Ana Kelly Souto

De Portugal para o Jornal Opção

Abecedário de Agostinho de Hipona: W de Wanderer

O alfabeto é uma invenção humana, mas também um espelho da história. Nem todas as letras nasceram juntas. Agostinho escreveu em latim, uma língua que não possuía o W, essa chegou posteriormente, trazida pelos povos germânicos. Hoje o W faz parte do nosso vocabulário, e a proposta deste Abecedário é percorrer todo o alfabeto, mesmo as letras que Agostinho não utilizou. Se ele vivesse entre nós e dialogasse com as línguas contemporâneas, que conceito iniciaria com esta letra?

Minha aposta é Wanderer — palavra que designa o peregrino, o caminhante, aquele que vaga sem se fixar. Mais do que deslocamento, ela carrega inquietude, busca existencial e peregrinação interior. Poucas palavras descrevem tão bem a condição agostiniana: a do ser humano que habita peregrinando, sempre a caminho da verdade.

O cristianismo, desde o início, é uma religião de movimento. Jesus não disse “ficai”, disse “ide”. Chamou com um imperativo: “Segue-me”. Enviou os discípulos como andarilhos pobres. A vida cristã não é instalação, mas êxodo contínuo, que não leva provisões e fia-se na providência divina, ao mesmo tempo que age e se autorresponsabiliza diante do chamado. O Êxodo do Antigo Testamento torna-se imagem da peregrinação interior, conversão, purificação e transformação do coração.

A verdade habita o interior

O Wanderer agostiniano, porém, não caminha apenas para fora, mas também para dentro. “Volta para dentro de ti mesmo” não é um isolar-se, mas a descoberta de que a verdade habita o interior. O coração humano caminha porque ainda procura o lugar que o aquiete. “Inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti” — é a confissão de um peregrino que compreendeu o sentido de voltar para casa.

Para articular e situar a presença do Wanderer agostiniano na tradição filosófica, seria fácil e frutífero recorrer a alguns exemplos colossais. A começar por Aristóteles, que criou em seu Liceu um modo de pensar caminhando. Isso se tornou tão simbólico que entrou para a história como a escola dos peripatéticos, daqueles que passeiam. Ou ainda recorrer ao filósofo do martelo, Nietzsche. Em “Crepúsculo dos Ídolos”, escreveu que “apenas os pensamentos caminhados têm valor”.

Crítico dos “espíritos sedentários”, Nietzsche desconfiava das ideias produzidas exclusivamente entre quatro paredes e via no caminhar uma forma de arejar o pensamento.

Poderia eleger a literatura universal: a “Odisseia”, o grande livro que trata do processo da volta de Ulisses para casa, onde há alegrias, sofrimentos, injustiças, e outros chamados tão fascinantes que facilmente se mudaria de rota. A sabedoria está no discernimento de saber selecionar as batalhas, as estratégias e não se perder nos ruídos e nas questões secundárias do caminho, mantendo-se no último que interessa. Na literatura nacional, Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”, com sua peregrinação sofrida e sem transcendência.

Poderia falar das peregrinações contemporâneas, como Santiago de Compostela, Fátima, Nossa Senhora Aparecida ou a grande Romaria do Divino Pai Eterno, cada qual com suas especificidades, transformações espirituais e com tudo o que as novas espiritualidades envolvem: estilo de vida, saúde e ecologia.

Mas frustrarei o leitor, falarei da minha própria peregrinação.

O corpo adoeceu e alma despertou

Uma das coisas de que mais gosto é um mamãozinho com café sem açúcar pela manhã. Naqueles cafés da manhã de hotel, eu pegava as pontas insossas e quebradas da bandeja para ajeitá-las, pensando que gostava tanto de mamão que o comeria de qualquer modo. Outros, talvez, não. Não poderiam desperdiçar mamões tão maravilhosos. Sem perceber, escolhia sempre os pedaços menos doces, como se não merecesse a melhor parte.

Segura esse detalhe, parece excentricidade gastronômica, mas ele explica mais sobre a minha vida do que eu imaginava.

