Soldado Desconhecido, de Garth Ennis, critica o patriotismo de quem avalia que os fins justificam os meios

HQ acompanha agente do FBI William Clyde, que se vê em uma investigação ultrassecreta sobre um “fantasma” que tem atuado desde a Segunda Guerra Mundial

Francisco Costa

O roteirista Garth Ennis (autor de Preacher) se juntou ao desenhista Killiam Plunkett na HQ “Soldado Desconhecido”. A história gira em torno desse personagem misterioso, mas apenas por fragmentos. Na prática, o leitor acompanha o agente Clyde, do FBI, ex-boina verde, ferido no golfo, um verdadeiro escoteiro.

Quando um nome desconhecido surge em uma lista em que trabalhava, Joshua Markewicz, ele decide investigar. O residente de uma casa de repouso teve um encontro com o soldado que dá nome ao título da HQ no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Ao relatar suas memórias a Clyde, Joshua descreveu o soldado como um patriota lunático e selvagem. O encontro gerou mais dúvidas que respostas e novos nomes surgiriam, misteriosamente, na lista do agente.

Queima de arquivo

Joshua disse ao agente que outro já o havia procurado no passado, o que gerou mais curiosidade no homem do FBI. Essa foi a única e última participação de idoso na história. Ele foi o primeiro, que tinha alguma lembrança do soldado desconhecido, a ser “apagado”.

Clyde talvez deixasse essa investigação de lado, não fosse o assassinato acidental de uma colega de trabalho. Uma assassina profissional deveria dar um susto no investigado, mas a agente Wallace, que visitava o amigo, entrou na linha de tiro, por acaso.

Esse foi o gatilho para Clyde entrar de cabeça na história do soldado desconhecido e todos os segredos que o envolvem. De fato, qualquer menção a ele era tida como segurança nacional e motivo para “queimar” qualquer um ligado a ele e, mais tarde, quem insistisse em investigar.

Relatos

Todos os nomes que surgiram na lista de Clyde foram mortos. Alguns, antes de ele investigar.

Porém, todos os que ele encontrou antes de morrerem relataram algo semelhante do perfil do soldado: um homem com habilidades quase sobre-humanas, ultranacionalista e extremamente cruel. Alguém que, pelos Estados Unidos, dizimaria uma vila repleta de crianças. Alguém que acha que seu país é sempre o certo e que faz tudo certo. O maior dos patriotas.

“Tudo que fazemos é sempre certo”, diz o soldado após fuzilar friamente um pelotão de prisioneiros nazistas, que já não apresentavam nenhum perigo. O personagem, inclusive, interferiu em alguns momentos da geopolítica, mas isso vou deixar para quem quiser ler.

Conclusão

A investigação passa por algumas reviravoltas e alianças improváveis são formadas. O final tem um pouco de previsibilidade e o destino dos personagens, aparentemente, não poderia ter sido outro.

Garth Ennis: roteirista de “O Soldado Desconhecido” | Foto: Reprodução

Garth Ennis é violento e aqui não seria diferente. Ele não poupa vidas e faz questão de mostrar como isso acontece.

O escritor é um dos astros do quadrinho mundial, apesar de não ser dos meus preferidos — geralmente não gosto de suas conclusões, mas aqui eu saí relativamente satisfeito. Porque ele aborda bem os limites do dever, moralidade e um patriotismo doente, cujos os fins justificam os meios. Não custa lembrar o dito do escritor Samuel Johnson sobre o patriotismo: “O último refúgio dos velhacos”.

Plunkett tem um traço competente, especialmente por se tratar de uma obra voltada para o público adulto, do selo Vertigo, da DC Comics. Pode-se dizer que existem algumas “belas” violências gráficas, no álbum.

Detalhes

“Ele fazia o trabalho sujo nas linhas de frente da Segunda Guerra Mundial — um agente infiltrado sem nome e sem rosto conhecido apenas como Soldado Desconhecido. Então, quando a guerra acabou, ele desapareceu sem deixar rastro. Quarenta anos depois, o agente rebelde da CIA William Clyde embarca em uma busca ao redor do mundo para localizar o lendário operativo. Andando por um campo minado de burocracias, agentes privados e jogo sujo, Clyde revela uma trilha de corrupção, assassinatos e mentiras que pode levá-lo ao elusivo oponente — apenas para descobrir que é apenas um peão em um complexo jogo de intrigas”, revela a sinopse.

A obra foi lançada no Brasil em 2018, pela Panini. São 112 páginas, no formato 17 x 26 cm. “Soldado Desconhecido” é uma boa pedida, uma história curta, mas com uma conclusão para quem quer apenas uma leitura de um dia. Com certeza, vale a pena.

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