Fernando Cupertino

Naquele tempo, vir de França para Goiás não era coisa que se resolvesse com uma passagem e alguma disposição para viajar. Havia o oceano, as estradas de ferro, as estradas de terra, os rios e, por fim, aquelas léguas de sertão que pareciam ter sido postas no mundo para testar a paciência dos viajantes. Chegar à antiga capital goiana exigia mais do que vontade. Era preciso ter coragem para partir e alguma resignação para suportar o caminho.

Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leon (1841-1924) conhecia bem essas dificuldades. Bispo de uma diocese extensa, sabia que a presença da Igreja nos sertões dependia também de gente disposta a viver longe dos grandes centros, com falta de recursos, onde as comunicações eram precárias e quase tudo precisava ser organizado a partir do pouco que havia. Os dominicanos já trabalhavam na região. Faltavam as religiosas.

O bispo queria uma escola para meninas, mas não se contentava com a ideia de abrir as portas de uma casa e esperar que as alunas aparecessem. Era preciso formar uma comunidade capaz de sustentar o trabalho, ensinar, organizar a vida escolar e permanecer ali quando passasse a curiosidade dos primeiros dias. Pensou, então, nas Dominicanas de Nossa Senhora do Rosário de Monteils, congregação francesa fundada em 1850, dedicada à educação e à assistência aos necessitados.

O convite atravessou o Atlântico antes das próprias religiosas. Do outro lado, encontrou mulheres dispostas a aceitar uma missão cujo destino, para muitas delas, devia ter algo de remoto e misterioso. Goiás não era Paris, nem Lyon, nem qualquer das cidades que conheciam. Era uma capital do interior brasileiro, distante do litoral e cercada por um território em que as distâncias se mediam menos pelo número de léguas do que pelo tempo necessário para vencê-las.

Numa viagem difícil, o grupo que seguiria para a antiga capital era composto por oito religiosas francesas. Quatro vieram da França. Outras quatro, já estabelecidas em Uberaba, foram designadas para acompanhá-las

Em maio de 1889, algumas das irmãs partiram para o Brasil. O navio afastou-se da costa francesa e tomou o rumo do Atlântico. Na bagagem iam roupas, livros, objetos religiosos e os poucos pertences que se podiam carregar para uma vida inteiramente nova. Não era possível levar muito, mas também não se podia chegar de mãos vazias a uma missão que exigiria ensinar, organizar uma casa e atender às necessidades de uma comunidade.

A travessia devia ser longa o bastante para que a saudade encontrasse ocasião de se manifestar. O horizonte pouco mudava, os dias se sucediam a bordo e o mar impunha seu próprio ritmo. Talvez alguma das religiosas passasse horas junto à amurada, vendo desaparecer o último sinal da Europa. Outra poderia preferir a leitura ou a oração, enquanto uma terceira procurava distrair as companheiras com conversa. Não temos os diários dessas mulheres para saber como viveram aqueles dias. Mas não é difícil imaginar que, entre a expectativa e o receio, cada uma procurasse à sua maneira acostumar-se à ideia de que estava deixando para trás uma parte inteira da própria vida.

Quando chegaram ao Rio de Janeiro, encontraram uma cidade de movimento intenso, com seu porto cheio de embarcações, carroças, comerciantes e marinheiros. O calor, a luminosidade e os sons anunciavam um país diferente daquele que haviam deixado. Para as religiosas, porém, o Rio não passava de uma estação no caminho. Goiás continuava muito longe.

Era necessário seguir para o interior, primeiro pelos caminhos de ferro, depois pelas estradas. O trem encurtava as distâncias, mas não chegava a todos os lugares. A viagem prosseguiu em direção a Ribeirão Preto e, dali, a Uberaba, onde os dominicanos já haviam estabelecido uma comunidade.

