Semana de Arte Moderna (12): A semana invisível, de Ademir Luiz

A Semana de Arte Moderna de 1922, evento invisível aos olhos, mas onipresente na vontade, foi o primeiro evento pós-moderno não registrado

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

A semana invisível

Ademir Luiz

Um aspecto pouco conhecido da famosa Semana de Arte Moderna de 1922 é o fato de que, na verdade, o evento não aconteceu. Não que esse equívoco histórico tenha sido orquestrado por uma conspiração deliberada, resultou apenas de uma proposta jogada ao ar que saiu do controle. Começou com um dos Andrade, nunca ficou claro qual deles, comentando em uma mesa de bar sobre a efervescência cultural modernista na Europa. Os festivais, as exposições, os recitais, os saraus de poesia, os manifestos. Entusiasmada, Anita sugeriu que eles fizessem o mesmo, ou algo parecido, que dessem uma abrasileirada no negócio. Heitor assobiou uma melodia caipira, batucou um ritmo tribal na mesa, e gritou que era uma grande ideia. Di, que estava desenhando no tampo da mesa, escondido do garçom, levou um susto com o berro. Recuperado, sem entender direito sobre o que falavam, concordou. Todos concordaram e brindaram comemorando o marco artístico que estavam criando. Muitas rodadas depois, o grupo de artistas se dispersou na madrugada.

No dia seguinte, ressaqueados, todos se esqueceram que tinham combinado data, hora e lugar para o grande evento. Todos, menos os garçons que ouviram as combinações, enquanto supriam copos. Foram os responsáveis por comentar a novidade com os frequentadores do bar, sobretudo jornalistas, que reverberaram na imprensa a nova do meio artístico paulista, brasileiro. Dos jornais, a Semana de Arte Moderna caiu na boca do povo, chegando nas orelhas dos artistas que seriam os protagonistas no evento. Lembravam-se vagamente de terem comentado algo assim e assado. Como se fosse combinado, individualmente, decidiram dar o dito pelo não dito. O equívoco acabaria por si mesmo, pensaram.

Mas aconteceu o contrário. Muitos outros artistas, ofendidos por não terem sido convidados, começaram a se convidar para o evento, engrossando as fileiras modernistas nacionais. Quem poderia negar que não estavam lá? Quem poderia negar que a Semana de Arte Moderna de 1922 não aconteceu?

A Semana ganhou vida própria. Nos dias combinados, mesmo com as portas do Teatro fechadas, surgiam histórias e mais histórias do que teria acontecido em suas dependências. Não estar presente passou a ser considerado sinal de caipirice. A onda era estar na plateia ou no palco, vaiando ou aplaudindo. Todos estavam, pelo menos um dia da Semana. Coincidência não terem esbarrado em nenhum conhecido. Era muita gente, afinal.

A Semana ganhou amigos e inimigos no debate público. Ninguém viu nada, mas comentando por ouvir falar, sobravam certezas.

O evento tomou tal proporção que os poucos que tentavam argumentar que nada estava acontecendo eram ignorados ou chamados de loucos e inimigos da cultura. Meros sapos coachando. Mesmo os poucos artistas “participantes” que ensaiaram negar tudo foram considerados grandes ficcionistas por estarem divulgando enredo tão inusitado. A Semana se empunha como real, não havia como deter o monstro modernista.

Quando a Semana finalmente acabou, a História começou. Fora do tempo presente, e da possibilidade de verificação empírica, virou verdade oficial. As provas de que o dito acontecido realmente aconteceu nunca foram além do desprezível. Mas tal pobreza documental passou, durante décadas, por mera curiosidade científica, sendo considerada apenas descuido de registro. Acontece nos melhores arquivos. Quem poderia duvidar de tantos testemunhos?

Apenas recentemente alguns historiadores começaram a produzir tímidos artigos sobre as inconsistências da narrativa. Ainda é um tabu acadêmico.

O que se concluiu preliminarmente nestas pesquisas revisionistas é que a Semana de Arte Moderna de 1922, evento invisível aos olhos, mas onipresente na vontade, foi o primeiro evento pós-moderno não registrado.

Uma resposta para “Semana de Arte Moderna (12): A semana invisível, de Ademir Luiz”

  1. Avatar Talissa disse:

    👏👏👏👏👏👏

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