Fernando Cupertino

Especial para o Jornal Opção

O sol de meio-dia queimava as pedras da praça quando o Coronel Dionísio, metido num terno de brim e com a botina cantando de raiva, enquadrou Zé Bento bem na porta da venda do Siô Miro. 

— Ô Zé Bento! Pára aí, seu velhaco! Ocê pensa que eu esqueci daqueles quinhentos mil réis que te emprestei no ano passado? Hoje ocê me paga até o último vintém, nem que eu tenha que te arrancar o couro! 

Zé Bento, calmo que nem água de poço, ajustou o chapéu na testa, tirou um palha do bolso e, pachorrentamente, começou a trabalhar num cigarro, antes de responder. 

— Nooossa Senhora, Coroné, pra que esse arranca toco logo cedo? A gente precisa ter paciência nas coisa. Aqueles cobres que o sinhô me arrumô foi de muita valia, uai, mas o sinhô há de concordá mais eu que o tempo tá custoso demais da conta. 

— Custoso o cacete! Ocê comprou três vacas com o meu dinheiro e já vendeu os bezerro tudo! Cadê os quinhentos mil réis, Zé? 

— Pois é aí que tá o nó, Coroné… As vaca que eu comprei era tudo daquelas mansa, mas me saíram de uma fama ruim que só vendo. Uma bebeu água de enxurrada e descansou. A outra deu pra morder rabo de cavalo e levou um coice bem dado que moeu a coitada. E a terceira… bom, a terceira o sinhô vai me perdoá, mas o sinhô se alembra do seu reprodutor, aquele zebu bonitão? 

— O que que tem meu zebu, Zé Bento? 

Pra economizá a fadiga do sinhô de ter que pegá o cavalo e chegá até cá na cidade e me cobrá no ano que vem, num é mió a gente deixá esses quinhentos mil réis onde tá, quietinho, rendendo amizade?

— Ficô apaixonado na bichinha, uai! Foi tanta correria por conta desse amô que a coitada ismagreceu até virá só o couro e os osso. Intão, assuntano bem, metade do prejuízo foi por causa de um sentimento provocado pelo animá de propriedade do Coroné. Se nós for botá na ponta do lápis, é o sinhô que tá me devendo a pastagem e o pastoreio da vaca! 

Coronel e matuto Foto IA500

O Coronel ficou vermelho que nem pimenta malagueta. 

— Mas ocê é um cara de pau sem tamanho! Eu devendo procê? Eu sou o dono das terra tudo dessa região, seu moleque! Ocê me paga esses quinhentos mil réis hoje! 

— Coroné, o senhor já ouviu falá que dinheiro na mão de matuto é que nem fumaça no vento? Se eu pagar o sinhô agora, o sinhô vai ficá mais rico e eu fico sem eira nem beira. Aí o sinhô vai ter que me emprestá de novo, pra mode eu não morre de fome. Pra economizá a fadiga do sinhô de ter que pegá o cavalo e chegá até cá na cidade e me cobrá no ano que vem, num é mió a gente deixá esses quinhentos mil réis onde tá, quietinho, rendendo amizade? 

O Coroné Dionísio olhou pro matuto, olhou pro chicote na mão, suspirou fundo e balançou a cabeça: 

— Zé Bento… ocê não vale o prato que come. Me paga pelo menos uma pinga ali na venda do Miro pra adoçar essa audácia. 

— Aí sim nós se entende, Coroné! Mas o senhor pede pro Miro anotá na caderneta, que hoje eu tô meio desprevenido. 

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.