O trecho ferroviário devia parecer uma comodidade depois dos dias no navio. Pela janela, a paisagem mudava sem que as viajantes precisassem enfrentar a poeira ou o sol. Havia estações, povoações, campos cultivados e a fumaça da locomotiva ficando para trás. Mas o conforto tinha seus limites. Em algum ponto, os trilhos terminavam, e o restante do percurso dependia de animais, carros e estradas que nem sempre mereciam esse nome.

Uberaba oferecia às religiosas um primeiro contato mais demorado com a vida brasileira. Ali, as primeiras dominicanas já trabalhavam na Santa Casa de Misericórdia e no Colégio Nossa Senhora das Dores. A cidade servia de apoio à congregação e permitia que as recém-chegadas descansassem antes de enfrentar o caminho para Goiás. Era também uma oportunidade para se familiarizarem com a língua portuguesa, que certamente lhes causaria dificuldades nos primeiros contatos com os moradores.

Religiosas tiveram de se habituar. Não bastava suportar o desconforto das montarias. Era preciso aceitar que o dia nem sempre terminaria onde se esperava, que a comida poderia ser diferente daquela a que estavam acostumadas

Não era ainda o fim da viagem. Era apenas o último lugar onde poderiam preparar-se para o trecho mais penoso.

O grupo que seguiria para a antiga capital era composto por oito religiosas. Entre as que haviam vindo da França estavam Jeanne-Marie, Maria Emmanuel, Marie Antoinette e Maria Isabelle. Outras quatro, já estabelecidas em Uberaba, foram designadas para acompanhá-las. A expedição teria ainda a presença do padre Gallais, dominicano. Os nomes das quatro religiosas que completaram o grupo não estão suficientemente esclarecidos nas referências consultadas; seria arriscado acrescentá-los sem documentação que os confirmasse.

Prepararam-se cerca de trinta mulas para transportar a bagagem e os mantimentos. Os volumes foram reduzidos ao indispensável: roupas, livros, objetos de uso religioso, utensílios e tudo o que pudesse ser necessário nos primeiros tempos. A distância até Goiás era estimada em 120 léguas. Não se tratava de uma estrada contínua, com pousadas regulares e a certeza de encontrar abrigo ao fim de cada jornada. O caminho ligava povoações e propriedades rurais por trilhas que o sol endurecia e a chuva podia transformar em lama.

Na manhã da partida, a comitiva devia oferecer uma cena curiosa aos olhos de quem estivesse por perto. Os homens conferiam as cargas, ajustavam as correias e verificavam os animais. As religiosas acomodavam-se como podiam, preparadas para deixar a relativa segurança de Uberaba e enfrentar um sertão que, para algumas, ainda não passava de uma sucessão de nomes ouvidos durante a preparação da viagem.

O padre Gallais conhecia melhor as dificuldades que os aguardavam. Seria preciso aproveitar as horas frescas da manhã, evitar o desgaste desnecessário dos animais e encontrar abrigo antes que a noite tornasse o caminho mais difícil. O horário previsto podia ser alterado por uma chuva, por uma passagem ruim ou pelo cansaço de uma mula. No sertão, os planos precisavam aprender a conviver com o imprevisto.

Uma escola dirigida por religiosas não resolveria as desigualdades de uma sociedade que mal começava a lidar com as consequências da abolição da escravidão, mas poderia abrir uma possibilidade concreta pra crianças

A marcha começava cedo. Durante as primeiras horas, o ar ainda guardava algum frescor; depois, o sol subia e a poeira se levantava sob as patas dos animais. Havia campos abertos, trechos de mata, córregos e rios. A paisagem se modificava lentamente, e o percurso parecia interminável quando o cansaço se acumulava.

As religiosas tiveram de se habituar à vida de viagem. Não bastava suportar o desconforto das montarias ou as noites passadas em pousos improvisados. Era preciso aceitar que o dia nem sempre terminaria onde se esperava, que a comida poderia ser diferente daquela a que estavam acostumadas e que nem sempre haveria condições de descansar como desejavam.

