Instituto Dimensão organiza em Goiânia curso sobre a pioneira da psicanálise Sabina Spielrein
15 abril 2026 às 09h26

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Renata Udler Cromberg
Durante grande parte da história da psicanálise, as primeiras mulheres que ingressaram nesse campo e ajudaram a constituí-lo permaneceram na sombra de homens e de outras mulheres que, por razões institucionais, pessoais e políticas, ganharam proeminência na história desse saber. A historiografia mais recente da psicanálise tem progressivamente trazido à luz, em sua importância, essas mulheres que permaneceram esquecidas, subestimadas, ou que foram apenas lembradas devido a fatores biográficos e pessoais. Isso coloca não apenas a necessidade de se reescrever a história deste saber, mas também de repensar seu contexto e suas concepções presentes, numa articulação entre passado e presente.
Desde o início do século XX, em uma época em que lutavam por direitos simples, como a inserção no mercado de trabalho, na universidade e na política, várias mulheres se tornaram psicanalistas. Essas pioneiras não apenas trouxeram um olhar diferente sobre a sexualidade e a psicanálise infantil, como também questionaram premissas básicas, defendidas por Freud desde o início de sua teoria, construíram metapsicologias próprias e estenderam a abordagem psicanalítica a novos campos.
No início do século XX, a psicanálise era bastante receptiva às mulheres, em comparação com outros campos científicos. Essa abertura coincidiu com a primeira onda do movimento feminista na Europa, o que trouxe uma mudança nas expectativas sociais e nas representações culturais das mulheres. No entanto, a vida de várias dessas pioneiras, assim como de grande parte dos psicanalistas da primeira geração, foi interrompida ou alterada pela Primeira Guerra Mundial, pela ascensão do antissemitismo e do nazismo no período entre guerras, pela Segunda Guerra Mundial e, finalmente, pelo Holocausto.

As primeiras psicanalistas entraram em espaços dominados por homens, destacando-se por seu brilhantismo e sofisticação teórica. Admitir a primazia e reconhecer o valor de suas contribuições poderia ser visto como um abalo nas estruturas de poder por parte de seus colegas homens. Graças ao trabalho de muitos pesquisadores, a importância da obra dessas pioneiras vem sendo recuperada, estudada e integrada à reserva conceitual psicanalítica que se formou nos últimos 125 anos.
A psicanalista russa Sabina Spielrein foi uma dessas pioneiras pioneira cuja importância na história da psicanálise foi profundamente ofuscada por questões pessoais e por seu histórico como paciente. Ela foi internada, aos 19 anos, na Clínica Burgholzli, em Zurique, com um quadro de histeria. Seu tratamento durou 9 meses e foi conduzido por Carl Gustav Jung, que, pela primeira vez, aplicou a técnica psicanalítica em um tratamento, por nove meses entre 1904 e 1905. Durante sua estadia na Clinica Burghölzli, ela começa a estudar, acompanhar discussões clínicas, auxiliar nos testes de associação aplicados aos pacientes, e se envolver em discussões sobre diagnósticos. Após uma carta de recomendação de Bleuler, ela realizou os exames para ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de Zurique e foi aprovada, iniciando o curso em 1905, um feito para uma mulher então. Após ingressar no curso de medicina, Spielrein continuou a trabalhar na Burgholzli e a ter encontros em um misto de terapia e amizade com Jung até que, em 1908, desenvolveram uma relação amorosa.
Uma visão de seu percurso como psiquiatra, médica e psicanalista e de seus escritos permite perceber a dimensão de suas realizações inéditas no seu tempo histórico. A sua dissertação para obtenção da graduação em psiquiatria, intitulada Sobre o conteúdo de um caso de esquizofrenia e publicada em 1911, não só foi a primeira tese de psicanálise defendida por uma mulher, mas consistiu no primeiro estudo psicanalítico do discurso esquizofrênico. Suas reflexões fazem parte da Nova Psiquiatria, movimento de implantação da psicanálise no coração da psiquiatria, que ocorreu na Burgholzli.

