“O que mais dói não é a perda. É a ruptura da fantasia.” A frase é amplamente atribuída a Jacques Lacan, embora não tenha sido localizada, nessa formulação literal, em seus textos. Ainda assim, ela condensa uma ideia profundamente lacaniana: aquilo que nos desorganiza diante de uma perda não é apenas o desaparecimento de alguém ou de alguma coisa, mas a queda da construção imaginária que nos permitia habitar aquela realidade.

Porque há perdas que levam consigo muito mais do que aquilo que efetivamente perdemos.

Quando alguém morre, não desaparece apenas uma pessoa. Pode desaparecer também o futuro que imaginávamos viver com ela. Quando um amor termina, não perdemos somente o outro, mas a imagem de nós mesmos que existia naquela relação. Quando um projeto fracassa, pode ruir a narrativa pela qual explicávamos quem éramos, para onde íamos e por que valia a pena continuar.

É possível, portanto, perder uma coisa e descobrir, depois, que o que realmente se perdeu foi um mundo.

Este artigo nasce também de uma circunstância acadêmica pessoal nossa. Na elaboração do trabalho de conclusão para a graduação em Filosofia, dedicado à questão do sentido da existência humana, recorremos a diversos pensadores e tradições que ofereceram o fundamento teórico para aquela pesquisa. A investigação percorreu diferentes perspectivas sobre a pergunta que acompanha o ser humano desde que passou a interrogar a própria existência: afinal, para que vivemos e o que pode conferir significado à nossa passagem pelo mundo?

Foi nesse percurso que se acumularam análises sobre o desejo, o sofrimento, a construção de sentidos e a necessidade humana de encontrar alguma coerência para a própria existência. as aproximá-lo de outra questão encontrada no estudo da Filosofia: a compreensão lacaniana da fantasia e, sobretudo, do que acontece quando ela se rompe.

Os demais conhecimentos aqui mobilizados funcionam apenas como aproximações laterais, diferentes luzes incidindo sobre o mesmo fenômeno. O propósito não é construir uma revisão de autores, mas observar, a partir de Lacan, por que determinadas perdas parecem doer mais do que aquilo que objetivamente perdemos.

A fantasia, em sua psicanálise, não é simplesmente uma mentira que inventamos para nos enganar. Ela participa da maneira pela qual organizamos nosso desejo e damos uma moldura à realidade. Não vivemos diante do real em estado puro. Há sempre uma construção entre nós e aquilo que chamamos de realidade. A fantasia oferece um cenário no qual sabemos, ainda que precariamente, quem somos, o que desejamos e o que esperamos do outro.

Enquanto esse cenário permanece de pé, quase não percebemos sua existência.

Só o percebemos quando ele cai.

O sofrimento, então, não é provocado apenas pela ausência de alguém ou de alguma coisa, mas pela necessidade de continuar vivendo num mundo que deixou de corresponder àquele que havíamos construído. O acontecimento permanece o mesmo; o sujeito é que já não consegue ocupar diante dele a posição anterior.

Freud ajuda a compreender por que o luto é mais complexo do que uma simples aceitação intelectual, como já pude desenvolver em minhas palestras espíritas. A realidade pode anunciar que alguém desapareceu, enquanto a vida psíquica continua, durante algum tempo, a comportar-se como se aquela presença ainda pudesse ser recuperada. O trabalho do luto consiste nessa lenta separação entre aquilo que aconteceu e aquilo que ainda permanece vivo dentro de nós. A razão sabe antes do coração.

Lacan desloca a questão. Não é apenas o objeto que está em jogo, mas a posição que ocupávamos diante dele. A pergunta deixa de ser somente “o que perdi?” e passa a ser “o que acontece comigo agora que aquilo que sustentava meu desejo deixou de existir?”.

Talvez seja por isso que algumas perdas provoquem uma espécie de estranheza de identidade.

A pessoa continua sendo a mesma no documento, no espelho, na profissão, na família. Mas já não se reconhece inteiramente. Aquilo que a definia perdeu sua evidência. A vida continua por fora, mas alguma coisa deixou de funcionar por dentro.