Nas casas em que a comitiva encontrava abrigo, a presença daquelas mulheres de hábito religioso despertava curiosidade. As crianças se aproximavam, os adultos faziam perguntas e os mais tímidos observavam de longe. A língua nem sempre permitia uma conversa compreensível, mas havia gestos que dispensavam tradução. Uma tigela de comida oferecida, um lugar para descansar ou um sorriso podiam dizer muito mais do que as palavras.

Talvez as irmãs tenham estranhado o calor, a alimentação e a simplicidade de alguns pousos. Talvez tenham se surpreendido com a generosidade de famílias que, embora tivessem pouco, encontravam alguma coisa para oferecer às viajantes. Não sabemos quais dessas experiências ficaram gravadas na memória de cada uma. O que se pode afirmar é que, antes de chegar à cidade onde viveriam, elas já haviam conhecido um pouco do país que as acolhia, não por meio de livros ou relatos, mas pela estrada e pelas pessoas que encontraram nela.

A viagem durou cerca de quatro semanas, segundo as referências históricas, embora haja pequenas variações na contagem. Foram dias de marcha, paradas, cansaço e recomeço. A França ficava cada vez mais distante, e Goiás deixava de ser um nome repetido nas cartas do bispo para se tornar um lugar concreto, com ruas, casas e pessoas que esperavam a chegada das religiosas.

Na Cidade de Goiás, a notícia da aproximação da comitiva corria de boca em boca. Dom Cláudio aguardava as viajantes com a satisfação de quem vê avançar um projeto que lhe dera trabalho e preocupação. Não bastava conseguir que as religiosas aceitassem o convite. Era preciso trazê-las, encontrar-lhes alojamento e criar condições para que pudessem começar a trabalhar.

O bispo sabia que a educação feminina enfrentava limitações consideráveis. As famílias com recursos podiam procurar professores particulares ou recorrer às instituições existentes; para as meninas pobres, as oportunidades eram muito menores. Uma escola dirigida por religiosas não resolveria, por si só, as desigualdades de uma sociedade que mal começava a lidar com as consequências da abolição da escravidão, mas poderia abrir uma possibilidade concreta para muitas crianças.

Na manhã de 5 de setembro de 1889, por volta das onze horas, a comitiva chegou finalmente à antiga capital. Depois de semanas de estrada, as religiosas encontraram uma cidade reunida para recebê-las com bandas de música

A chegada das francesas, por isso, não era um acontecimento restrito ao clero. Havia gente interessada em conhecer as mulheres que vinham de tão longe e em ver o que resultaria da iniciativa do bispo. A cidade preparou-lhes uma recepção festiva, com bandas de música e fogos de artifício.

Na manhã de 5 de setembro de 1889, por volta das onze horas, a comitiva chegou finalmente à antiga capital. Depois de semanas de estrada, as religiosas encontraram uma cidade reunida para recebê-las. O som das bandas e o estampido dos fogos deviam contrastar com o silêncio dos caminhos que haviam percorrido. Aquelas mulheres, habituadas a avançar sem saber ao certo o que encontrariam no dia seguinte, eram agora o centro das atenções.

Dom Cláudio estava presente. Podemos imaginar a satisfação do bispo ao ver chegar o grupo que tanto se empenhara em trazer. Conhecia as dificuldades da empreitada e sabia que, a partir daquele momento, a missão deixava de ser um projeto discutido em cartas para se tornar uma tarefa cotidiana, com despesas, responsabilidades e problemas ainda por resolver.

Não conhecemos as palavras trocadas durante a recepção, nem seria prudente inventar um diálogo e apresentá-lo como fato. A documentação, entretanto, registra o caráter festivo da chegada e a acolhida que a cidade ofereceu às religiosas. Havia motivo para comemorar: depois do oceano, dos caminhos de ferro e das longas jornadas pelo sertão, elas estavam finalmente onde deveriam permanecer.

O alojamento fora providenciado pelo bispo. As religiosas instalaram-se em uma casa que lhes serviria de residência e ponto de partida para a organização da escola. Não há, nas referências consultadas, elementos suficientes para determinar com segurança o endereço original do imóvel ou descrever todos os seus cômodos. O que se sabe é que ali começou a vida da nova comunidade, antes mesmo de o colégio abrir as portas.

