Primavera

Nas próximas semanas, o Jornal Opção publicará a série literária “Quatro estações”. Trata-se de quatro contos em que dois autores escrevem, a quatro mãos, uma breve narrativa inspirada em uma estação do ano. E, para abrir a série, eis que chega aos leitores “Primavera”, obra de criação das escritoras Luisa Geisler e Débora Ferraz. Na próxima semana, se achegará “Verão”, de Anderson Fonseca e Mariel Reis

PrimaveraOK

I. Sobre ele

Eu só queria devolver as porcarias dele. Devolver, sabe: colocar numa caixa todos, cada um, dos livros que ele me obrigou a tomar emprestado, a meia garrafa de tequila… O casaco, o isqueiro. Porcaria. Tudo porcaria. Porque nem tinha nada que fosse de valor de verdade. “Vou pegar as minhas coisas”— Você acredita que ele disse desse jeito?— “Pegar as minhas coisas”— com essa pompa? Como se, em vez de uma caixa com livros, com pendrive…, eu tivesse que lhe devolver candelabros de ouro. Não estou querendo justificar. Mas, droga, deu foi um trabalho danado ir catando coisinha por coisinha. Você tá lá e esquece, sei lá, simplesmente esquece, de um dvd, ou a camisa que ficou no cesto de roupa suja. Olha aí: agora mesmo lembrei da caneca. O diabo da caneca que ele levou no dia da festa… Não estava. Não botei na caixa. Entende o quero dizer? Entende como é idiota?

Não, Caju. Estou te dizendo: eu só queria devolver. Porque foi isso. Foi idiota assim. Eu dizendo, concordando com ele, meio entalada, meio… Sei lá. Concor­dei. Disse: Certo. Melhor acabar. Dizendo e pensando: Será que vai doer muito? Sabe como é? Quando tu bate com o dedinho na quina e dói pra caramba, mas você só consegue pensar, se preocupar por antecipação, com tudo o que aquilo ainda pode doer nos próximos dias? Se vai ficar roxo, inchar, piorar. Acontece. Às vezes tu bate com o dedinho, assim, e precisa ir no ortopedista. Então eu digo: Certo. Melhor acabar. Concor­do. E, enquanto estou lá averiguando a gravidade do baque, ele diz: “E minhas coisas?” Is­so ele não conta. Não. Eu que tenho que ser a vaca-sem-consideração aqui. E ele, o grande virtuoso filho da mãe, preocupado com uma meia dúzia de objetos baratos. Mas de que “coisas” você está falando?

É que era pra ser uma pergunta retórica. O tipo de coisa que se diz quando quer fazer alguém notar que está sendo ridículo. Por exemplo: se alguém chega se queixando, dizendo: “Cara, não tá fácil. Tô estudando e trabalhando, e tem as provas…” Aí você diz: “Sim, mas e aí? Seria, por acaso, melhor sem o emprego?”. Não, né? É óbvio que não. Ou quando eu mesma chegava e te dizia: “Ah, Caju, tá complicado, o Beto, ele, sei lá, some, às vezes”. E alguém me diz: “Sim, mas e aí? Seria, por acaso, melhor acabar?” Então, eu disse isso. Assim. Desse jeito. Ele falando besteira, que eu mentia, que isso, que aquilo… Eu falei: “Seria, por acaso, melhor acabar?” Era pra ser uma pergunta retórica. Mas ele não entendeu. Não entendeu. Falou: “É. Acho que é melhor acabar”.

Tentei. Eu quis argumentar. Dizer que, numa lógica mais ou menos razoável, não se devia jogar pro alto um ano inteiro por conta de uma primavera. Mas, droga, aí ele ofendeu. “Primavera por primavera, nem as cadelas do pet shop são tão regulares pra acertar a melhor estação pra acasalar”. Não precisava. Taria tudo bem se ele não ficasse sabendo e, além do mais, já faz tempo. Mas, esse é problema: O Marcos não pode, não consegue, ser discreto. Ficou meio na cara. E vocês tem essa coisa de orgulho macho… Enfim. Taria tudo bem não fosse isso. Mas eu disse: “Ah, dane-se”. Vou deixar as coisas dele com o porteiro.

E fui lá fazendo a caixa. Os livros, a garrafa de bebida. Uma coisa foi levando a outra… O perfume, era um dos livros. Coloquei o pendrive, também, lá dentro, os óculos de sol, que ele dizia ser de grande ajuda na alergia ao pólen. Sabe, eu gostava disso nele. De ele ser alérgico. Lembrei de uma das primeiras conversas: a que levou ao livro. Que não podia usar perfume, que ficava espirrando e tudo. Mas tinha esse livro muito bom sobre o assunto… As coisas se conectam tão bem. Eu lembrei o tanto que ele espirrava e pensei “filho-da-mãe”. Fui botando mais coisas: o casaco que me emprestou naquele dia da festa do João. Filhíssimo-da-mãe. Peguei o ônibus com aquilo.

