O intelectual e seus deveres

Em diálogo com autores-profetas, Carpeaux reflete sobre os riscos à civilização, oferecidos pela Segunda Guerra Mundial, e expõe as próprias angústias de exilado, entrincheirado com a liberdade

Otto Maria Carpeaux:  fecundo comentarista do século 20

Otto Maria Carpeaux: fecundo comentarista do século 20

J. C. Guimarães
Especial para o Jornal Opção

Otto Maria Carpeaux nasceu na Áustria em 1900 e mudou-se para o Brasil em 1939, para sobreviver aos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (o pai, Max Karpfen, era judeu). Aqui chegou por intermédio de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, e de Pio XII. Em nosso país o jovem imigrante retomaria a atividade jornalística que deixou na Áustria, conseguindo, por meio da amizade com Álvaro Lins, um emprego no “Correio da Manhã”, no qual foi editor de política internacional. Com o fechamento do jornal pela ditadura militar, tornou-se consultor de verbetes para as enciclopédias “Mirador” e “Britânica”, e jamais ligou-se à vida acadêmica, embora tivesse autoridade inigualável para o magistério. Os motivos teriam sido quase torpes: era gago e o queixo caia, quando falava. Acanhado para a comunicação falada, resignara-se ao labor da escrita, na qual alcançou indiscutivelmente a estatura de gênio.

Para seu contentamento, o famoso periódico de Paulo Bittencourt cultivou em sua redação um expressivo pessoal de letras, nomes como Carlos Drummond de Andrade e Carlos Heitor Cony. Paralelamente ao exercício do jornalismo, Carpeaux manteve o disciplinado trabalho de pesquisa que renderia pelo menos 12 livros de crítica literária e política, entre 1942 e 1968, dentre os quais uma raríssima (senão única!) história da literatura ocidental em todo o hemisfério. Teve, ainda, a oportunidade de dirigir duas importantes instituições: a biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia (1942-44) e a da Fundação Getúlio Vargas (1944-49).

Carpeaux é expoente de um caso interessante na história do Ocidente, capaz de inspirar boas monografias. Ele não foi o único europeu a se exilar ou radicar na América. Por razões diferentes — econômicas, políticas e, sobretudo, para escapar dos maiores conflitos militares do último século —, acorreu para este canto do mundo uma plêiade de pensadores, artistas e cientistas dos mais brilhantes nascidos na Europa e União Soviética. Podemos lembrar alguns outros escritores e também artistas plásticos, áreas de nosso interesse imediato: Paul Groussac, Witold Gombrowicz, Vladimir Nabokov, Isaac Singer, Anatol Rosenfeld, Clarice Lispector, Paulo Rónai, Stefan Zweig, Lasar Segall, Frans Krajcberg, Franz Weissmann, Mira Schendel, Mark Rothko, Willem de Kooning, Arshile Gorky e Gustav Ritter.

Apenas nessa relação constam alemães, austríacos, poloneses, russos, um holandês, um francês, um húngaro, uma ucraniana e, finalmente, uma suíça. Carpeaux é parte de um acontecimento de envergadura na história do continente americano, no século 20: a imigração de cérebros europeus para as Américas. Limitando-se apenas aos casos de Brasil e Estados Unidos, enquanto destinos preferenciais desses personagens, é notável a discrepância que isso significou quanto ao impacto de sua presença na cultura contemporânea universal.

Metade dos nomes lembrados, indistintos aos demais quanto à origem, foi definitivamente incorporada à história do seu meio de expressão em escala mundial, ao contrário do que sucedeu com a outra metade. Explicar as razões desse destino desigual, que inelutavelmente envolve fatores de natureza não artística apenas, requer uma ampla pesquisa historiográfica.
A epopeia dos imigrantes para o Brasil (a rigor, braços para a lavoura e a indústria) é contada à exaustão nos livros de história do país, mas ainda não se escreveu acerca dos homens de espírito uma história tão relevante quanto aquela iniciada por volta de 1870. Refiro-me à fuga daqueles artistas e eruditos do Velho Mundo na primeira metade do século 20 para o nosso continente, bem como a influência — às vezes decisiva — que exerceram entre seus colegas americanos.

A primeira leva teve impacto econômico fundamental, particularmente no Brasil, quando substituiu o braço escravo nas lavouras de café pelo trabalhador assalariado, ao mesmo tempo em que ajudou a marginalizar a mão-de-obra nativa, discriminada pelos empreendedores nacionais. Trouxe consigo, além da força física, ideais políticos como o anarquismo e o socialismo, com formidáveis desdobramentos na organização classista operária e na vida nacional, sobretudo a partir das duas últimas décadas do século 19, quando promoveu a fundação de sindicatos e partidos políticos de orientação marxista. A leva seguinte impactou sobre o ambiente cultural, contribuindo na difusão de ideias e, em alguma medida, na visão de mundo dos povos que a acolheu, a ponto de alguns de seus expoentes figurarem de forma marcante na história literária ou artística dos países em questão. É o que aconteceu com Otto Maria Carpeaux, para sempre integrado à cultura brasileira.

