Um minuto de silêncio

“Na verdade, fico esperando que papai entre por aquela porta e me mande tirar os pés de cima do sofá, mas ele não entra. Depois nasce o dia e eu ainda tenho uma vida inteira pra viver…”

Foto: Artchive

Foto: Artchive

Às vezes ando por aí com pena de mim mesmo e enquanto isso um grande vento me carrega pelos céus.
— Ditado Ojibwa

Luiz Marcondes

Eram seis horas da tarde, eu tinha acabado de acordar. Não era mais dia claro; estava cedo pra acender a luz. É nessas horas que a casa adquire uma espécie de coloração imbecil que eu odeio. Admito que o fim de tarde tem um significado importante para mim, mas admito também que as meditações ao pôr do sol são um tenebroso clichê. Meu Deus, só faltava alguém tocar um solo de sax… Eu estava na cozinha tentando me concentrar em um copo de suco quando o interfone tocou. A voz caricata do porteiro informou-me que o sr. Vítor Martins estava subindo, o que pra mim não queria dizer nada.

— Mãe, quem é Vítor Martins? — gritei na direção dos quartos.

— Era um amigo do seu pai, ele telefonou hoje de manhã — o tom de voz que ela usava era de impaciência, sempre o mesmo. — Você recebe ele que eu já vou, meu filho…

Entrei no banheiro e joguei água fria no rosto, isso lá era hora de receber visitas? A campainha tocou, fiz uma cara compenetrada e me olhei no espelho, depois fui abrir a porta.

Vítor Martins era um sujeito baixinho, de olhos claros e bigode escuro. Tinha mais de 60 anos e menos de 120. Usava terno cinza e era um pouco careca. Trazia um pacote debaixo do braço. Percebi imediatamente que era uma pessoa decente e afável.

— Boa tarde. Entre por favor — armei meu Sorriso-Gentil-para- Pessoas-Mais- Velhas, o mesmo que eu usara 12 anos antes, na minha primeira comunhão.

Ele foi entrando, meio sem jeito, enquanto falava comigo:

— Você deve ser o… — e disse o nome do meu irmão. Corrigi seu engano. Nos acomodamos, Vítor no sofá grande e eu numa poltrona, de costas para a janela. Ele pensou um pouco, como se puxasse pela memória, depois voltou a falar. Um abismo de séculos nos separava.

— Então — disse ele — Da última vez que eu estive aqui, acho que era você que fazia uns desenhos, umas histórias em quadrinhos — pelos meus cálculos, essa visita datava de 1979. — O que é que você está fazendo agora, meu filho?

Expliquei que eu tinha terminado a faculdade e estava desempregado. Minha mãe entrou na sala, o velhinho se levantou, cumprimentando-a com o que me pareceu ser uma mesura antiga. Disse que sentia muito a perda; “ele era um grande ami­go”. Perguntou como ela estava pas­sando, “estamos conseguindo seu Vítor, o senhor sabe como é di­fícil, ainda está muito recente; eu sei, a senhora nem imagina co­mo fiquei chocado, foi mesmo uma grande perda para todos nós; mas vamos sentar, o senhor não aceita um café? aceito sim, obrigado”; minha mãe e eu fomos até a cozinha preparar o tal café.

— Mãe… Quem é esse cara mesmo — sussurrei. — Eu lembro que ele veio aqui uma vez quando eu era bem pequeno; ele não é de Minas?

— Não, é de Brasília. Era um dos grandes amigos do seu pai, sempre deu muito apoio pra ele… Ele telefonou logo que soube, mas só pôde vir a São Paulo agora. Pega a bandeja de prata…

Bebemos o café conversando sobre generalidades: como haviam melhorado os voos pra cá, como chove em Santos e outra bobagens… Tomei cinco xícaras do líquido sujo, com bastante açúcar. Dizem que a cafeína deixa os sentidos alerta, por isso às vezes tomo quantidades de café que certamente matariam um rato de laboratório. Faço isso na esperança de que alguma fagulha se acenda em meu cérebro, revelando-me a Luz Divina. Até agora, tudo que consegui foi uma gastrite.