Jung permite aproximar-se dessa experiência por outro caminho. Muitas vezes projetamos no outro imagens que pertencem também a nós. Amamos uma pessoa concreta, mas amamos igualmente aquilo que nela colocamos. Esperamos dela a confirmação de uma imagem de nós mesmos e depositamos nela a promessa de felicidade, completude e identidade. Quando a realidade desfaz essa imagem, pode parecer que perdemos o outro quando, em parte, perdemos também aquilo que havíamos projetado sobre ele.

Não descobrimos apenas que o outro não era quem imaginávamos. Descobrimos que também nós éramos diferentes daquele que imaginávamos ser.

Platão já percebia, ao pensar o desejo, que desejamos a partir de uma falta. O objeto desejado frequentemente recebe de nossa imaginação uma promessa que ultrapassa aquilo que ele realmente pode oferecer. A pessoa amada pode transformar-se no lugar em que depositamos a esperança de uma completude que nenhuma pessoa real poderia garantir.

Por isso, às vezes, quando conseguimos finalmente aquilo que desejávamos, a conquista não produz a plenitude prometida.

Não porque o objeto seja necessariamente insuficiente, mas porque a fantasia era maior do que ele.

Epicteto, por sua vez, ajuda a distinguir o acontecimento da representação que construímos sobre ele. Não controlamos tudo o que acontece, mas participamos da maneira como isso passa a organizar nossa vida interior. Essa distinção não diminui a realidade da dor. Uma morte continua sendo uma morte; uma separação continua sendo uma separação; um fracasso continua sendo um fracasso. Existe, porém, uma camada adicional: a narrativa que construímos a partir do acontecimento.

E algumas narrativas nos aprisionam mais do que o próprio acontecimento.

É aqui que a fantasia se aproxima da pergunta pelo sentido da existência humana.

O trabalho de conclusão de curso que deu origem a estas reflexões partiu justamente dessa inquietação. A pesquisa procurou compreender como a busca humana por sentido persiste mesmo diante de uma realidade cada vez mais organizada pelo cálculo, pela técnica, pelos procedimentos e pela eficiência. Entre as conclusões daquele percurso está a percepção de que a razão pode aperfeiçoar os meios pelos quais vivemos sem, necessariamente, responder às perguntas sobre os fins da existência. Saber como fazer não significa saber por que fazer. Organizar a vida não significa necessariamente compreender seu significado.

Essa constatação, originalmente investigada em dimensão filosófica mais ampla, encontra em Lacan uma espécie de interiorização.

Também construímos instrumentos para viver: profissão, família, patrimônio, prestígio, projetos, relações, crenças, hábitos e expectativas. São estruturas que organizam o cotidiano e fornecem uma aparência de continuidade. Enquanto funcionam, não perguntamos muito sobre elas. Vivemos.

Mas basta uma ruptura para que aquilo que parecia natural se torne objeto de pergunta.

É o que acontece quando alguém perde aquilo que dava significado à própria vida. De repente, a pergunta não é mais apenas “como continuar?”, mas “para quê continuar?”.

Aí a razão instrumental encontra seu limite. Ela pode organizar a agenda, administrar os bens, cumprir obrigações, procurar outro emprego, iniciar outro relacionamento, tomar providências. Pode reconstruir os meios. Mas existe uma pergunta que nenhuma técnica resolve: o que torna novamente desejável a própria existência?

A pesquisa filosófica que antecedeu este artigo mostrou precisamente isso: a busca de sentido não desaparece quando as estruturas que organizam a vida se tornam mais racionais, técnicas ou eficientes. Em certas situações-limite, ela aparece com força ainda maior. Quando os mecanismos habituais deixam de responder, a pergunta antes silenciosa volta à superfície.

É nesse ponto que Lacan volta ao centro, como pude depreender do pdf/áudio de “O Seminário – livro 10, A Angústia”, pois há 5 meses perdi a presença física de um ser muito amado, minha mãe Irany Wolney, com os seus encantos da varanda do mundo em nossa casa em TO e da poesia dos seus Versos e Canções, mais o sonho e a fantasia de imaginar que o “para sempre”dela nunca acabaria, ou melhor, demoraria ainda muito para acabar.

Daí que a ruptura da fantasia é uma situação-limite da subjetividade. Algo que sustentava nossa maneira de estar no mundo deixa de sustentar. O sujeito se vê obrigado a encarar aquilo que a fantasia encobria ou organizava. Esse encontro não é necessariamente libertador no primeiro instante. Pode ser angustiante, doloroso, desorientador.

