O olhar de Lynn Hunt sobre a Revolução Francesa e sobre como ela se faz presente nos nossos dias

Em Política, cultura e classe na Revolução Francesa, a historiadora se desvia de teorias já postas na mesa

Obra é publicada no Brasil pela Editora Companhia das Letras

Para os historiadores, a Revolução Francesa é praticamente o acontecimento político mais importante de todas as eras. Um divisor de águas, símbolo do rompimento com o passado, com o absolutismo monárquico, com o modernismo, com a dominação religiosa (teoricamente, ao menos). Nascia, então, a Era Contemporânea, um mundo voltado para o racional, para a ciência, para a democracia e para a evolução dos direitos humanos.

Há inúmeras obras que buscam interpretar esse marco histórico, mas em “Cultura, política e classe na Revolução Francesa”, de Lynn Hunt, ela lança um novo olhar que busca se desviar das teorias marxistas, do revisionismo e do olhar tocquevilliano. Ela diz:

“A cultura política revolucionária não pode ser deduzida das estruturas sociais, dos conflitos sociais ou da identidade social dos revolucionários. As práticas políticas não foram simplesmente a expressão de interesses econômicos e sociais ‘subjacentes’. Por meio de sua linguagem, imagens e atividades políticas diárias, os revolucionários trabalharam para reconstituir a sociedade e as relações sociais. Procuraram conscientemente romper com o passado francês e estabelecer a base para uma nova comunidade nacional.”

Ela busca analisar as consequências culturais daqueles acontecimentos que refletem na nossa realidade atual, em como a Revolução Francesa deixou o mundo quase 231 anos depois. Para Lynn Hunt, esses eventos remodularam a política no mundo ao trazer para os dias atuais as práticas dos revolucionários, em especial a adoção do sistema político do Republicanismo.

Um adendo é que o historiador Robert Darnton afirma que, ao pensar no individual e na liberdade individual, a Revolução Francesa também deu a luz ao liberalismo. Desde que consideremos as fases do acontecimento, Darnton nos diz que foi a própria nobreza que, descontente com as evoluções naturais que iam se desenrolando na economia, iniciou (se acalmem, apenas iniciou) a revolução. Lembremos que burguesia aumentava suas riquezas e ganhava influência nesses tempos. No reinado de Luís XIV, o próprio monarca começou a substituir seus ministros e funcionários por membros da burguesia, como advogados e comerciantes. Estes passaram a sonhar em enobrecer suas futuras gerações com a compra de títulos.

Obviamente que isso criou um ressentimento na nobreza, que exigiu um endurecimento das regras para a compra de títulos, nomeações a oficiais, leis de terras que haviam caído em desuso voltaram a ser cobrados etc. Nos Estados Gerais (uma espécie de congresso onde as decisões eram tomadas por meio de votos. O Primeiro Estado era formado pelo clero, Segundo Estado pela nobreza, Terceiro Estado pela burguesia e povo em geral), clero e nobreza somavam votos para bloquear petições em favor do Terceiro Estado.

A burguesia e o povo começaram a reagir, o que culminou na Assembleia Nacional. Um sentimento antinobiliárquico havia tomado o humor dos burgueses, camponeses, trabalhadores comuns, desempregados e, também, os pensadores (jornalistas, filósofos, escritores, artistas), que se opunham aos retrocessos e ao preconceito e eram favoráveis a evolução natural da economia. Dessa movimentação política, soma mais uma herança da Revolução Francesa à teoria de Hunt: a mobilização das classes inferiores e a politização no dia-a-dia.

Com a criação da Assembleia Nacional e a “fake news” de Camille Desmoulins, que espalhou que tropas do Rei se encaminhavam para atacar e oprimir o povo, o Terceiro Estado cria seu próprio exército e, em busca de pólvora (e quem sabe armas), tomam a Bastilha. Disso resultou um massacre de quase cem pessoas, incluindo o administrador da prisão, Marquês de Launay, que teve sua cabeça arrancada e exibida em praça pública.

Os acontecimentos que sucedem a tomada da Bastilha, como a queda da monarquia e a tentativa de manutenção de um governo comandado por grupos ora de girondinos, ora de jacobinos, dentre outros que se formavam à época, foram marcados por uma intensa propaganda recheada de adoção de símbolos como o hino, a tomada da Bastilha decretada feriado nacional, o lema “liberdade, igualdade e fraternidade”, a nova liberdade religiosa (mesmo que não totalmente), a liberdade de imprensa a transparência na vida política e adoção de cargos temporários, são enumerados por Lynn Hunt como das muitas heranças que nos ficou da revolução.

Da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, lida na Assembleia Nacional, ficaram os ideais que enfatizaram igualdade e liberdade e que influenciaram, por exemplo, a Revolução Haitiana e diversas outras rebeliões e lutas de direitos que culminaram no fim da escravidão. Além disso, a revolução trouxe a ideia da soberania nacional, do sufrágio universal (dentro das limitações da época, e a teoria da separação dos poderes, criada pelo iluminista Montesquieu (que embora tenha morrido antes da revolução, teve suas ideias difundidas entre os revolucionários).

No pensamento de Hunt, fica claro duas ideias cruciais: que o socialismo provavelmente não influenciou a Revolução Francesa, mas o inverso. A revolução despertou ideias no socialismo e marxismo. Também que, ainda que tenha subvertido a ordem social, ela não alterou as estruturas das classes sociais ou mesmo a opressão que sua existência representa. Talvez dessas lições, a mais importante.

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