Tenho diários desde os 6-7 anos de idade.

E enquanto morei com meus pais, minha mãe leu todos eles.

Sempre soube que ela os lia. E ela sempre soube que eu sabia que ela os lia. E tínhamos uma espécie de acordo não verbalizada sobre isso, apesar do absurdo da falta de privacidade. Mas nem tanto sobre a questão ética, de quem tem o direito de ler aquilo que alguém escreveu, mas sim sobre o que fazer do que se escreveu.

E enquanto registrava no meu hoje cedo, como costume de todo dia, fiquei pensando em como ficam essas memórias tão pessoais nossas, esses delírios individuais e confissões, quando nos vamos?

O que fazem como nossos diários? Leem? Jogam fora? Julgam-nos, mudam e moldam sua antiga opinião sobre nós? Ou publicam?

Franz Kafka, Sylvia Plath, Virginia Woolf, Susan Sontag são apenas alguns dos escritores que tiveram seus diários publicados, e que eu, confesso com um misto de vergonha e de admiração, os li.

Vergonha porque, como escritora de diário, me sinto invadindo a privacidade de alguém, assim como minha mãe fazia lá atrás. Lendo em surdina, algo que talvez aquela pessoa não gostasse que ninguém mais tivesse acesso.

E admiração porque, na maioria deles, temos nesses escritos revelados a perspicácia literária, criativa e a lucidez sobre o mundo desses autores.

A literatura no fundo é uma grande contação de histórias sobre a vida do outro. Sendo assim, nós, leitores, somos grandes fofoqueiros. E confesso que sou uma fofoqueira nata. Adoro uma biografia e um diário. Talvez eu goste tanto pelo desejo indiscreto de descobrir a pessoa por trás do escritor.

Antigamente, talvez a escrita do diário pudesse ser como refúgio para as mulheres. Onde a opinião delas poderia ser expressa sem ressalvas. Mas e para os homens que também tiveram?  A ideia de poder se expressar sem “filtro”?

Susan Sontag tem um dos diários mais astutos e interessantes que já li. Sua visão ácida do casamento, os assuntos que vão desde o pessoal até o cultural, sua imensa leitura – de livros e de mundo – suas relações amorosas, tudo contribui para essa minha sensação de invasão de privacidade e, ao mesmo tempo, que incrível estar lendo isso.

Os diários riquíssimos de Virgínia Woolf, que nos permitem acompanhar não apenas a escritora pronta, mas suas dúvidas, leituras, irritações, observações cotidianas.

Saramago escreveu um diário quando teve seu romance “O evangelho segundo Jesus Cristo” censurado pelo governo português. Quando se mudou para a ilha de Lanzarote, nas Canárias, ele começou esse diário, que chamou de “Cadernos de Lanzarote” para registrar seu dia-a-dia, o trabalho de seus amigos, o seu e também muito da sua opinião sobre tudo.  Mas já tinha clara intenção de ser lido.

Já Kafka talvez não tivesse tanto a intenção de ser lido ou até mesmo publicado, já que não era um diário tradicional, mas vários registros em cadernetas, papéis avulsos e pequenas anotações que fazia sobre a frustração da escrita, da literatura, seus desejos, confissões.

Um diário é onde podemos ser realmente quem somos. Diário como expressão do eu. E talvez dos acontecimentos do entorno, pequenos registros para lembrar, rememorar. Ou quem sabe, como experimentação de escrita.

Será que esses autores concordariam com isso?

Longe, longe mesmo, de me comparar a qualquer um desses grandes escritores que tive o ainda maior prazer e acanhamento em ler os registros confessionais, agora me pego todos os dias com a pergunta: quem irá ler – e me julgar – pelo que escrevo?

Porque os cadernos estão aqui, com os escritos de momento, algo bonito da visão instantânea do fato, de que depois, talvez, sobre outro olhar/idade/viés/contexto, talvez compreenderei melhor os acontecidos.

Os erros de importância. Um dia registrado como extraordinário, e que talvez nem me lembre depois, como foi. Ou o contrário: um dia que pareceu tão simples, corriqueiro, mas ao ler aquelas páginas ficou ali, registrado.

Não me recordo quem disse que todos que escrevem um diário, partem do desejo, secreto ou não, de ser lido. A ideia de que se escreve para si mesmo, mas sempre existe algum leitor imaginário rondando a página.

Confesso que não partilho disso, mas confesso meu receio de ser lida. Não que tenha na minha pacata vida algo a esconder, mas meu tom sempre tão sincero me inibiria de continuar sendo, imaginando quem vai ter acesso a eles.

Então será mesmo que quem escreve, escreve apenas para si?

Não sei responder, mas sei a delícia que é escrever e também os ler.