Entre outubro de 1911 e março de 1912, Spielrein frequentou a Sociedade Psicanalítica de Viena, tendo sido a segunda mulher a se tornar membro dessa Sociedade. Na reunião de 29 de novembro de 1911, ela proferiu a conferência “Sobre a transformação”, na qual apresentou uma parte do artigo “Destruição como origem do devir”, publicado posteriormente em 1912. Nesta conferência e em seu artigo dela derivado, entre outras ideias inovadoras, ela introduziu a hipótese do “instinto de morte”. Embora haja diferenças entre a sua concepção e a de Freud, ela antecipou em 9 anos a ideia de que existe um instinto destrutivo autônomo no psiquismo, uma pulsão de morte que produzia dinamicamente a transformação, o devir e, estaticamente, o masoquismo primário, o gozo na dor. Ela traz outras hipóteses como a da existência de um funcionamento mental que antecede aquele regido pelo princípio do prazer e de que existe uma instância observadora, similar ao que Freud viria a propor com o seu conceito de Superego.
Como se sabe, passados oito anos, Freud publicou “Além do princípio do prazer” (Freud, 1920). Em seu texto de 1920, Freud justifica seu conceito de pulsão de morte, sobretudo, a partir do conhecimento biológico. No entanto, a referência ao pensamento de Spielrein é parcimoniosa, restringindo-se a uma nota, no sexto capítulo do texto, sobre sadismo e masoquismo em que ele afirma: “Uma parte considerável dessas especulações foi antecipada por Sabina Spielrein (1912) em um artigo instrutivo e interessante, mas que, infelizmente, não foi totalmente claro para mim. Nele, ela descreve os componentes sádicos do instinto sexual como ‘destrutivos’…” (Freud, 1920, p. 55, nota 1).
Ainda em 1912, Spielrein publicou o texto “Contribuições para o conhecimento da alma infantil”, seu primeiro trabalho sobre psicanálise infantil — área à qual dedicou grande parte de suas atividades nos anos seguintes. Ela foi, assim, uma das pioneiras da psicanálise infantil, fato ainda pouco conhecido.
Em 1920, Spielrein apresentou, no Congresso de Haia, uma versão inicial da sua teoria sobre o desenvolvimento da linguagem e do pensamento, algo inédito até então. A plateia incluía Anna Freud e Melanie Klein. Dois anos depois, ela publicou sua teoria desenvolvida no texto A origem das palavras infantis papai e mamãe: algumas observações sobre os diferentes estágios do desenvolvimento da linguagem (Spielrein, 1922). Nesse texto, ela explica como ocorre o processo de surgimento da linguagem verbal, assim como as características psicológicas das diferentes etapas do desenvolvimento da linguagem. Em seus textos subsequentes, Algumas analogias entre o pensamento infantil, o do afásico e o pensamento subconsciente (1923a) e O tempo na vida psíquica subliminar (Spielrein 1923b) a autora continua desenvolvendo sua teoria sobre a linguagem e o pensamento da criança.
Em 1920, Spielrein mudou-se para Genebra para atuar no Instituto Jean-Jacques Rousseau, onde conheceu Piaget, com quem teve uma rica interlocução teórica, além de ser sua analista. Em 1923, retornou para a Rússia e se tornou membro da Sociedade Psicanalítica Russa, que havia sido recentemente criada por Alexander Luria, Moshe Wulff e outros e da qual fazia parte Lev Vygotsky. Na Rússia, publicou três textos, entre os quais o inovador Desenhos infantis de olhos abertos e fechados, onde aborda de que maneira o pensamento se origina a partir das imagens cinestésicas corporais. Após passar um ano em Moscou, Spielrein retornou para sua cidade natal, Rostov-sobre o-Don, onde viveu até sua morte e de suas filhas nas mãos dos nazistas, em 1942.