Aos 48 anos, estava num momento promissor da minha vida, com a possibilidade de estudos nos Estados Unidos. Eu tinha inúmeros problemas diários. Com o diagnóstico de câncer de mama, passei a ter apenas um, mas ganhei uma viagem inesperada para dentro de mim, física e psicologicamente. Entreguei-me ao tratamento com tudo o que a medicina podia oferecer e, de resto, entreguei-me à providência divina. O corpo adoeceu, mas a alma despertou.

Tentei de tudo para preservar os cabelos. Não deu certo. No Domingo de Ramos, durante a procissão, alguém puxou um tufo que caiu e disse: “Caiu!”. Decidi raspar.

Voltei para casa, acordei meu filho e disse:

— Preciso raspar o cabelo.

Ele me olhou com firmeza e respondeu:

— Isso é assunto de família.

Acordou o pai. Juntos, os três rasparam os meus cabelos. Depois, rasparam os deles também.

Olharam para mim com lágrimas e ternura:

— Você nunca esteve mais linda.

Poucos dias após a quimioterapia, vivi a noite mais escura da minha vida. Uma dor física que irradiou para a mente, para a existência. Medo absoluto. Não conseguia sequer rezar, apenas me entreguei, “Senhor, eis-me aqui, sou sua filha, acolha-me”. Tudo se apagou. Foi apenas depois, ao revisitar aquela noite na memória, que uma visão se formou em minha mente. Prostrada no chão, como um trapo humano, vi Jesus na Cruz, com uma faixa roxa acima de mim, olhando-me de cima para baixo. Ele me via. Sua luz me iluminava.

Descida à Mansão dos Mortos pintura de Mari Sousa 2022
Descida à Mansão dos Mortos, pintura de Mari Sousa

Essa imagem tornou-se a pintura “Descida à mansão dos mortos”, pelas mãos de Mari Sousa. Não é apenas uma obra de arte, mas a imagem da minha própria peregrinação interior. Com essa experiência, o medo se foi. Meu coração se acalmou ao perceber que tudo se resolveria, mas não necessariamente pela cura. Havia algo maior acontecendo. Fui iluminada por uma luz que não se vê com os olhos do corpo, mas com os olhos da alma, uma luz capaz de iluminar as trevas.

Viver cada momento inteira

Nessa peregrinação, nessa Descida à mansão dos mortos, recebi três chaves que destrancaram portas fechadas havia anos na minha vida.

1

.        Viver cada momento inteira, e não fragmentada entre o que o mundo espera e o que você quer. É assim que se devolve a dignidade à própria presença.

2     

Há uma conexão entre o corpo e os sentimentos. O corpo fala o que a alma sussurra. Ignorar esses sinais é trair a si mesma. A escuta é o primeiro passo para a verdade, e a verdade liberta.

3

Ser paciente não é ser passiva. Ter fé não é paralisar. Fé implica ação.

Depois dos aprendizados desta minha jornada, desejo que nenhuma mulher precise adoecer para ser respeitada, que nenhuma precise ser despojada da sua feminilidade e beleza, perder os cabelos, os cílios e as sobrancelhas para que reconheçam sua inteligência, sua competência e a seriedade de sua palavra. Que nenhuma precise atravessar a própria noite escura para descobrir que merece a parte mais doce da vida. Dizer sim sem culpa e dizer não sem medo.

Somos mais do que aquilo que o espelho reflete. O tempo da mulher não é apenas o de aguardar que a escolham. É também o de escolher o próprio caminho.

Hoje não aceito mais as pontas do mamão, não por egoísmo, mas por amor ordenado. Amar de verdade implica incluir a si mesma. Conto tudo isso para que você também se lembre de quem é. Se você também é um Wanderer, continue caminhando. A inquietude não é castigo, é sinal de que ainda não chegamos.

Depois do câncer, não voltei a ser quem eu era, comecei a ser quem eu sou.

Referência

SOUTO, Ana Kelly. Filosofia no Câncer. 2. ed. Goiânia: Contato Comunicação, 2025.

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.