Essa é uma declaração de amor à livraria. Uma declaração de amor à Palavrear.

Sábado, dia 24 de outubro, ela faz nove anos.

Eu poderia dizer tanta coisa sobre a Palavrear. Sobre as dificuldades de manter esse espaço aberto, os altos custos de manutenção e distribuição, ou mesmo sobre nossa concorrência tão injusta, predatória e monopolista que torna impossível falar em competição. Mas hoje prefiro falar do que nos torna únicos: as pessoas.

Como falar da Palavrear sem falar de quem a forma? De quem chega procurando um livro e leva outro. De quem volta para contar o que achou da leitura. De quem participa de um clube e, de repente, está em outro. Dos encontros que só aconteceram porque a livraria existe. Das pessoas que confiam nas nossas escolhas e daquelas que nos apresentam livros que ainda não conhecíamos, ajudando a preencher nossas estantes com tanta diversidade.

Jorge Luis Borges dizia que o paraíso deveria ser uma espécie de biblioteca. Eu gosto de pensar que também pode ser uma livraria: esse lugar onde cabe uma infinidade de possibilidades.

Não sei falar de livrarias, principalmente da Palavrear, sem cair em algumas pieguices e clichês sobre esse universo tão bonito dos livros. Mas, na vida, sempre me permiti todos os clichês possíveis. Inclusive o de declarar meu amor à minha paixão maior: ter a Palavrear.

Esse universo que respiro todos os dias, há nove anos. Um mundo que também é à minha maneira de olhar para o mundo e que só faz sentido porque é compartilhado.

Pois acredito nos livros e em quem os faz: escritores, editores, livreiros, leitores. Se não acreditasse, como manter uma livraria de rua? Todas as minhas crenças passam pelos livros, pela possibilidade de que as histórias nos tornem mais empáticos, ampliem nossa compreensão do mundo e nos deem uma noção mais profunda das mazelas humanas. Porque conhecer histórias humanas também é uma forma de compreender o outro. Clichê? Eu sei. Mas me permito ser, na Palavrear.

Como não acreditar em uma livraria de rua quando temos a Marina, que vimos crescer ali, pendurada nas escadas que dão acesso ao jardim, em cima do pé de goiaba e, agora, indicando e vendendo livros para outras crianças na seção infantil?

Como não acreditar quando a Ana faz da livraria o passeio preferido da sua cachorrinha Mel? Quando a Manu, que conheceu a Palavrear pequenininha, ainda a chama de “feira dos livros”, lembrando o dia em que sua madrinha a trouxe para uma feira de livros infantis?

Quando o Vassil deixa seu espresso ao lado do balcão e namora os livros entre os banquinhos e as estantes, em um mundo que não cabe e nem tem pressa? Quando a Adriana, tão apaixonada, fiel e defensora da Palavrear, embarca comigo em toda e qualquer ideia que envolva os livros, com os olhos brilhando de encantamento, na mesma intensidade com que fala dos filhos?

E o Ricardo, que, junto com a Adriana e o Renato, fundou um dos clubes mais bonitos e engajados que a Palavrear abriga, o Clube de Poesia Goiabeira. E que é sempre tão afetivo com a nossa livraria.

Como não acreditar?

A Palavrear é feita de livros, mas, principalmente, dessas histórias de pessoas que passam por ela. É feita dessas miudezas que tornam vida de uma livraria de rua, tão grande. É feita de uma comunidade que foi se formando aos poucos, de leitores que fizeram da livraria seu lugar preferido, seu lugar de refúgio. E de histórias que agora são nossas.

Por isso não acredito em algoritmos, robôs ou IAs. Acredito em livreiros, indicações e clubes de leitura. Acredito nos encontros que acontecem ao redor da palavra, nos clubes como mediadores de mundos, na bibliodiversidade que nos permite conhecer outras existências e imaginar outras possibilidades.

É assim que se constrói uma livraria de rua. Não apenas com livros nas estantes, mas com tudo o que acontece entre uma página e outra, entre pessoas. A Palavrear, nesses nove anos, não se encheu apenas de livros. Encheu-se de gente.

E é por isso que celebrar mais um ano de existência significa tanto. Porque, para além de todas as dificuldades, há um mundo inteiro que construímos juntos. Um lugar de liberdade para imaginar, conhecer outros mundos e, quem sabe, compreender um pouco melhor este em que vivemos.

E acredito que há algo de revolucionário — e cada vez mais necessário — em dançar, rir, cantar, sonhar e ter uma livraria de rua. Com todo o espaço para o encantamento.

Sábado vamos celebrar tudo isso com a nossa tradicional feira de aniversário. Teremos a tenda de livros na frente da livraria, muitos títulos com preços promocionais e descontos também nos livros dentro da loja. Uma festa do jeito que gostamos: com livros por toda parte e espaço para os encontros.

Se você já participou de alguma das nossas feiras, sabe que vale a pena. Se ainda não veio, talvez este seja um bom dia para chegar.

Obrigada a quem faz parte dessa história. A quem escolheu a livraria de rua. A quem acredita que vale a pena entrar, olhar as estantes sem pressa, conversar, descobrir um autor desconhecido, levar um livro que não estava nos planos. A quem faz da Palavrear muito mais do que o lugar onde se compram livros.

A Palavrear faz nove anos e me pego pensando em quantas histórias cabem nesse tempo. Quase uma década de amor à livraria. Quase. E chegaremos lá.

Essa foi uma declaração de amor à Palavrear. E a todas as pessoas que fazem dela o que ela é.