“Scarlett”, a sequência do romance que inspirou o filme clássico “E o vento levou”

Protagonista é uma mulher do Sul dos EUA na época pós-Guerra da Secessão, que busca suas raízes irlandesas e luta para reconquistar o amor do marido

Mariza Santana

O filme “E o Vento Levou” é um dos clássicos do cinema mundial. Lançado em 1939, a narrativa em película do gênero romance histórico tem nos papéis principais os atores Vivian Leigh, como Scarlett O’Hara, e Clark Gable, como Rhett Butler. Conta a história de uma moça rica e mimada, que morava em uma fazenda de algodão no Sul dos Estados Unidos. Ela tem a vida virada pelo avesso devido à Guerra de Secessão, que opôs o Norte (de Abraham Lincoln) ao Sul dos confederados, a guerra civil norte-americana ocorrida na década de 1860, no século 19.

O final é antológico e ficou na memória coletiva dos cinéfilos. Abandonada por Rhett, Scarlett declara: “Tenho Tara” — se referindo à propriedade rural da família, que ficou devastada pela Guerra Civil norte-americana. O filme foi baseado no romance homônimo da escritora Margaret Mitchell, que morreu em 1949. Aliás, este foi o único livro da escritora e também se tornou um sucesso literário retumbante, que foi o mesmo destino do filme.

Diante dos questionamentos atuais a respeito dos monumentos e obras relacionadas à escravidão, o filme “E o Vento Levou” foi recentemente retirado do catálogo da Netflix. Lamentei o fato, porque tive vontade de assistir novamente à película, após começar a ler “Scarlett”, o romance continuação escrito por Alexandra Ripley, outra escritora norte-americana, lançado no início da década de 1990.

A romancista se lançou ao desafio de continuar a saga de Scarlett O’Hara, o que foi uma tarefa monumental, mas creio que ela conseguiu se sair bem, embora tenha recebido muitas críticas na ocasião. A protagonista mantém o mesmo temperamento impulsivo que era a principal característica da mocinha sulista do romance e do filme clássicos.

Na continuação da história, Scarleatt tem dois filhos de casamentos anteriores dos quais enviuvou, e é esposa do charmoso Rhett Buttler que, porém, a abandona. Ela luta para reconquistar o amor do marido em cenários como Atlanta e Savanah, na Geórgia, e Charleston, na Carolina do Sul, mas antagonistas e desencontros não tornam o propósito fácil de ser cumprido. De ascendência francesa por parte da mãe, e irlandesa por parte do pai, Scarlett segue também em busca de suas raízes.

Ao conhecer uma parte dos primos O’Hara em Savanah, e mais uma vez abandonada por Rhett, ela segue para a Irlanda, onde se torna uma grande proprietária rural, e passa a ser conhecida como “A O’Hara”. Suas aventuras em terras irlandesas são um romance à parte, com intrigas políticas, conquistas amorosas e incursões na alta sociedade de Dublin.

Entretanto, apesar dos anos passados, ela nunca esquece seu grande amor, embora tenha perdido a esperança de reconquistá-lo. Dessa vez, o romance de Scarlet e Rhett tem um desfecho. E melhor ainda, agrada principalmente as leitoras. O único porém da narrativa é que Tara, a fazenda da família na Geórgia, não cumpre mais um papel tão importante para a protagonista como foi indicado no final do romance “E o Vento Levou”.

O fato de um outro escritor escrever a continuação de histórias consagradas de autores falecidos não é tão incomum assim. Em 2015 foi lançado o livro “A Garota na Teia de Aranha”, de David Lagercrantz, a continuação da trilogia “Milennium”, sucesso de crítica e de público. Os livros foram publicados após a morte de seu autor, o jornalista escritor sueco Stieg Larsson, em 2004. A trilogia também foi adaptada para o cinema. Mas quando li o livro-continuação da saga da jovem Lisbeth Salander, encontrei uma protagonista diferente dos livros anteriores.

Creio que, quando se tem um personagem já consolidado no imaginário do leitor, o escritor que dará sequência à sua saga não pode mudar muito a essência dele. Isso porque o citado personagem já criou vida própria, pelo menos para os fãs da obra literária.

Mariza Santana é crítica literária. E-mail: [email protected]

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