E aí pensei “mas como eu vou fazer, agora? Eu podia voltar pro Marcos, ainda. Dizer: Marcos, eu e o Beto acabamos… E deixar o resto acontecer. Mas não. Não. Então, eu já estava no ali no ônibus, a caixa com as coisas no meu colo… Veio a ideia. Eu desci. Parei na frente da casa dele. Joguei a tequila sobre os livros, sobre o resto, e usei o isqueiro, um Zippo com motivos do Led Zeppelin, para atear fogo. Não estava preparada pra ver a coisa incendiar de verdade. Era mais uma brincadeira. Mas pegou. Me assustou.
Eu só queria devolver as porcarias dele.

II. Sobre ela
Você se lembra de quando começaram a te chamar de Caju? Sua irmã tinha uns 4 anos e tinha uma personagem da novela que chamava Caju. E ela começou a te chamar de Cajucajucaju pra qualquer coisa. Faz uns dez anos, né? O quê? Não, foi depois.

Dez anos é tempo.

Lembra que tua irmã tinha blog e dizia a idade com estações do ano? “Treze primaveras”. Caju, o nosso amor durou dez verões.

Oi?

Não falei, não. Ela tá me devendo meu —

Aí seriam duas primaveras.

Não ri, escroto.

Quando a conheci, ela parecia tipo aqueles cachorros que acham que vão passear, só que era no veterinário. Ela tava arrumada como o cachorro que tinha se empolgado, coisa e tal. Mas quando chegou naquela festa, ela era o cachorro que percebeu que tava no veterinário. Ela se acuou num canto, quieta, uma guria esquisita gótica do lado. Tinha uma cerveja na mão por tanto tempo que tinha esquentado.

Isso, você tava conversando com o pessoal das Engenharias, Henrique, Gabriel. Isso.
Eu ofereci uma cerveja pra ela e ela não quis. Eu disse que a dela tinha esquentado, ela disse que eu não sabia disso.

Não, claro que não. Não quero dizer que eu era o veterinário.

Que ideia.

Fiquei um tempo circulando com vocês, fui fumar um beque, conferir uns negócios. Quando voltei com uma cerveja gelada, ela tomou. Não disse nada, só tomou a cerveja. E riu de uma piada que eu fiz. Algo sobre ela poder se especializar em plantas arqueológicas e eu em algo tipo dinossauros e a gente poderia ser aquele casal do Jurassic Park.

Sim, eu sei.

Mas cara —

Não, tudo bem.

Supondo que desse.

Me escuta, droga.

Sim, sim, a gente ficou. É isso que importa. E começou a namorar, eu não lembro quando foi. Não, eu não lembro dessa parte.

Ah, é? Olha, você sabe que a Giovana diz muita coisa sobre muita coisa.

Muita coisa sobre muita coisa. Falava que as pessoas tinham xingado ela no ônibus, mas só tinham pedido pra ela sair do lugar preferencial. Ela muda tudo pra ficar do jeito que ela quer que a história fique. Não dava pra passar muito tempo perto dela. Só que, daí, ela reclamava que eu não passava muito tempo perto dela.

Projeção uma ova.

Dá pra parar? Você sabe que ela é assim. Ela quer ser tipo o Peter Parker no começo do filme, pobre garotinha que não fez nada pra ninguém.
Você sabe que ela me traiu, né? Ou ela não contou? Claro que falei com ela! Falei, claro. Tentei terminar. E era sempre um mimimi desgraçado.

É que nem quando você xinga um cachorro com voz fofa. “Seu bostinha”, você fala, e o cachorro quer brincar. A Giovana era assim. Não precisava fazer sentido, era só ela achar que tava tudo bem. A gente ficou mais um tempo junto, mas acho que ela seguiu dando pro cara.

Agora, tá ainda dando pro cara com quem ela me traiu. Dá pra crer?

Claro, um cara que aguenta ela falar por dez segundos. Até eu daria pra esse herói.

Não. O cachorro fica tranquilo pela tua voz, tá? Mas você tá xingando ele. Mas ele não entende. Porque a voz é fofa. A Giovana era assim. Incapaz de ver um palmo além da informação primária.

Cara. Não.

Pro cachorro, seria o tom.

Tinha que parecer tudo bem. Ela não notava que não tava. Nunca.

Olha, se eu fosse você, nem falava mais com ela. O que eu te conto são os fatos. Ela inventou que eu era grosso, que sumia. Se era tão ruim, por que a gente teve que terminar por causa da minha mãe? O que você acha? Ela deve ter dado pra mais vinte.

Deixa o exemplo do cachorro.

Tava confuso. Deixa.

Pelo amor de Deus, você me conhece há dez anos. Em quem você vai acreditar?

DeboraDébora Ferraz é escritora e jornalista. Seu primeiro romance, “Enquanto Deus Não Está Olhando”, foi vencedor da 10ª edição do Prêmio Sesc de Literatura. É autora ainda de um livro de contos, “Os Anjos” (2003), e seu conto “O filhote de Terremoto”, finalista do Prêmio Sesc Machado de Assis, foi adaptado para o curta-metragem “Catástrofe” (2013). Trabalha atualmente em seu segundo romance e conclui o mestrado em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba.

GeislerLuisa Geisler é escritora, duas vezes vencedora do Prêmio SESC de Literatura, duas vezes finalista do Jabuti e considerada pela revista britânica Granta como uma das melhores jovens escritoras brasileiras. Tem textos publicados do Japão à Argentina. Seu último livro é “Luzes de emergência se acenderão automaticamente” (Alfaguara, 2014).

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