Nosso visitante contou que sua mulher estava bem, embora se queixasse de varizes, que a Teresa tinha tido outro bebê e que o Marcos estava fazendo pós-graduação em Barcelona. Concluí que Teresa e Marcos eram os filhos dele. Em seguida, Vítor abriu seu pacote e tirou de dentro dele uma pastinha de couro surrada, de onde saíram fotografias em preto e branco. Re­conheci logo um sorriso, congelado há 20 anos: meu pai. Uma observação mais atenta revelou-me também uma versão rejuvenescida do próprio Vítor, muito engraçado com aquelas costeletas grossas que as pessoas usavam na época. Todos os retratos eram iguais: imagens de ousados empreendedores, idealistas cujo orgulho transbordava de trás de suas gravatas.

Vítor contou que estava limpando o escritório quando encontrara as fotos. Disse ainda que elas, além de ter “evidente valor sentimental”, tinham também “incomensurável valor histórico”, afinal de contas, representavam um dos raros registros da cerimônia de inauguração da extinta TV Brasília. Sem dúvida, um marco nas telecomunicações nacionais. Minha mãe e eu concordamos, muito sérios. Ela pegou as fotos e ficou olhando, quieta. Nuvens pesadas passaram pelos seus olhos. Estra­nhamente, nós três começamos a falar baixo, como se em respeito aos finados que nos acenavam. Eu mesmo peguei algumas fotografias pra ver, não porque quisesse mesmo, mas porque não me ocorria mais nada pra fazer.

De súbito, minha mãe levantou de onde estava e foi para o corredor, soluçando. Pensei em segurar seu braço mas não tive coragem, era como se eu ouvisse o som de um iceberg se quebrando. O senhor Vítor Martins ficou lívido. Ergueu-se da cadeira e começou a falar como alguém que desperta de um transe.

— Me desculpe, que imprudência, eu não devia ter trazido isso agora — ele foi tentando se explicar, cada vez mais sem jeito e ainda falando baixinho.

— Achei que as fotos tinham que ficar com vocês, aproveitei que estava na cidade… Não imaginei que… Olha, me desculpe…

Fiz com que ele se sentasse e se acalmasse, agora não adiantava pensar nessas coisas. Era evidente que aquele não havia sido um ato de má fé, além do mais, eu sabia que dali a pouco minha mãe entraria de novo na sala, inteiramente recomposta. Não sei o que é que corre nas veias dela, mas é mais forte do que sangue.

Enquanto minha mãe não voltava, me vi sozinho mais uma vez com aquele sujeito, um tio velho que eu mal conhecia, um homem que fora um amigo honrado de meu pai, uma pessoa digna, um cavalheiro. Esse último termo ficou zumbindo alto na minha cabeça por alguns instantes. Realmente, o fato de alguém ser ainda um cavalheiro em pleno século 21 me dava uma sensação comparável àquela provocada pelo encontro com um alienígena, eu acho.

Não dissemos mais nada. Vítor ficou olhando para os quadros, depois para a janela e de novo para os quadros. Seus olhinhos verdes vasculhavam a penumbra como se ele procurasse algo ou esperasse alguém… Eu também Vítor, eu também me sento aqui e fico olhando para as coisas, só que faço isso às quatro da manhã. Eu também, como você, pareço estar procurando algo, ou esperando alguém. Na verdade, fico esperando que papai entre por aquela porta e me mande tirar os pés de cima do sofá, mas ele não entra. Depois nasce o dia e eu ainda tenho uma vida inteira pra viver… É sempre assim. Sabe, Vítor, desde que fiz 16 anos, fiquei mais alto que meu pai, mas agora as sombras são mais altas do que eu.

Luiz Marcondes é escritor, autor de “A Fase Azul” (Editora Multifoco).

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