Goethe, Santa Teresa, Giambattista Vico: três profetas analisados por Otto Maria Carpeaux em “A Cinza do Purgatório”, livro de estreia do autor em língua portuguesa, editado em 1942 | Foto: Fotos: Wikepédia Commons

Goethe, Santa Teresa, Giambattista Vico: três profetas analisados por Otto Maria Carpeaux em “A Cinza do Purgatório”, livro de estreia do autor em língua portuguesa, editado em 1942 | Foto: Fotos: Wikepédia Commons

Formado em ciências exatas, Carpeaux foi jornalista de profissão, ensaísta, crítico literário e historiador. “Profecias” constitui um feixe dos primeiros trabalhos que escreveu entre nós: uma coletânea de ensaios. Não é tanto o crítico literário (como será o autor de “Interpretações” e outros trabalhos subsequentes) que emerge destas páginas de preocupação. É, antes, o comentarista mais da vida de certos autores do que de suas obras, para daí tirar preciosas lições e forjar uma nova sabedoria. Inicialmente publicados no “Correio da Manhã”, os seis textos sobre grandes personalidades do espírito europeu — Jacob Burkhardt, Goethe, Santa Teresa, Giambattista Vico, Georg Christoph Lichtenberg — constituem a primeira parte de “A Cinza do Purgatório”, livro de estreia do autor em língua portuguesa, editado em 1942. “Profecias” são evocações. Não trás, ainda, nenhum tipo de reflexão sobre a cultura que o recebe: absorve-o, inteiramente, a história europeia contemporânea, período de trevas que busca compreender à luz daquelas personalidades, que o guiam em sua passagem pelo território da expiação. É lição de um peregrino à procura de modelos espirituais; angustiado, quer este homem refugiar-se num plano ulterior, livre da matéria em decomposição. Facilmente a crítica psicológica extrai dessas entrelinhas as angústias pessoais do autor, sendo possível hauri-lo quando evoca, interpreta e julga outros personagens.

Conhecemos bem os reflexos das grandes perturbações políticas do século 20 na vida econômica e política nacional: elas contribuíram para o fim do Estado Novo e o início da democracia no Brasil, em 1945. Mas o austríaco recém chegado testemunhara in loco, em 1919, a ruína do Império Austro-húngaro, “torre da civilização sobre o abismo”. Quase 20 anos depois assistiu, impotente, à transformação do seu país numa província do Terceiro Reich, em março de 1938. A maior de todas as guerras ameaçou o espírito, colocando em xeque os tesouros da civilização e da cultura. São estas questões que interessam ao ensaísta, devotado à compreensão da história — em seu bojo, a situação específica do século 20 — e a um problema da maior urgência, em épocas de crise: a função dos intelectuais na sociedade.

O ensaísta chega ao Brasil em agosto de 1939. No mês seguinte, a 1º, é deflagrada o conflito mundial, com a invasão da Polônia pelas tropas de Hitler. “Profecias” é uma tentativa de reorganização cósmica que nasce do caos, luta decisiva entre o nazismo, o liberalismo e o comunismo pelo domínio da Europa: a civilização, outra vez, corre o risco de extinção. Em circunstância tão assustadora, as leituras de Carpeaux reverberam a resignação estoica e a gravidade cristã, quando o ensaísta confessa que levaria para o exílio as meditações de Marco Aurélio e os pensamentos de Pascal, além dos aforismos de Lichtenberg. A sabedoria é o melhor antídoto contra as loucuras de uma época, e a sua terá se esquecido de Deus, como o esqueceu a época burkhardiana. Existe, para explicar a crise de que é testemunha, uma cisão entre matéria e espírito, refletida no seu pensamento: eis outro conflito, um conflito vertical, em curso. Sob o sanguinário espetáculo entre “a verdadeira e a falsa grandeza”, mobilizam-se, além das potências econômicas, as potências do espírito, rebeladas contra a barbárie. Cerrado nas fileiras da cultura, Carpeaux tornou-se soldado em tempo de guerra. Sua arma foi a literatura e sua causa o humanismo; isto é, a veneração pelos antigos. Eram para ele muito vivas as lembranças da Europa. Feliz­mente, o desfecho soava previsível, pois, como conclui em sua admiração de Santa Teresa, é pior para o século: “A lição da santa é que as muralhas do Castillo interior são eternas, como as muralhas de Ávila não o são”.

As “muralhas de Ávila” é uma metáfora das aberrações políticas do século 20: há, com efeito, certo consolo em prever, com o auxílio dos mestres, que as muralhas do seu tempo também passarão, inapelavelmente. É uma certeza, sob o halo da santidade. Teresa resistiu à tortura de seus superiores; Carpeaux e a humanidade resistirão à perseguição dos tiranos, porque apesar dos pesares, Elpís, a Esperança, ainda não foi abatida no íntimo da civilização. É uma promessa de liberdade.