Apesar da originalidade do pensamento de Spielrein e de seu pioneirismo em várias áreas, por um longo período, ela foi lembrada apenas pela nota de rodapé de Além do Princípio do Prazer. Ela começou a reemergir na história da psicanálise após a publicação por McGuire, em 1974, da correspondência entre Freud e Jung, em que é várias vezes mencionada. No entanto, o interesse por ela se intensificou principalmente após a publicação do livro Diário de uma secreta simetria: Sabina Spielrein entre Jung e Freud (Carotenuto, 1980/1984), o qual contém um comentário sobre a vida e o pensamento de Spielrein, assim como partes de um diário e algumas cartas que ela enviou a Jung e a Freud. Esse material tinha permanecido guardado na biblioteca do Instituto de Psicologia da Universidade de Genebra desde sua partida para a Rússia, em 1923, e foi descoberto, em 1977, por Carlo Trombetta, quem os entregou a Aldo Carotenuto. O interesse por Spielrein despertado a partir da publicação de Carotenuto, no entanto, se concentrou inicialmente, sobretudo, em sua biografia, em especial em sua relação amorosa com Jung, a qual foi explorada em filmes, peças teatrais e diversas publicações. Isso contribuiu para que sua contribuição teórica e clínica para a psicanálise e a psicologia permanecesse em segundo plano. Nos últimos anos, essa situação está sendo revertida com a publicação de trabalhos que enfocam, principalmente, sua produção teórica. A publicação das obras completas de Spielrein em português (Cromberg, 2021a, 2021b, 2025) por Renata Udler Cromberg, em três volumes, é uma contribuição aos esforços de resgatar e fazer justiça ao trabalho teórico e clínico brilhante dessa autora. Todos os textos foram traduzidos por Renata Dias Mundt.
A correspondência entre ela e Jung e entre ela e Freud e seus diários alemães de 1909 a 1912, confirmam o quanto a escrita de Sabina Spielrein foi efeito do fim de sua análise com,Carl Gustav Jung (1865-1961). Sigmund Freud (1856-1939) interferiu na relação entre Jung e Sabina de uma forma que permitiu a ela transferir seu desejo erótico para a escrita de sua própria “poesie”, sua obra. Essa era a metáfora que adotava quando queria falar de seus encontros amorosos e de intercâmbio intelectual com Jung, Esses primórdios de sua escrita apresentam o trajeto de Spielrein rumo à sua autonomia.
Após sua análise, tornou-se médica, psicanalista, membro da Sociedade Psicanalítica de Viena e, depois, da Sociedade Psicanalítica de Moscou, pesquisadora e escritora de trinta e quatro artigos entre 1910 e 1931. Em meu trabalho de reflexão, a história de vida de Sabina Spielrein em seu percurso psíquico, emocional, profissional e social e as condições históricas, sociais, institucionais e culturais de seu tempo, que contribuíram para o esquecimento de sua obra e de sua importância para a psicanálise, proporcionaram a moldura daquilo que pretendo destacar: a importância de sua obra pioneira. Tornar-se autora, ser escritora da própria vida implica uma transformação da pulsão e das marcas erógenas: deixar de ser corpo-objeto da escrita do pai para ser escritora da própria vida. A função abstrata do pai pode aparecer quando podemos escrever em nome próprio, assumindo a própria vida, ecoando a própria palavra internamente e para as gerações seguintes, possibilitando subjetivação, diferenciação e singularização.
Renata Udler Cromberg é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é articuladora do Grupo Winnicott – estudos e pesquisa, e membro do grupo de estudos Comunidade de destinos – Ferenczi e Freud. É doutora e pós doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Professora convidada do Curso de Teoria Psicanalítica do COGEAE/PUC-SP. É graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade de São Paulo. Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sandor Ferenczi e da Associação Internacional de estudos sobre Spielrein. Autora dos livros Paranoia, Cena Incestuosa – abuso e violência sexual (Artesã) e Sabina Spielrein, uma pioneira da psicanálise, obras completas, vol. 1, vol.2 e vol.3 (Blucher) Coorgnizadora de Mulheres pioneiras da psicanálise: uma antologia (Autêntica).
Serviço: curso sobre Sabina Spielrein no Instituto Dimensão
Sabina Spielrein — Uma pioneira, A implantação da psicanálise e o conceito de pulsão de morte, A psicanálise de crianças e linguagem infantil — curso presencial no Instituto e Clínica Dimensão.
Data: 24 e 25 de abril de 2026. Em Goiânia.
As inscrições estão abertas.

