Terror, humor e mensagem ambiental em nova HQ de Tiago Holsi

“O ataque das terríveis abobrinhas mutantes zumbis comedoras de cérebro” busca apoio na plataforma de financiamento coletivo para virar papel

Crowdfunding ou financiamento coletivo. No Brasil, algumas plataformas realizam esse tipo de serviço que pode, ou não, recompensar o apoiador por investir em projeto. No Brasil, o Catarse se destaca como um dos sites do gênero com o maior número de propostas. E uma das modalidades mais comuns é a de quadrinhos.

Tiago Holsi, quadrinista

Atualmente, mais de 160 projetos buscam o apoio do público para virar papel. Um deles pertence ao goiano Tiago Holsi: “O ataque das terríveis abobrinhas mutantes zumbis comedoras de cérebro”.

A obra acompanha uma família de agricultores que precisa defender a cidade de Cabutiânia de abobrinhas que ganharam vida em decorrência do uso de mais de 290 agrotóxicos na lavoura local.

Na trama temos um misto de ficção e terror B, que aborda “os perigos do uso de agrotóxicos sintetizados e sementes transgênicas, os benefícios do alimento orgânico e o fortalecimento da agricultura familiar, refutando ações das grandes empresas da agricultura patronal”, conforme a descrição do projeto.

Para saber mais sobre a história, o quadrinista responsável, Tiago Holsi, que é autor, também, das HQs “Entardecer dos Mortos”, “665: A Vizinha da Besta” e “Floresta Morta”, bateu um papo com o Jornal Opção, que você confere a seguir.

Entrevista

Holsi, essa é a sua quarta HQ. O que ela tem de diferente e semelhante em relação às anteriores?

Esta é minha quarta HQ autoral que será publicada, mas tenho de mudar meu modo de conceituar isso. Eu costumava considerar publicação somente os impressos que ganharam ISBN (International Standard Book Number), mas há publicações minhas que não têm ISBN e foram publicadas em outros meios, como o digital. Se for considerar isso, devo ter em torno oito publicações. Neste novo quadrinho resolvi trabalhar novamente com uma paleta de cores reduzida, como fiz no quadrinho “Entardecer dos Mortos”. Gosto muito desse estilo de cor – minhas referências em quadrinhos são “A máquina de Goldberg”, de Fido Nesti, e “Open Bar”, de Eduardo Medeiros. “O incrível ataque das terríveis abobrinhas mutantes zumbis comedoras de cérebro” me levou a um novo desafio de fazer em um prazo curtíssimo um quadrinho que quero deixar com páginas bem detalhadas.

“O incrível ataque das terríveis abobrinhas mutantes zumbis comedoras de cérebro” tem esse nome todo por homenagem a algum filme de terror antigo? Fala um pouco da inspiração para essa composição.

Gosto muito de filmes de criaturinhas demoníacas, como “Gremlins” (1984) e “Criaturas” (1986), um tipo de história que sempre tive vontade de fazer atrelado aos zumbis. Não dá pra deixar de citar a influência de títulos trash como “O ataque dos tomates assassinos” (1978) e “Palhaços Assassinos do Espaço Sideral” (1988), também.

No colégio eu tinha um professor, que hoje é meu amigo, Edmar Camilo Cotrim. A turma do fundão e eu fazíamos historinhas dele como se fosse um super-herói meio desastrado e em uma dessas historinhas ele enfrenta uma “Invasão dos malditos quiabos verdes de marte”. Acho que o “Abobrinhas” surgiu um pouco daí. Mas esse título longo, na verdade, é para passar raiva nos jornalistas (risos).

Suas obras costumam ser voltadas para o terror, mas sempre apresentadas de uma forma mais leve, por um traço cartunesco. Fale um pouco de suas influências.

Gosto muito de filmes de terror. Na minha infância assistia filmes que eram para adultos. Nessa época não havia preocupação em criar conteúdos para o público infanto-juvenil. E quando tinha algo pra criança, era feito com mentalidade de adulto, feito pra vender brinquedo. Procuro produzir um conteúdo adequado para crianças e que consiga levar o gênero do terror até elas. Medo é uma das coisas que mais instigam a imaginação.

Além disso, essa nova história também tem um fundo de crítica a tudo que tem acontecido na política nacional, certo?

Depois que meu filho Benício nasceu, minha mulher Sheila e eu procuramos sempre proporcionar uma alimentação saudável em nossa casa. Muito do nosso antigo hábito alimentar foi ajustado. Frutas e verduras entraram no nosso cardápio, mas outra preocupação surgiu: como saber se esse alimento “saudável” não está cheio de veneno?