Depois de tantas noites em pousos provisórios, ter uma casa onde deixar as bagagens devia ser um alívio. Era preciso, contudo, fazer daquele espaço uma residência religiosa. Os quartos precisavam ser organizados, os pertences desembalados, os livros separados e a cozinha posta em funcionamento. A casa teria de abrigar as irmãs e, ao mesmo tempo, preparar-se para as exigências de uma instituição de ensino.

São tarefas que raramente aparecem nos relatos históricos. Registra-se a data da chegada, o nome do bispo, a fundação do colégio. Pouco se diz sobre o trabalho miúdo que transforma uma casa em lugar de vida: a limpeza, a arrumação dos objetos, a busca de utensílios, a organização das refeições e a adaptação a costumes diferentes. Para as religiosas, tudo isso fazia parte da missão tanto quanto as aulas que começariam a dar.

A língua também exigia esforço. O português aprendido em Uberaba ajudaria, mas não bastaria para resolver todas as dificuldades. Era preciso compreender os hábitos locais, saber onde encontrar o necessário e conhecer as famílias com as quais passariam a conviver. A cidade que as recebera com festa teria de se tornar, aos poucos, um lugar familiar.

Pouco menos de um mês depois, em 1º de outubro de 1889, o Colégio Sant’Ana começou a funcionar. A primeira turma era modesta: cinco alunas internas e cerca de cem externas, reunidas em torno de uma classe gratuita

Pouco menos de um mês depois, em 1º de outubro de 1889, o Colégio Sant’Ana começou a funcionar. A primeira turma era modesta: cinco alunas internas e cerca de cem externas, reunidas em torno de uma classe gratuita. O número de estudantes, por si só, não dá conta do esforço exigido para pôr a instituição em funcionamento. Era preciso preparar as aulas, organizar horários, estabelecer regras e conquistar a confiança das famílias.

A escola não mudaria de uma hora para outra a posição das mulheres na sociedade goiana. As diferenças econômicas continuavam a determinar quem podia estudar e em que condições. Ainda assim, a presença das dominicanas criou uma oportunidade de instrução que, com o tempo, ganharia importância na história da educação em Goiás.

As francesas, que poucos meses antes talvez mal conseguissem manter uma conversa em português, começavam a construir uma rotina naquela cidade. Já não eram apenas as estrangeiras que haviam chegado depois de uma viagem extraordinária. Eram as mulheres que ensinavam, organizavam a casa, recebiam as meninas e procuravam fazer funcionar uma escola ainda nos seus primeiros passos.

É possível que, em algum momento daqueles meses iniciais, uma delas tenha se lembrado da França ao ouvir uma palavra familiar ou ao encontrar, entre os livros, alguma coisa que lhe trouxesse a memória da terra natal. Não seria estranho que a saudade aparecesse justamente nos intervalos do trabalho, quando o silêncio dava espaço às lembranças. A vocação não elimina a distância, assim como a coragem não impede o cansaço.

Mas a manhã seguinte sempre trazia alguma coisa por fazer.

A viagem que começara na França terminara em Goiás; a missão, não. Essa continuaria nas salas de aula, nas tarefas da casa e no esforço diário de transformar uma fundação recém-iniciada em uma instituição capaz de permanecer. As religiosas tinham vencido o oceano e o sertão para chegar à antiga capital. Agora precisavam conquistar, dia após dia, o seu lugar nela.

Nota histórica: O conto conserva os acontecimentos, as datas, os nomes e as informações essenciais da versão anterior. Os diálogos, os pensamentos atribuídos às religiosas e as cenas particulares da viagem são recursos ficcionais, não episódios documentados. A chegada do grupo, a recepção em 5 de setembro de 1889 e a abertura do Colégio Sant’Ana em 1º de outubro daquele ano são fatos registrados na historiografia da congregação e da educação em Goiás.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.