O mecenato de Dom Pedro II: de Wagner a Pasteur
29 agosto 2026 às 21h00

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Ronaldo Costa Fernandes
De Barcelona
Em 1857, o compositor Richard Wagner vivia em Zurique, exilado, perseguido pela polícia alemã em razão de seus contatos com Bakunin e por partilhar folhetos revolucionários. Vivia na pindaíba. D. Pedro fez o convite ao músico para se apresentar no Brasil, onde se construiria, segundo as próprias palavras de Wagner em suas memórias, “um teatro de ópera para um público negro”. Não deu certo. Mas Dom Pedro tirou dinheiro do próprio bolso para ser um dos financiadores do Bayeruth Festspielhaus, teatro especialmente construído para o compositor apresentar sua obra.
Não só Wagner foi aquinhoado com uma doação pessoal de Dom Pedro. Ele deu dinheiro para Pasteur e seu instituto, a Lamartine, “quando este lutava bravamente contra a adversidade, crivado de dívidas, abandonado pelos amigos dos tempos prósperos, perseguido pelos credores, moral e financeiramente abatido” (Lyra, 534). Concorreu com patrocínio para os monumentos ao pintor Watteau, ao geólogo Elias de Beaumont (1 000 francos), a Boccaccio na Toscana, e Rabelais, na França. Assim como contribuiu com a Fundação Mozart em Salzburgo e subvencionou a edição de Flora Brasiliensis, de Martius.
Ao ver os descendentes da família imperial brasileira, perguntamo-nos o que deu errado. Reacionários, distantes da realidade do país, espumando de raiva e opiniões que vão além do conservadorismo, essa gente Alcântara não se espelha no heroísmo do primeiro Pedro e nem na temperança, democracia e filantropia do segundo.

Como era a Lei Rouanet do império? Além da subvenção estatal, o mecenato vinha do bolso de Dom Pedro II. O pintor Pedro Américo, em 1858, foi para Roma com bolsa de estudo custeada por Dom Pedro. Não do governo, mas do próprio bolso do imperador.
Outro que viveu como uma mariposa em volta da luz de Dom Pedro foi Carlos Gomes. Está certo que o compositor ganhou uma pensão oficial aprovada pela Câmara dos Deputados, no valor de 1 800$000 anuais, com a influência real, para estudar no Conservatório de Música na Itália. Mas, depois, deu inúmeras facadas no Imperador. Ganhou, entre outras ajudas, uma subvenção aberta pela família real (Dom Pedro contribui com 500$000) para a montagem de Lo schiavo, no Teatro Lírico no Rio de Janeiro. Carlos Gomes, perdulário, viverá muito próximo da boa-vontade e da grana de Dom Pedro até a chegada da República que o relegou ao desprestígio e falta de dinheiro.
D. Pedro II lia, escrevia e traduzia o tupi-guarani, o hebraico, o árabe, o provençal, grego e latim, além do inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. “Encontrei um alemão muito entendido nos estudos filológicos, o Dr. Henning, e me pus a estudar o sânscrito”
Pasteur, Vitor Hugo, Renan (com quem debatia assuntos judaicos, história e línguas), Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco, o astrônomo francês Flammarion, Agassiz (com quem discutia geologia, paixão antiga de parte da realeza brasileira), entre tantos outros, foram alguns de seus correspondentes.
Pedro queria ser um homem comum. Não poucas vezes recusou, ao viajar, distinções de chefe de Estado para simplesmente sair por aí, com sua casaca preta, quase sempre folgada e fora de moda. Preferia flanar pelas ruas ou visitar bibliotecas, fábricas, universidades, museus e academias científicas, entre as quais, a Academia Francesa de Ciências (Académie des Sciences), da qual foi eleito membro.

Recusou-se a utilizar um navio de guerra para ir pela primeira vez à Europa assim como a ajuda de custo de dois mil contos aprovado pela Câmara. Dom Fernando, rei de Portugal e seu sobrinho, visita o casal imperial ao chegar a Lisboa e comunica que preparou a corveta Estefânia para que ele e sua comitiva passassem a quarentena. Dom Pedro recusa: “Agradeço muito”, diz o imperador, “pelo tamanho obséquio, mas não posso aceitar. Hei de sujeitar-me à lei comum, cumprindo a quarentena com meus companheiros de viagem. Aqui não sou mais que Pedro de Alcântara”. Visitou academias científicas e literárias, reis e rainhas, universidades, bibliotecas, ruínas seculares, cientistas famosos como Pasteur, escritores como Victor Hugo em sua casa na Rue de Clic, depois de o escritor francês se recusar a um encontro, o mesmo ocorrendo com Camilo Castelo Branco a quem procurou humildemente em sua residência.
Dominava, lia, escrevia e traduzia o tupi-guarani, o hebraico, o árabe, o provençal, grego e latim, além do inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. “Encontrei um alemão muito entendido nos estudos filológicos, o Dr. Henning, e me pus a estudar o sânscrito”, escreveu ele para Gobineau.
Leniente com as críticas, a favor da liberdade de imprensa (que considerava necessária para que o imperador tomasse conhecimento do que se passava em seu reino, já que acreditava que os que o cercavam escondiam a verdade), Dom Pedro era contemporizador
Com Gobineau, o imperador trocou cartas de maneira substancial. Joseph Arthur de Gobineau (1816–1882), endividado, depois que foi desligado do Quai d’Orsay, pediu 15 mil francos emprestados a Dom Pedro. Para não o melindrar, e ficar devedor de uma dívida tão alta, o brasileiro encomendou ao francês uma escultura. Gobineau, além diplomata, era filósofo, escritor e escultor. O filósofo estabeleceu uma hierarquia racial, opinou que a mistura de raças levava os povos à decadência. Consequência: no século seguinte suas ideias foram apropriadas pelo nazifascismo. O filósofo francês mandou para o Brasil o que muitos consideram sua obra-prima na escultura: Mina, uma negra escrava.

Leniente com as críticas, a favor da liberdade de imprensa (que considerava necessária para que o imperador tomasse conhecimento do que se passava em seu reino, já que acreditava que os que o cercavam escondiam a verdade), Dom Pedro passou à História como contemporizador, o poder moderado que balanceava os pratos do poder entre os liberais e os conservadores. Abolicionista, forçou enquanto pôde para que a classe política votasse leis que levassem à abolição da escravatura, sem gerar comoção social em vista de a classe dominante, alicerçada na vil e gratuita força de trabalho escravizada, ameaçar o regime. O imperador foi homem de ideias liberais, a favor da ciência e da cultura.
Estas pinceladas sobre a personalidade de Dom Pedro foram retiradas do livro “Dom Pedro II” (Garnier, 1017 páginas) , de Heitor Lyra. Diplomata da primeira metade do século XX, Lyra empreende uma obra baseada em pesquisa de arquivos até aquela época ainda não revelados e documenta-se sobremaneira para construir um painel do homem, seu governo e sua época. Deste ponto de vista, com a limitação da historiografia até aquele momento, Heitor Lyra compõe um mosaico criterioso e documental da figura humana, intelectual e política de Dom Pedro e do Segundo Império.
Ronaldo Costa Fernandes é escritor, poeta e ensaísta. Doutor em Literatura brasileira pela UnB. Entre seus livros, encontram-se o romance Vieira na ilha do Maranhão (2019, ed. 7Letras) e A máquina das mãos (poemas, 2009, prêmio da Academia Brasileira de Letras). Ganhou também os prêmios Casa de las Américas e revelação de autor da APCA com o romance João Rama (1979), ed. Codecri. Mora em Barcelona. É colaborador do Jornal Opção.