Com o aumento no número de agrotóxicos permitidos pelo governo é claro que a ameaça que já era significativa se torna ainda maior. A fiscalização é ineficaz e esse uso indiscriminado trará sérias consequências. É um assunto que precisa ser abordado e em meio a tantos absurdos que vem ocorrendo na administração do país, este vem perdendo o foco.

Mas além de todo o subtexto, o que temos de história principal?

Em meio a todo o caos que as abobrinhas causam, a família Oliveira, agricultores que praticam plantio orgânico, estão de prontidão para defender e salvar o que resta da cidade. Essa família já passou por maus bocados. Quase perderam sua fazenda para o Banco várias vezes e sabem muito bem como se manter unidos e somar forças para lutar. E a maior arma que possuem para isso é Paçoca, sua capivara de estimação.

Sem entregar o fim, qual a mensagem ambiental e a humana que vamos encontrar na HQ?

Na historinha, as abobrinhas ganham vida por meio de uma mutação pelo uso de vários agrotóxicos. Elas são, inicialmente, encaradas como vilãs da história, quando na verdade são vítimas da falta de consciência ambiental. Afinal, quem é o verdadeiro vilão da história?

A HQ busca apoio no Catarse, um site de financiamento coletivo para ser viabilizada. Por que essa escolha?

Todas os meus quadrinhos impressos foram produzidos com financiamento do Catarse. Com essa crise no mercado editorial e sem perspectiva de melhora, custear uma impressão do próprio bolso se torna inviável. Se não for financiado, vai pro online, com custo zero. É uma dura realidade. No online você tem mais abrangência, mas ter um produto para vender ainda faz parte da minha realidade. Ir a feiras, eventos, etc.

Quais as alternativas para o autor independente e como se motivar para continuar a produzir sempre, como você?

Não dá para parar. É um vício! (risos) A maior alegria que tenho é quando recebo um feedback, um leitor que volta a minha mesa em um evento comentando o que gostou na história, isso é o que motiva. Poder contar minhas histórias e ter alguém para lê-las. Se não der pra lançar o quadrinho impresso, lança online, não desanima, não deixa ele na gaveta, mostra sua história pro mundo.

Agora é a hora: venda o seu peixe. Por que apoiar e adquirir um exemplar de “O incrível ataque das terríveis abobrinhas mutantes zumbis comedoras de cérebro”?

Apoiando, a partir de R$ 20 você garante seu exemplar impresso com frete grátis e, se o projeto não bater a meta, você recebe seu dinheiro de volta. A historinha está bem bacana e garanto que você vai se divertir bastante. Como nos projetos anteriores, sua ajuda é muito importante para ele se tornar realidade. Ajude a divulgar nas redes sociais e fazer com que ele chegue a mais pessoas. Serei eternamente grato.

Detalhes

O quadrinho, no formato 16×23 cm, terá 64 páginas de história mais alguns extras. Se financiado, ele será impresso em papel sulfite 90g com lombada quadrada. Tudo em cores.

Para ser financiada, a história precisa de R$ 7 mil em apoios. Entre as recompensas estão a versão impressa do livro, PDF, combos com as outras obras de Holsi, pôsters e mais. Mais detalhes pelo site do projeto.

Perfil do autor

Tiago Holsi é formado em Design Gráfico pela PUC-GO em 2007. Ele é o fundador da Micro Editora Céleblo Comics e “capitão” do estúdio Navio Fantasma.

Em 2015, ele publicou seu primeiro quadrinho autoral, “Entardecer dos Mortos”, por meio do Catarse, e o lançou no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) em Belo Horizonte. No mesmo ano foi contemplado pelo Fundo de Cultura do Estado de Goiás e viabilizou uma segunda edição da HQ em capa dura.

Já em 2016, lançou na CCXP a segunda publicação, também financiada no Catarse. O livro ilustrado/quadrinho “665: A Vizinha da Besta”. No ano seguinte, alcançou a meta para a publicação de mais um quadrinho, “Floresta Morta”, também lançado na CCXP.

“No início deste ano eu saí do meu emprego fixo, no qual estive por mais de dez anos para encarar o desafio de ser quadrinista em tempo integral. ‘O incrível ataque das terríveis abobrinhas mutantes zumbis comedoras de cérebro’ é o meu primeiro quadrinho nessa nova fase.”

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