Olga Tokarczuk: um romance contra os caçadores e em defesa da natureza

Livro “Sobre os Ossos dos mortos”, da escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura de 2018, é uma alegoria em defesa dos animais

Mariza Santana

Especial para o Jornal Opção

Janina Dusheiko é uma simpática senhora que mora sozinha em um planalto desabitado, próximo a uma floresta, em uma região polonesa situada quase na fronteira com a República Tcheca. Amante dos animais, sua vida se resume praticamente à paixão pela astrologia e à tradução dos versos do poeta inglês do século 18 William Blake, na companhia do amigo Dísio, que lhe visita esporadicamente.

A sra. Dusheiko é a protagonista do livro “Sobre os Ossos dos Mortos” (Todavia, 256 páginas, tradução de Olga Baginska-Shinzato), da escritora polonesa Olga Tokarczuk. Os vizinhos, os moradores do vilarejo próximo, os caçadores que matam as corças e outros animais da floresta, os alunos para os quais ministra aulas de inglês, todos são apresentados ao leitor pela ótica da sra. Dusheiko.  Entretanto, ela não fica melindrada em escrever cartas para as autoridades locais, queixando-se do fato dos animais serem “assassinados” cruelmente pelos caçadores, e até insistindo em registrar queixa na polícia.

O inconformismo da velha polonesa encontra eco nos versos de Blake, poeta pioneiro do Romantismo inglês, que denunciava as injustiças que encontrava a sua volta. Ao traduzi-lo, ela relata: “Blake combinava com o clima desta noite; sentíamos como se o céu tivesse afundado sobre a superfície da Terra, de tal forma que não deixa nem muito espaço, nem muito ar para que os seres sobrevivessem”.

Olga Tokarczuk, escritora polonesa: Prêmio Nobel de Literatura de 2018

Nossa heroína também não se contém e protesta veementemente quando uma capela em homenagem ao santo Uberto, o padroeiro dos caçadores, é inaugurada no vilarejo, tendo como testemunhas as crianças que eram suas alunas de inglês. O padre, que ele chama de Farfalhar, faz uma preleção em que elogia os caçadores da região, e isso a tira do sério, em um anticlímax do livro.

Uma voz dissonante

Dusheiko é uma personagem marginal, considerada louca por muitos, simplesmente por ser uma voz dissonante, ao não concordar com as tradições da região que valorizam a atividade da caça. Em sua narrativa, ela deixa claro o inconformismo com o fato dos animais silvestres serem meros troféus em potencial, à espera do dia em que serão abatidos por homens cruéis, armados de rifles.

Entretanto, o fio condutor desse romance soturno de Olga Tokarczuk é uma série de assassinatos ocorridos na região, que vai apresentando outros personagens e seus efeitos sobre a vida da velhinha polonesa. “Sobre os ossos dos mortos” é, ao mesmo tempo, denúncia e silêncio, literatura de qualidade produzida por uma voz feminina do Leste Europeu. A obra comprova porque a escritora polonesa, formada em Psicologia pela Universidade de Varsóvia, foi laureada com um Prêmio Nobel.

Em um trecho do livro, que considero memorável, a personagem Dusheiko apresenta uma alegoria a respeito da força da união, citando a revoada dos tordos, aves comuns na Europa. Cito apenas uma parte: “(Os tordos) são pássaros que costumo ver voando apenas em bandos. Movimentam-se diligentemente, feito um enorme rendado aéreo. Li em algum lugar que os tordos se defenderiam caso fossem atacados por um predador, como um daqueles falcões taciturnos que pairam no céu como espíritos santos”.

A escritora prossegue: “O bando sabe lutar e se vingar de uma forma bastante específica e pérfida — eles alçam voo rapidamente e, como se por um comando, defecam sobre o perseguidor. Assim dezenas de cocôs brancos caem sobre as lindas asas do falcão, fazendo com que fiquem sujas e coladas, cobrindo suas penas com ácido corrosivo. Numa situação assim o predador precisa se conter, desistir da perseguição e, cheio de desgosto, pousar sobre a grama. É capaz de morrer de asco, tão imundas ficam suas penas. (…) Para um falcão, tudo isso é insuportável, e muitas vezes o pássaro acaba morrendo”.

A tradução do romance é feita diretamente do polonês.

Mariza Santana, jornalista e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

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