Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

A poeta Sandra Maria deu-se à luz, ao mundo literário, em 2017, quando publicou seu primeiro livro “Folhas Secas Sob Meus Pés” (Cânone Editorial, 188 páginas). Meses depois fiz a crítica literária da obra por meio do artigo “As quatro estações no outono telúrico de Sandra Maria”, publicado no Jornal Opção, no qual escrevo que a autora traduz a “transformação da mulher, da infância à velhice, exaltando a vivacidade do amadurecimento, em que, ao contrário das folhagens outonais, as seivas da vida não se secam”.

Naquele livro, os poemas de Sandra Maria remetem à sua formação de pianista e à música, em que melodia prescinde de pontuação, saltando de um verso para outro sem importar-se com métrica e rima. Estava consolidado um estilo peculiar e perene na literatura poética em Goiás.

Sandra Maria poeta Foto Divulgação500
Sandra Maria: poeta com vasta obra publicada | Foto: Divulgação

Oito livros depois — já que a autora publicou a trilogia “No verso do caso”, volumes 1, 2 e 3, entre 2019 e 2024 —, a goiana de Uberaba (não nos esqueçamos que a vasta planície entre os rios Paranaíba e Grande e todo o Triângulo Mineiro fizeram parte de Goiás até 1816), traz a lume este livro, “Passos e Rastros” (Cânone Editorial, 192 páginas) por sua editora de sempre. Além de dois outros livros infanto-juvenis, a autora escreveu também “Elos” (Cânone, 79 páginas) — um ensaio sobre o livro “Elos da Mesma Corrente”, de sua patrona na Academia Goianiense de Letras, Rosarita Fleury — e “Vírus as Vozes” (Cânone, 127 páginas), escrito a seis mãos com suas filhas Thais e Tainá Pompêo.

O veio libertário, marca de alguns de seus poemas, é notório. Em “Ser sem cor” (um poema que Gilberto Freyre faria) a poeta rememora o calor da negra e o toque macio de seus cabelos crespos

Nos rastros e nos passos de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos e Augusto de Campos, Sandra Maria insiste em evadir-se de pontuações, exceto das interrogações ou exclamações, quando essenciais à ideia que quer expressar. Às vezes também reticências.

Essa opção estilística, consagrada ao longo de seus seis livros de poemas, torna o ritmo mais fluido e contínuo, sem interrupções compulsórias. Também aproxima o poema da oralidade, permitindo diversas interpretações do mesmo verso, além de deslocar à quebra deles a função de organizar a leitura.

Neste livro, Sandra Maria apresenta-se ora onírica, ora libertária. Às vezes telúrica, antes de mostrar-se cosmopolita. Noutros momentos, introspectiva, ou mesmo efusiva; comparece reflexiva e existencialista, ou entregue a paixões, ímpetos e sentimentos enamorados.

Sandra Maria poeta capa do livro Passos e Rastros Foto Divulgação500

A introdução do livro é uma declaração de amor ao leitor, onde os barcos das palavras navegam mares das páginas em branco, aos poucos preenchidas.

Este poemário foi dedicado ao seu pai (in memoriam), o escritor e professor Jerônimo Geraldo de Queiroz, reitor da Universidade Federal de Goiás na década de 1960, que “partiu sem nenhum alerta”, deixando “tudo para trás/ junto com sua lembrança/ na valise”.

O onirismo de Sandra Maria se manifesta no poema de abertura (“Mensageira da poesia”) na qual faz uma analogia entre a galinha que se jacta por botar um ovo e o poema terminado pela poeta (“boto o poema/ sobre a mesa/ indiferente e dura”), mas passa por “Páginas que voam”, onde um passarinho lhe faz um convite: “Vamos voar/ nas grimpas da copas/ do verde?”; ou por “Penas”, em que jura ao Bem-te-vi: “Eu não vi! Eu não vi!”.

Pauta libertária da poeta inclui temas ecológicos e a defesa dos Povos Originários — além do libelo feminista “Mulher! Sororidade é preciso, agora!”: “Mulher!/ Eis aqui a mão! Levanta-te!/ Eis aqui a água! Lava-te!”

Fala da bailarina, sonho de toda criança, que se equilibra em sapatilhas e calos dolorosos, entre a “tênue linha/ que se aninha/ entre a fama/ e o fracasso”.

O ponto alto do onirismo da poeta expõe-se no poema “Lunação” (“crescendo/ cheio/ minguante/ novo), que evoca a canção “Luiza”, de Tom Jobim, onde a filha de Theia “Boia no céu imensa e amarela/ tão redonda lua, como flutua/ vem navegando o azul do firmamento”. A Tom Jobim, a lua de Sandra Maria é uma bailarina de veste prateada que “vem luando em volta da terra/ graciosa/ enamorada/ rodopiando e circulando”.

Sandra Maria capa de outros livros Foto Divulgação 500
Livros de Sandra Maria | Foto: Divulgação

O veio libertário, quase identitário, marca de alguns de seus poemas é notório. Em “Ser sem cor” (um poema que Gilberto Freyre faria) a poeta rememora o calor da negra e o toque macio de seus cabelos crespos. Mas fica “vermelha de tanto chorar/ assustada e fria”, à lembrança da “mancha da escravidão/ vergonha corada/ sem perdão”.

