Premiado em Cannes, Ken Loach reflete o humano entre sua essência e a automatização

Protagonizado por Dave Johns e Hayley Squires, a obra teve exibição especial em Goiânia pela mostra “O Amor, a Morte e as Paixões” e deve entrar em cartaz no final do mês

A obra segue a característica de Ken Loach, que sempre circunda em seus filmes temas políticos de modo muito singelo e poético | Foto: Divulgação

“Eu quero sair velejando, Dan. Com o vento em minhas costas”
Eu, Daniel Blake

Yago Rodrigues Alvim

Foi numa livraria em Bo­tafogo, na Zona Sul ca­rioca, que uma vistosa encadernação me chamou a atenção. De Valter Hugo Mãe, “A Máquina de Fazer Es­panhóis” trazia em sua nova edição da Biblioteca Azul um prefácio de Caetano Veloso, que dizia da temática do livro, o envelhecer. Não obstante, nas redes sociais são inúmeros os irônicos memes que falam da previdência social, e ainda na tevê reportagens discorrem sobre a nova cara brasileira: somos um país de idosos.

Da diferente pirâmide etária, restam indagações diversas. O cuidado com a saúde já não é o mesmo — talvez até pelo novo-já-antiguíssimo padrão de beleza corporal —, e, assim, a alimentação mudou. No entanto, o popularíssimo life style “live fast/die young”, um carpe diem hardcore, se põe cada vez mais em voga, entre muitos jovens.

Agora imagine você daqui alguns anos, ou mesmo sua mãe ou avó/avô, ou ainda alguém que viu, há um tempo, em seu mais pleno vigor, vivendo o auge vitalício, enfrentando as numerosas dificuldades de adentrar a casa dos 60/70 anos ou mais; são muitos os obstáculos, não?

Assim começa “Eu, Daniel Blake”, obra fílmica que garantiu a Ken Loach a segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes. “Bom dia, sr. Blake. Eu faço as avaliações para o Auxílio Finan­ceiro ao Trabalhador. O sr. consegue andar mais de 50m? Consegue erguer o braço como se fosse colocar algo no bolso da camisa?”, começa uma profissional de saúde contratada pelo governo. E é assim que o enredo do filme se desenrola desde os primeiros minutos do filme.

Vítima de um ataque do coração, Daniel não pode trabalhar. Discordante com os médicos que o ampararam, a profissional é uma das primeiras personagens apresentadas por Loach que demonstram a automatização humana engendrada numa engrenagem burocrática estatal. A situação se desenrola em mais burocracias, como numa ligação via SAC de qualquer operadora telefônica do Brasil.

Bem apresentado, o simpático Daniel se vê, ainda assim, rodeado de boas pessoas — é o que dá esperança a qualquer espectador — que até chegam a ajudá-lo, mas que pouco podem fazer. Ele mesmo se predispõe a ajudar uma mãe solteira, Katie (esta interpretada por Hayley Squires) e suas duas crias que também vivem uma situação de dependência/descaso do governo.

É o ínterim do filme, muito bem problematizado por Loach e Paul Laverty, roteirista do longa, que provoca e questiona os limites do ser humano. Quão automatizados somos? Quão predispostos a ajudar o próximo nos colocamos? Quanto vale nossa dignidade frente à fome, às necessidades maiores de quem mais amamos?

Sem spoilers, o filme caminha singelamente, enleando momentos de tensão e belezas. Um deles é o de um simples jantar, quando ele conta de sua esposa, Molly, a quem teve de ajudar por sôfregos anos de doença. Ela não sobrevive, mas deixa a ele, e Katie mais seus dois filhos (e aos espectadores), ensinamentos ou reflexões, como o da epígrafe desta resenha, que diz do vento nas costas que, vez e outra, precisamos para continuar a navegar.

Sem mirabolantes planos ou uma fotografia mágica, o cru “Eu, Daniel Blake” se faz altamente político, como as demais obras de Loach, já com seus 80 anos — ele, inclusive, disse que sua última obra seria “Jimmy’s Hall”, de 2014 (sorte a nossa). E, muito mais, o filme se faz humano. É assim, com seu grito por humanidade, arranca lágrimas de quem vê (ao menos, de mim tirou).

Com um clímax um tanto previsível, mas que de forma alguma desqualifica a obra, Loach arremata nos decorrentes minutos esse grito: somos humanos, cidadãos e precisamos ser tratados com respeito, com dignidade, afinal, do que é feita a engrenagem senão de seres humanos? Não são máquinas, e tampouco somos cachorros para tanto descaso.

Por fim, vale ressaltar uma das ressalvas feita pela crítica, ela que, ainda que perceba as riquezas da obra, indaga sobre o merecimento da láurea de Cannes. Mas fica só esse highlight no assunto, pois ele existe — vai entender as comissões que avaliam em prêmios como esse.

E fica assim destacado, pois o filme merece ser visto, degustado. Tanto que veio a Goiânia como sessão especial da mostra goiana “O Amor, A Morte e As Paixões”, encabeçada pelo professor Li­sandro Nogueira, em pareceria com o Cinema Lumière, e que recebeu um grande público, de variadas idades.

A edição de 2017 segue a característica da mostra realizada sempre no período carnavalesco e, por isso, muito em breve, a lista dos muitos filmes que a fazem deve ser liberada. Como disse o professor Daniel Christino, representante da Adufg que firmou parceria com a mostra, o cinema enobrece o olhar para com a vida. Como não aproveitá-lo e, então, exercê-lo? l

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