Quando o diabo se torna seu melhor amigo

HQ de Tiago Holsi mostra situações de convivência entre senhorinha do 665 e seu vizinho; obra fala sobre preconceitos

665: A vizinha da besta | Imagem: Divulgação

665: A vizinha da besta é um livro ilustrado, misturado com quadrinhos, que conta a história da Dona Graça que, junto de seu cachorro Golias, mora ao lado do Diabo (o inquilino do 666), no Edifício Babilônia. O material foi financiado pelo site de apoios coletivos, Catarse, e lançado em 2016 pela Céleblo Comics, microeditora de Tiago Holsi, quadrinista autor da obra.

O título tem 80 páginas, tamanho 15x15cm, encadernação brochura, capa com orelha em papel duo design e miolo em papel sulfite 180g. A ilustração traz cores vivas e uma arte que parece pronta para virar animação.

De fato, o trabalho de Holsi, mesmo para quem não é leitor assíduo de quadrinhos, pode não ser novo. Isso, porque o goiano de Silvânia fez ilustrações por anos para o sistema S.

História

Dona Graça é a síndica do prédio Babilônia. Ela não enxerga muito bem, apesar do óculos, e a história começa quando se muda para o edifício um sujeito de pernas cabeludas e de um bronzeado muito vermelho.

Desde que o inquilino do 666 se mudou, o local passa a ser um pouco mais barulhento. Dona Graça e seu chihuahua, inicialmente desconfiados, aos poucos vão se aproximando do estranho morador, que se envolve com “criaturas de pouca vergonha”, é “porcalhão”, usa o elevador social para levar “trabalho” para casa, cozinha uma “gororoba medonha”, é “folgado” na academia do edifício, é o “pai do rock” e mais.

A trama de convivência se transforma em uma história de amizade. Os dois se tornam inseparáveis. Jogam junto, vão a shows juntos e vão até a Comic Con. Dona Graça, inclusive, ajuda o vizinho a organizar a única festa em que o amigo diz poder ser ele mesmo: o Halloween.

O vizinho “bronzeado” de Dona Graça chega com a mudança | Imagem: Divulgação

Reviravolta

Nem só de alegrias uma amizade é construída. Algumas surpresas acontecem e tudo muda. Mas isso é só para quem for ler, claro.

A história, segundo o próprio Tiago Holsi, fala de preconceitos. “Esta é uma história sobre preconceito e de como um sujeito que tem a pior das famas ganha a improvável amizade de uma irrefutável e metódica viúva. Se você está lendo este texto agora, você é uma das pessoas especiais neste mundo que não tem uma barreira de preconceito que te impediu de chegar ao fim deste livro”.

Tiago aparentemente realmente quis desafiar as mentes conservadoras a dar uma chance a esta história. O livro é praticamente livre a todos, tem censura de 10 anos, então só não lê quem realmente tem uma forte resistência religiosa ao termo “Diabo” ou ao número “666”.

Mas é claro que é, também, uma metáfora. As aparências enganam. Quão pequena é uma pessoa que se orienta por uma aparência na hora de julgar o outro. E podemos estender isso, também, à etnia, orientação sexual, raça, credo… O preconceito está errado e um quadrinho, aparentemente, de criança deixa isso claro.

Autor

Tiago Holsi, autor de 665, Entardecer dos Mortos e Floresta Morta | Foto: Divulgação

Tiago Holsi é um dos muitos guerreiros do quadrinho independente brasileiro. Goiano de Silvânia, morou por um longo período em Goiânia e hoje retornou a sua terra natal, onde ainda produz.

Formado em design gráfico em 2007, o ilustrador e quadrinista lançou as HQs Entardecer dos Mortos (2015), 665: A vizinha da besta (2016) e Floresta Morta (2017). As duas não mencionadas nesta coluna são histórias de mortos-vivos, mas com pegada infantojuvenil – ambos financiados, também, pelo Catarse.

Ele também diagramou e coloriu a obra Cidade de Sangue, de Márcio Júnior e Júlio Shimamoto, em 2018. Também no ano passado, Holsi produziu um novo livro infantil (sem mesclar com quadrinhos, desta vez), mas, infelizmente, esse não foi financiado e não virou papel. Porém, quem quiser, pode conferir AQUI

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