Mas há uma possibilidade escondida nessa queda.

Quando a fantasia se rompe, talvez se abra a oportunidade de distinguir aquilo que realmente desejávamos daquilo que imaginávamos desejar.

Joan Didion conheceu essa experiência de maneira devastadora. Em dezembro de 2003, seu marido, o escritor John Gregory Dunne, morreu subitamente de um ataque cardíaco. Pouco antes, os dois haviam visitado a filha, Quintana, que se encontrava gravemente enferma. A vida que Didion conhecia sofreu uma ruptura abrupta. Em O Ano do Pensamento Mágico, ela transformou essa experiência em uma das mais penetrantes narrativas contemporâneas sobre o luto.

O que torna o livro tão poderoso é que Didion não escreve apenas sobre a morte do marido. Escreve sobre o esforço de continuar vivendo depois que a configuração conhecida do mundo deixou de existir.

O próprio título contém uma chave.

O pensamento mágico é a resistência da mente à realidade consumada. A realidade diz que alguém morreu; uma parte de nós continua organizando o mundo como se aquela pessoa pudesse voltar. A razão sabe. A fantasia ainda espera.

Didion perdeu o marido, mas perdeu também uma configuração inteira da existência: o casamento, a rotina, a memória compartilhada, os projetos, a ideia de futuro. O luto tornou-se, assim, uma experiência de desorganização do mundo.

A realidade, porém, não volta atrás.

E talvez seja essa a característica mais cruel da ruptura: ela não negocia.

Não podemos convencer a realidade a devolver o que retirou. Podemos apenas modificar, lentamente, a relação que mantemos com aquilo que aconteceu.

Por isso, amadurecer talvez seja menos acumular certezas do que aprender a sobreviver à queda de algumas delas.

Há fantasias que precisamos abandonar. Há outras que precisam mudar de lugar. Algumas, embora nunca inteiramente verdadeiras, foram necessárias para atravessar determinado período da vida. O problema não está necessariamente em fantasiar, mas em acreditar que a fantasia é a realidade.

É possível que certas crises da existência sejam momentos em que a vida deixa de confirmar a narrativa que havíamos preparado para ela.

A pergunta que surge depois é inevitável.

Quem sou eu sem aquilo?

O que desejo agora?

O que permanece?

E, sobretudo, por que continuar?

Talvez a busca de sentido comece quando já não podemos contar com as respostas anteriores. Foi essa uma das questões que conduziram a pesquisa filosófica da qual este artigo se aproveita. E talvez seja justamente aqui que a reflexão sobre a razão, o sentido da existência e a fantasia lacaniana se encontrem: quando aquilo que organizava nossa vida deixa de funcionar, não basta reconstruir os mecanismos. É preciso perguntar novamente pelo significado.

A razão pode ajudar a reconstruir uma casa.

Mas não responde, sozinha, por que devemos querer voltar para casa.

Essa tarefa é mais profunda.

É existencial.

E talvez seja justamente por isso que a frase atribuída a Lacan continue encontrando eco muito além da psicanálise.

Porque todos nós, em algum momento, descobrimos que não sofremos apenas porque alguma coisa terminou.

Sofremos porque, com ela, terminou também a versão do mundo na qual ainda sabíamos quem éramos.

A ruptura da fantasia nos obriga a descobrir o que aquela perda significava.

E, algumas vezes, é somente depois dessa descoberta que começamos, verdadeiramente, a perguntar pelo sentido da própria existência.

Abilio Wolney Aires Neto é Juiz de Direito da 9ªVara de Goiânia, Professor e Escritor com 15 livros. Cadeiras na Academia Goiana de Letras, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás-IHGG, Academia Goianiense de Letras, Academia Dianopolina e Anapolina de Letras e União Brasileira de Escritores- UBE. Doutorando e Mestre em Direito. Graduando em História, Filosofia e Jornalismo.

Na elaboração deste artigo, foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial apenas como apoio à revisão do texto, à organização da argumentação e à formatação do artigo. As ideias, as escolhas de fontes, a análise desenvolvida e as conclusões apresentadas são da inteligencia do autor.