Romance de Raquel de Oliveira narra a vida da mulher que se tornou rainha do tráfico na Rocinha

A narrativa é eletrizante, não dá para desgrudar os olhos das páginas do livro, à espera do desfecho. Um retrato nu e cru da realidade das comunidades cariocas

Mariza Santana

Especial para o Jornal Opção

Nitroglicerina pura. Se um romance pudesse ser descrito apenas com uma palavra, seria esta a mais adequada para o romance “A Número Um”, da escritora carioca Raquel de Oliveira. Em primeira pessoa, ela narra sua vida, de criança vendida para um bicheiro, aos 9 anos de idade, a mulher do chefe do tráfico de drogas Pará, na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. E depois da morte do marido bandido, sua sucessora no negócio ilícito. Uma rotina de crimes, violência e tóxicos, mas também de amor e arrebatamento.

Mulher-bandida não é muito comum, o que costumamos encontrar é mulher de bandido. Porém, a protagonista não tem pudor em dizer que nasceu com talento para o crime. Ela se envolveu desde menina com gangues e criminosos. Andava armada e portava até uma granada pronta para ser deflagrada. Não admitia a hipótese de ser presa, preferia a morte. “Ele sabia de minha devoção por armas. Sempre soube que nunca aguentaria uma cadeia (…) Aquela pistola me acompanhou por um bom tempo.”

A narrativa de Raquel de Oliveira é assim mesmo: despudoradamente cruel, tanto nos momentos em que relata a luta pelo controle das bocas de fumo da favela, quanto nos casos de morte que testemunhava cotidianamente nos pontos mais violentos da Rocinha. Ela descreve a forte atração sexual que sentia pela sua alma gêmea do mundo do crime: Pará (oriundo do codinome Paraíba; ele era migrante nordestino), ou Neyvaldo, nome de batismo do amado, que poucos conheciam na favela.

Seu testemunho do submundo da Rocinha é forte, sem maquiagem ou retoques, e muitas vezes impacta o leitor. “Odeio jornalistas! Testemunharam tudo e colocaram lenha na fogueira”. Esse é seu desabafo, ao atribuir o trágico fim do seu marido à vaidade dele, que o levou a se tornar manchete nos meios de comunicação, chamando assim a atenção das autoridades do Rio de Janeiro. O amado que tinha como companhia um inseparável fuzil israelense HK e era temido por todos que o rodeavam.

Um ponto importante é o relato do momento em que o jogo do bicho e o tráfico de drogas se dissociaram em negócios distintos. “Todos sabiam que o tráfico de drogas era e seria muito mais pesado que o jogo do bicho, que nunca passou de contravenção no Código Penal. Afinal, o começo de tudo começou com o movimento do jogo do bicho na favela, e a transição foi muito difícil. Muitos morreram”, escreve Raquel de Oliveira. Ela conta que foi afilhada de bicheiro, criada no movimento do jogo do bicho, “dentro do barracão”. Mas evoluiu para o tráfico de drogas, empreendimento muito mais arriscado.

Raquel de Oliveira: escritora | Foto: Reprodução

Juntos, ela e Pará formaram uma dupla de respeito, eram o rei e a rainha do tráfico da Rocinha. Ambos, extraordinariamente ciumentos, mantinham um relacionamento amoroso explosivo, a tal nitroglicerina pura (substância utilizada na fabricação da dinamite) a qual me refiro no início desse texto. “Éramos iguais, viemos do mesmo meio”, conta.

A protagonista de “A Número Um” não se identifica por um nome, mas nem precisa, pois é uma personagem marcante. Tinha também um temperamento explosivo, era especialista nas artes de “olear” as armas e na contabilidade do negócio ilegal, a companheira ideal de um criminoso de alta patente e depois sua sucessora. Uma verdadeira anti-heroína que vai guiando-nos pelas tortuosas e perigosas ruas da favela.

A narrativa é eletrizante, não dá para desgrudar os olhos das páginas do livro, à espera do desfecho. Um retrato nu e cru da realidade das comunidades cariocas, onde o crime ainda é o senhor da vida e da morte da maioria dos moradores.

Mariza Santana, jornalista e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

 Trecho do livro “A Número Um”

“No dia primeiro de junho de 1988, às quatro horas da manhã, uma operação policial chamada Operação Mosaico, ocupou a favela. O COE (Comando de Operações Especiais da PMRJ), junto a policiais federais, militares e exército, invadiu a Rua Dois e acabou com o poder do tráfico de drogas na Rocinha.”

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