Em “Sua majestade a mulher” exorta as rainhas goianas a voarem “voo de bruxa”, “mariposa negra/ libertadora” e a “inundarem de poesia/ a sequidão/ do nosso cerrado”.

Em “Pedras e espinhos” exalta a resiliência (“resisto/ insisto/ persisto/ eu sigo”) das pessoas com Transtorno  do Espectro Autista (TEA) e a gladiadora camaleoa (em “Palcos”) a se transformar e apontar as suas rimas ao cano da metralhadora “contra o leão feroz/ ou o homem/ da força bruta”.

Brada contra a injustiça em “Revolta” (“És o poder sem valor”) e a define como a “face cruel e renhida/ do homem sem o espírito de Deus).

Sua pauta libertária inclui ainda temas ecológicos (“Queimada”, “Só lápis preto”, “Novo mapa do Brasil” e “Quem virou do avesso meu setembro?”) e defesa dos Povos Originários (“Oca invadida”, alusiva ao Dia dos Povos Indígenas), além do libelo feminista “Mulher! Sororidade é preciso, agora!”: “Mulher!/ Eis aqui a mão! Levanta-te!/ Eis aqui a água! Lava-te!”.

A verve existencialista e reflexiva da poeta — a maior parte da obra — aflora em diversos poemas, como “Encruzilhada”, “Vir e ir”, “Como seria bom dizer adeus”, “Desafogo”, “Noite em claro”, “Pá de cal”, “Riscos”, “Pas de deux”, “Disfarce”, “Oásis” e “Prioridade”, onde a recorrente cristaleira de “Folhas secas sob meus pés” é metaforizada, simbolizando a fragilidade da existência humana.

O telúrico é evocado em “Queda”, onde o movimento descendente gravitacional de um monolito que cai do céu em forma de meteoro, rola montanha abaixo até quedar-se “no rombo da mina abandonada”. Elementos naturais como a Lua, o Sol, o dia e a noite estão presentes em “Rotina”.

Os poemas binários “Elas sem elas” e “Elas com elas” remetem ao vento e à correnteza, com folhas e formigas como protagonistas. Apresenta o “Rodamoinho” como elemento de fuga da vida real e a planta vinca (Catharanthus roseus) como símbolo de resiliência e renascimento da mulher, como uma “Fênix”, por pior que sejam as adversidades.

No dantesco poema “Vulcão”, a poeta excusa-se com seu anjo da guarda por arrastá-lo ao Hades, às profundezas de seus próprios precipícios. O elemento telúrico é notório, com vulcões, montanhas, buracos e crateras.

O Eu lírico da poeta flerta com a sensualidade em Espelho meu, onde se deita sobre o corpo marfim do amado e pinta “as minhas curvas no contato do seu contorno”. Usa o sol e o ocaso pra brincar com o enamorado

O Eu lírico da escritora flerta com a sensualidade em “Espelho meu”, onde se deita sobre o corpo marfim do amado e pinta “as minhas curvas no contato do seu contorno”. Usa o sol, o meio-dia e o ocaso para brincar com o enamorado no poema “Traição” e flertar com ele por meio de “piscadelas preguiçosas”, aconchegando-se “dengosa e lânguida” em sua sombra, ao se ressentir “do seu calor na pele” e se recolher com a lua — por ciúmes — no escuro sensual da noite.

Sandra Maria encontra espaço no coração para homenagear literatos e artistas, desde o imortal da Academia Brasileira de Letras Bernardo Élis, com poema que leva o nome do autor de “Ermos e Gerais”, passando pelo poeta Salvino Pires Sobrinho (“Entre, poeta!”), pelo ator e poeta Mauri de Castro (“Fim de noite”), pelo professor e escritor Eguimar Felício Chaveiro (“É o bordado gritando vida”), pelo escritor Ademir Luiz (“Tiokô”), pela poeta Heloisa Helena de Campos Borges (“Borboleta”) e pela artista plástica Rosy Cardoso (de quem reproduziu o óleo sobre tela “Vitória guerreira e o poema África – Oxumaré”) e a quem dedicou o poema “Alteridade” (“Sou linda/ Sou negra/ Me risco e me pontilho/ de branco”).

Com olhar reflexivo homenageia Eduardo Kobra com o poema “A musa e o mestre”, após contemplar um mural do artista no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Mais cosmopolita, impossível. Homenageia também os primos da família Queiroz (“Travessias”), após encontro realizado no ano de 2024 e os “amigos em dor”, na passagem do ano 2025/2026 com o poema “Um novo ano”.

Com “Passos e rastros”, Sandra Maria consegue a proeza de unificar sentimentos e atitudes díspares, e até improváveis, com uma poesia onírica, telúrica, existencialista e libertária, num só livro. A estilística heterodoxa da autora, eximindo-se de pontuação, é apenas um aperitivo curioso para seu texto renovador e suas posições libertárias.

Nilson Jaime, mestre e doutor em Agronomia pela UFG, crítico literário, é presidente do Instituto Cultural Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (Icebe) e colaborador do Jornal Opção.