“Proibidão” para maiores de direita

Livro “Comunismo para Crianças”, da prestigiada ensaísta alemã Bini Adamczak, chega ao Brasil pela Três Estrelas, 14 anos após seu lançamento na Alemanha, causando polêmica e reações iradas contra a editora

Ensaísta e ativista alemã Bini Adamczak: polêmica nunca foi surpresa | Foto: Reprodução

Estamos, sem dúvida, passando por tempos temerosamente estranhos. Tempos de extrema polarização político-ideológica que desperta o ódio em seu mais exacerbado grau. E em um momento delicado como este, um lançamento que chegou recentemente às livrarias brasileiras seria um candidato perfeito para adentrar numa versão repaginada do Index Librorum Prohibitorum – o ressurgimento do polêmico códex da Igreja Católica não seria algo inimaginável, se até mesmo sandices como “terraplanismo” vêm ganhando espaço e reaparecimento de ameaças como o sarampo nos colocam novamente às voltas com fantasmas parecem ressurgir dos períodos mais obscuros da humanidade.

Trata-se do livro “Comunismo para Crianças”, da prestigiada ensaísta alemã Bini Adamczak. Escrito em 2004, só agora em 2018 o livro ganha, através da editora Três Estrelas, sua versão para o português, que mal chegou e já vem ‘causando pacas’. E o motivo fica evidente logo de cara.  O título promove a mistura com mais alto grau de periculosidade desde o leite com manga e mães e chinelos virados, ao juntar em uma linha só dois ingredientes absolutamente inconciliáveis: “comunismo” e “crianças”.

Muitos até encaram os adeptos do primeiro predadores naturais do segundo. E não deu outra: a estreia do livro em terras tupiniquins provocou reações iradas, a ponto de a editora ser alvo de ameaças e xingamentos. “Que coisa mais horrível!!!!! Deixem as crianças em paz!!!!!! […] O comunismo mata e escraviza!!!!!! Pensem no futuro dos seus filhos amanhã!!!! Desistam.” Outra pergunta foi “quando sai o ‘Mein Kampf’ [livro de memórias de Hitler] para crianças, seus nojentos?”. Algumas pessoas falaram em boicote à publicação ou em “entrar com um processo para barrar o lançamento”.

Assumidamente feminista e ativista da esquerda, Bini já revela nas primeiras linhas de “Comunismo para Crianças” sua simpatia ao regime. “Comunista é a sociedade que elimina todos os males que hoje afligem os seres humanos em uma sociedade capitalista”, afirma.  Poucas linhas depois, afirma que “embora o comunismo seja um ótimo remédio, ele não serve para tudo, apenas para os males do capitalismo”, atribuindo ao sistema a ideia de que ele é um verdadeiro mal que corrói o mundo. A partir destes pressupostos, Bini explica conceitos fulcrais para o tema, seguindo uma estruturação de capítulos bem didática: “o que é comunismo?”, “o que é capitalismo?”, “o que é mercado?”, “trabalho” e assim por diante. O detalhe interessante é que na “fábula” da autora, os personagens que surgem nos exemplos são todos mulheres: camponesas, princesas, comerciantes, navegadoras, trabalhadores – explicitando sua postura feminista.

Personagens da fábula são todas femininas, de camponesas a princesas | Foto: Reprodução/Três Estrelas

Ou seja, apesar do que título do livro sugere em português e em inglês – pois no original em alemão, de 2004, o título é “Comunismo: uma pequena história de como tudo finalmente será diferente” -, tudo não passa de um mal-entendido. Ou melhor, uma pegadinha retórica da escritora misturada a doses nada homeopáticas de ironia. Assim como acontece com muitos filmes de animação que, em um primeiro olhar, parecem ser dedicados exclusivamente aos olhares do público infantil, graças a seus personagens engraçadinhos e coloridos, mas que, no fundo, possuem uma mensagem que só é realmente assimilada pelos grandinhos. Ou seja, “Comunismo para Crianças” está longe de ser um livro para crianças, mas, vejam vocês: pode até ser lidos por elas! Claro, sob pena de severa punição e condenação ao inferno (uma ironia, mas que pode ser levada ao pé da letra por alguns).

A impressão que fica é de que Bini, ao usar a linguagem infantil, trata seus leitores como “alunos do Prézinho”, principalmente aqueles contrários ao comunismo, numa dose de sarcasmo e até mesmo um pouquiiiinho de desdém. É quase como se ela quisesse dizer: “entendeu ou quer que desenhe?”. E por sinal, ela desenha sim! O texto é ilustrado por imagens de sua autoria, com pegada bastante lúdica, garantindo ainda mais leveza e fluidez à leitura, transportando o leitor de volta aos tempos em que se pedia à professora os livros que tinham “figurinhas”.

Com essa proposta bem didática, a autora apresenta esse contraponto para tentar esclarecer aos que se ainda confundem em meio aos “ismos”. No entanto, Bini não se deixa levar por suas concepções pessoais e não se furta, no livro, de frisar o fracasso de tentativas históricas de aplicar o comunismo e problemas de regimes de governo fundados nessa doutrina, motivados por autoritarismo estatal e aspectos econômicos. No ensaio que finaliza a obra, ela apresenta teorias marxistas e justifica a metodologia empregada no livro. Encerra retomando a analogia do comunismo como sendo o “remédio” para os males do capitalismo e que o comunismo é uma utopia que precisa continuar sendo desenvolvida para se tornar realidade um dia.

Personagens da fábula são todas femininas, de camponesas a princesas | Foto: Reprodução/Três Estrelas

Em entrevistas concedidas anteriormente, a alemã revelou que a polêmica gerada por “Comunismo para Crianças” nos Estados Unidos nunca lhe foi uma surpresa. No entanto, a onda de críticas de sites e jornais conservadores do país superou todas as expectativas. Jornais conservadores como The American Conservative e The National Review repudiaram o texto, que, segundo seus críticos, ignora atrocidades cometidas por regimes comunistas. O blog Economic Policy Journal, por exemplo, descreveu o trabalho como “o livro mais perigoso sobre economia escrito para crianças”. O site ultraconservador Breitbart News, que teve no comando o atual estrategista-chefe do governo Donald Trump, Stephen Bannon, partiu para o ataque à autora, questionando seu preparo para escrever sobre o tema, por ela nunca ter vivido em um país comunista.

Mesmo com tanta artilharia contrária, o lado “mercantil” da obra saiu ileso: o livro alcançou um bom número de vendas e chegou a estar entre os mais vendidos na Amazon americana em sua estreia. Em entrevista à emissora BBC, Bini Adamczak explicou qual foi a principal razão para adotar uma linguagem que descambou em tamanha polêmica. “Queria romper com o linguajar rebuscado que muitas vezes afasta os leitores. Ao escrever o livro, percebi que a linguagem acadêmica eliminava toda afetividade. Por isso, tive a ideia de escrevê-lo em linguagem infantil, que todo mundo entende”, justifica-se.

No entanto, como ela diz no subtítulo da obra, toda a celeuma não passa de uma tempestade em copo d’água, pois assim como a grande maioria das publicações execradas pelo Santo Ofício de mentes inflexíveis, trata-se de apenas mais “um livro para todas as pessoas que desejam um mundo melhor”. Independentemente da idade.

Foto: Reprodução/Três Estrelas

Serviço
Título: “Comunismo para Crianças – Um livro para todas as pessoas que desejam um mundo melhor”
Autora: Bini Adamczak
Editora: Três Estrelas
Valor: R$25,90

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