Sugestões para um mundo mais justo

Carta da escritora nigeriana transformou-se num manifesto contundente e equilibrado, sugerindo que as crianças leiam livros e oferecendo 15 sugestões de como aproximá-las do conceito de feminismo, que para a autora não está moldado na desigualdade de gênero

Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana: “O feminismo é uma questão urgente a ser tratada por todos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens”


DIRCE WALTRICK DO AMARANTE

Especial para o Jornal Opção

Depois do enorme sucesso de “Sejamos todos feministas”, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, conhecida por livros que tratam da questão feminina e de gênero, retorna ao tema numa carta a uma amiga que lhe pede “conselhos” sobre como criar sua filha recém-nascida como uma feminista.

Chimamanda transformou a carta num manifesto bastante sucinto, mas contundente, publicado sob o título “Para Educar Crianças Feministas — Um Manifesto” (Companhia das Letras, 94 páginas, tradução de Denise Bottamann).
A propósito, o uso da palavra ‘crianças’ engloba meninas e meninos, pois, como afirma a escritora, o feminismo é uma questão urgente a ser tratada por todos, “na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens”.

Nesse manifesto, Chimamanda oferece 15 sugestões de como aproximar as crianças do conceito de feminismo, o qual, para ela, não está moldado na desigualdade de gênero. O feminismo é uma “questão de contexto”, ou seja, para cada situação que se apresenta, deve-se pensar se a nossa reação seria igual para homens e mulheres.

Chimamanda Ngozi Adichie. “Para Educar Crianças Feministas — Um Manifesto” (Companhia das Letras, 94 páginas, tradução de Denise Bottamann)

Perguntas machistas

A esse respeito, a escritora lembra que “estamos tão condicionados a pensar o poder como coisa masculina que uma mulher poderosa é uma aberração”. De fato, muitas vezes quando pensamos, por exemplo, na chanceler alemã Angela Merkel, raramente a vemos como mulher, mas como um ser assexuado, e quando a pensamos como mulher, perguntamos: “ela tem humildade? Sorri? Mostra gratidão? Tem um lado doméstico? Perguntas que não fazemos a homens poderosos, o que demonstra que o nosso desconforto não é com o poder em si, mas com a mulher”. Não é raro noticiarem, como grande feito, Angela Merkel fazendo compras em supermercados de Berlim. É seu lado doméstico, do qual as mulheres não conseguem facilmente se libertar.

Angela Merkel: primeira-ministra alemã, citada pela autora como modelo de mulher poderosa que muitas vezes é vista como uma aberração, por estarmos condicionados a pensar o poder como coisa masculina

O fato é que frequentemente pensamos a mulher moderna como aquela que dá conta de tudo, característica que a sociedade enaltece, como lembra Chimamanda. Contu­do, a escritora não tem interesse “no debate de mulheres que ‘dão conta de tudo’, porque o pressuposto desse debate é que o trabalho de cuidar da casa e dos filhos é uma seara particularmente feminina”. Ideia que a escritora repudia vivamente, pois acredita que “o trabalho de cuidar da casa e dos filhos não deveria ter gênero”.

De modo que a mulher que dá conta de tudo parece querer absorver todas as funções por considerá-las como próprias dela e mistificar a ideia de que para ser feminista não pode ou não deve pedir ajuda: “Peça ajuda. Espere ajuda. Isso de Supermulher não existe”, ainda que, diria, parece ser mais prático para o homem, que, com uma supermulher, continua em sua posição de privilégio.

Anjo do lar

Num texto de 1931, “Profissões para mulheres”, Virginia Woolf reflete sobre um fantasma que a perturbava sempre que escrevia resenha de livros escritos por homem. Esse fantasma era uma personagem de um poema de Coventry Patmore, “O anjo do lar”, que enaltecia o amor conjugal e idealizava o papel doméstico das mulheres. Nele, a mulher era descrita como “extremamente simpática. Imensamente encantadora. Total­mente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sa­crificava-se todos os dias […]”.

Não seria a supermulher uma espécie de “anjo do lar”, que sacrifica sua individualidade em prol de uma missão “maior”? Woolf lembra que “é muito mais difícil matar um fantasma [no caso, uma mulher, heroína de “O anjo do lar”] do que uma realidade”; e que quando achava que estava livre dela, ela “reaparecia sorrateira”.

Virginia Woolf, escritora inglesa que em 1931 publicou o texto “Profissões para mulheres”, refletindo sobre um fantasma que a perturbava sempre que escrevia resenha de livros escritos por homens

Passado um século, matar o anjo do lar parece ainda tarefa difícil. O livro de Chimamanda Adichie reflete de certa forma sobre esse fantasma que estabelece “papéis de gênero”, os quais a escritora considera absurdos: “Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa ‘porque você é menina’”.

Chimamanda sabe que pensar essas questões requer um questionamento constante, que só se atinge com educação e liberdade. Por isso, uma de suas sugestões é a de ensinar a criança o gosto pelos livros, pois eles vão ajudá-la a questionar e entender o mundo e a questionar a linguagem, “repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos”.

Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de “Cenas do teatro moderno e contemporâneo” (Iluminuras).

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