Som e fúria na estreia de Alex Tomé na literatura

Romance apresenta um reflexivo retrato sobre a juventude brasileira contemporânea

Romance trata da “transformação de jovens distraídos em adultos com raiva” | Foto: Reprodução

Romance trata da “transformação de jovens distraídos em adultos com raiva” | Foto: Reprodução

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Natural de Orlândia, interior de São Paulo, o escritor Alex Tomé acaba de lançar seu primeiro romance, o intitulado “Eu contra o Sol” (Confraria do Vento). O livro perscruta uma viagem fragmentada de alto teor poético, e que emerge no seio psíquico do complexo Benício, um jovem poeta que vive conflitos com o pai e uma grande frustração amorosa pela ex-namorada. Em resumo, o livro traça um reflexivo retrato sobre a juventude contemporânea, cheia de som e fúria, com suas alegrias e tristezas, anseios e dúvidas. Nas palavras do autor, o romance trata da “transformação de jovens distraídos em adultos com raiva”.

Dentro de uma estrutura textual ousada e metalinguística, o escritor de 34 anos desponta na literatura com força e equilíbrio, mostrando evidente domínio técnico como romancista. Da ideia inicial em 2005 até ganhar o seu respectivo corpo no papel, “Eu contra sol” demandou alguns anos, mas Tomé estava certo em centralizar-se sobre o caos contemporâneo: “Havia a ideia de escrever um livro sobre uma cidade em ebulição, uma coletividade que gerava seu próprio caos, se nutria dele, inclusive. Havia elementos caros a mim como mulheres fortes, política e inadequação social. Fui rascunhando laivos de uma história hamletiana sobre traição. Criei um método de criação diária, exercícios permanentes para desenvolver uma linguagem, uma voz”, explica o autor.

Quando as manifestações eclodiram no país em 2013, ele celebrou por estar escrevendo sobre o tema, mas lamentou que a obra não estivesse pronta: “Foi neste período que o livro começou a tomar uma forma mais sólida e fui movido por um sentido de urgência muito intenso. Compreendi que a urgência deveria ser a própria linguagem”.

Em 2015, por fim, assinou o contrato com a editora, embora não estivesse ainda contente com o resultado final, e desenvolveu algumas versões da obra: “Na última revisão, cortei 120 páginas. Apenas quando minha editora avisou que enviara o livro para a gráfica foi que parei de escrever. Depois que vi o livro impresso pensei ‘pronto, posso me libertar para outros livros’”.

Da ideia inicial até ganhar forma, a obra se centraliza no caos contemporâneo gerado pela própria coletividade | Foto: Divulgação

Da ideia inicial até ganhar forma, a obra se centraliza no caos contemporâneo gerado pela própria coletividade | Foto: Divulgação

Durante o processo de produção do romance, o interesse maior do autor estava “em encontrar a própria voz em vozes alheias”, como relata. Para ele, era fundamental exaurir as referências literárias em busca de sua própria linguagem. A hibridação dos gêneros literários, como a prosa e a poesia, foi a chave para dar corpo ao seu projeto, uma vez que não conseguia evidenciar linhas divisórias entre um e outro.

“Trabalhei o texto de forma que alguém pudesse ler o romance abdicando da poesia ou que compreendesse o teor da história lendo apenas os poemas ou que, da junção das duas linguagens, a obra pudesse se desdobrar em mais camadas; conciliar prosa e poesia de modo que emulassem o desenvolvimento intelectual, emocional e político de Benício em sua jornada”, afirma o autor, que precisou reescrever o texto centenas de vezes como quem modula a voz.

Como um arguto estilista da língua, Tomé não poupou esforços para chegar à melodia e sintaxe perfeita que a narrativa necessita em seu escopo: “Mais grave, mais agudo, mais alto, mais baixo, menos melismas, mais sussurros, muitos gritos”, revela. Sua obsessão pela linguagem vem acompanhada de muitas anotações e disciplina, durante o processo criativo: “Anoto muito: ideias, frases, cenas, descrição de imagens, diálogos, uma palavra ouvida na rua. Acho necessário esse material caso a página em branco comece a latejar. Com o fio da história e esses objetos literários acumulados, colocava-me diariamente entre 4 e 7h da manhã para escrever, religiosamente; aos finais de semana criava em período integral. O restante do tempo que tinha livre pesquisava sobre o tema”.

O sol, apresentado no título, caracteriza o cáustico calor que incide todo o amálgama do romance. O termo acaba por possuir um sentido metafórico, internalizado em sua artística concepção: “Pensava em Mersault, de “O estrangeiro”, que matou o árabe oprimido pela opulência do sol. Pensava também em Michel, de “Acossado”, que atirou contra o sol, gratuitamente. Pensava na impotência do homem mediante a imensidão. Em um primeiro momento pensei que o sol poderia ser uma espécie de narrador onisciente, refletindo melhor percebi que para uma contenda minimamente justa não poderia lhe incumbir tamanho poder, o poder da palavra. As palavras eram tudo o que restava a Benício – personagem contra todos e que em sua necessidade revoltosa nomeou o sol como inimigo”, diz Tomé.
Ele revela ainda que a intenção era alcançar uma linguagem que se situasse entre a urgência e

o lirismo, como se em alta velocidade fosse possível desacelerar o olhar para reparar o que ninguém mais estava vendo. “Acredito, como escritor, que cada história sugestiona o seu modo de contá-la, ‘Eu contra o sol’ exigiu de mim que o escrevesse à flor da poesia até as últimas consequências”, conclui Tomé.

Consequências que funcionaram muito bem para um jovem escritor que está apenas começando. Com o seu primeiro romance, nota-se que Tomé é uma grande promessa para a literatura brasileira contemporânea.

Márwio Câmara é jornalista e pesquisador nas áreas de Literatura e Cinema. Mora no Rio de Janeiro.

Leia um trecho de  “Eu contra o sol”, romance de Alex Tomé

Prometi a mim mesmo, há alguns anos, que não trabalharia nunca na iniciativa privada. Não nasci para vender nada, nem para explorar ninguém. Por isso decidi trabalhar na vi­da pública. Transformar vidas, sem ne­cessariamente aparecer. Trabalhar nos bastidores.
Joaquim o interrompeu: “Na po­lí­tica sempre que um jovem diz prefiro os bastidores tenha a certeza que vo­cê está diante de um grande canalha”.
Benício não prestou atenção e continuou: “Política é como um rio. O que é pra ser levado vai junto, do contrário, fica na margem mais conveniente”. Depois provocou: “Hoje é bodas de prata dos meus pais. O que sugere que eu dê de presente para o seu amigo?”. Joaquim estava isolado politicamente. Precisava de apoio na Câmara. O que poderia fazer para que o jovem entendesse isso? Estava com os cotovelos apoiados na mesa de madeira que descascava e lá fora o tempo mudara loucamente.

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