavras. / Ainda úmidas e impregnadas se sono, / rolam num rio difícil e se transformam em desprezo”.
Neste breve comentário sobre o famoso poema de Drummond, verifica-se que a poesia revela o poeta: esse corpo, esse mundo, esse chão não lhe pertence, não é seu, não o reconhece como hóspede desse espaço e desse tempo, vive o drama do limite onde só a palavra o salva e o universaliza.
Assim, a solidão, a tristeza e o sofrimento são inseparáveis em todos os seres que só se despertam quando sente o outro e este preenche o seu vazio, na recepção do olhar, sorriso, gesto. O eu lírico de Drummond se manifesta, neste silencioso momento do reencontro, e desse contato retoma-se ao mundo natural, onde a liberdade, o infinito os une para depois retornar ao estado de prisão, armadura, no espia-expiando, uma luta contra a palavra anunciadora da origem, como nessa sintética análise de Octávio Paz: “A palavra poética é a revelação de nossa condição original porque por ela o homem, na realidade, se nomeia outro, e assim ele é ao mesmo tempo este e aquele, ele e o outro” (Paz, 1982, p. 217).
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond. Obra completa. Organização de Afrânio Coutinho. 2. ed. Rio de Janeiro. Companhia José Aguillar Editora, 1967.
BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Tradução Antônio de Pádua Danesi, 2000. (Os Pensadores).
PAZ, Octávio. O arco e a lira. Tradução de Olga Savary. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.
SIMON. Lumna Maria. Drummond: uma poética do risco. São Paulo: Editora Ática, 1978.
Eurípedes Leôncio, mestre em Literatura, escritor e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.