Mas o conceito de liberdade, nas “Profecias”, parece não representar uma categoria de ação, e sim de contemplação. Refere-se ao ideal de independência artística sobre quaisquer compromissos ideológicos de natureza política, daí que nos fala numa “liberdade superior” a todas as contingências históricas. Mais do que um país para exilar-se, Carpeaux está à procura de um refúgio de ordem superior, único lenitivo para o drama de sua existência. Viera ao Brasil para escapar da perseguição do nazismo, mas requereu um espaço entre a terra e o céu para curar suas feridas. A única saída possível é vertical, ascensional como a cruz.

Este outro refúgio, sendo eterno, encontrá-lo-á nas vozes permanentes que o acodem do passado literário, e que lhe servirão de consolo naqueles dias tenebrosos. “Refugio-me em Goethe, e fico surpreendido com sua presença.” Tal proximidade não significa apenas uma companhia agradável: é também vitalidade. Goethe, Burkhardt, Santa Teresa, Vico e Lichtenberg permanecem vivos, apesar de estarem mortos, e comungam a mesma atitude: são todos contra a sua época. Carpeaux o será, também. Se tivessem lhe perguntado qual era o seu partido naqueles dias, certamente diria, desconfiado das fórmulas políticas à direita e a esquerda, que era o partido do espírito, tão superiormente representado por aqueles luminares.

Para agir exemplarmente, era necessário fazê-lo como homem de pensamento, buscando modelos para si. Foi o caso daquele “conselheiro íntimo de nossa angústia”, Jacob Burkhar­dt. Há nessa confissão uma ressonância biográfica, enfatizada por este aforismo de sua autoria: “É a nossa angústia que produz os profetas”. Então, é isso: o estado do expatriado é de angústia e até de pessimismo, o que é perfeitamente compreensível: “O tempo não terá mais futuro”, sentenciará com amargura. É outra certeza, bem diferente da anterior: Elpís vacila sob as ventanias do desastre humano.

Entre o Carpeaux da década de 1960 e o recém-chegado ao Brasil, dos anos 40, há uma diferença de postura. O primeiro foi o intelectual para quem o engajamento tornou-se um dever, na luta contra a repressão que se abateu sobre o país que o recebeu. Dedicou-se à militância política a ponto de sacrificar o ensaísta magistral, que era, no polêmico altar da pátria. Já o imigrante que começa a escrever na imprensa brasileira não tem respostas para a pergunta da história diante das catástrofes: “Não tem porque isso não é da competência do artista: as soluções são sempre fáceis e valem o que valem”, dirá à luz de Goethe, talvez sem concordar plenamente com o poeta alemão. Acredita que o problema é muito mais de “hesitação” diante da transição histórica que se opera: é o que torna imperioso definir o seu papel e, de resto, o de todo intelectual, em situações de crise. Quanto aos “deveres do espírito”, não poderia subscrever as “ilusões” de Marx, pois não é função do intelectual transformar o mundo, conforme o entendimento da ortodoxia materialista.

Desfile de Hitler durante a anexação da Áustria (Anschluss) pelos nazistas, em 1938: o exílio como alternativa, para Carpeaux | Foto: M.File

Desfile de Hitler durante a anexação da Áustria (Anschluss) pelos nazistas, em 1938: o exílio como alternativa, para Carpeaux | Foto: M.File

Os intelectuais não têm a obrigação de transformar o mundo; o seu dever é transfigurá-lo pela criação, a criação artística. A falta de engajamento, neste momento, não significa falta de opinião, de norte, para Carpeaux. Cabe ao intelectual, além do exercício mágico da transfiguração, “traçar a fronteira” entre o que deve perecer e o que deve ficar. Portanto, não compete a ele apenas o ofício da criação, mas também o de exercer a crítica, e todos os verdadeiros profetas — isto é, aqueles vaticinadores que o mundo prefere esquecer — fizeram o seu balanço do mundo, julgando-o conforme a sua consciência e sabedoria.

De Burkhardt, protótipo de conduta, o ensaísta extraíra a luminosa ideia de que, independentemente das paixões e dos partidarismos, o intelectual tem a autonomia de escolher. A escolha do mestre da Basileia recaiu sobre o “passado”, sobre a civilização da velha Europa. É também sobre o passado que incide a escolha de Carpeaux, preocupado em resguardar os monumentos da cultura e pouco entusiasmado com a herança moderna: “Felizmente”, dirá, “bem pouco deve ficar” de nosso tempo. Há, nas “Profecias”, uma clara recusa do presente. O refúgio não está sequer no passado como lugar distante, mas exatamente naquilo que o passado representa em face da catástrofe contemporânea: a intemporalidade do eterno. De candente atualidade é a acusação de que o moderno invade as regiões da eternidade, “sintoma tão grave aos nossos olhos.”

Carpeaux rechaça as modas como convém a nós fazê-lo, e a modernidade é cheia de modas, que logo definham. Aquilo que as multidões e o senso comum valorizam durante algum tempo é logo esquecido. Não são os críticos que se lhes opõe a sua “presunção” e o seu gosto particular: é o próprio tempo, não cego mas de uma visão penetrante, que cuida de selecionar o que deve sobreviver e o que deve acabar. Se é moda do “moderno” cair no esquecimento, talvez o motivo seja a sua substância, feita de duração e não de eternidade. Mas a aversão ao moderno deve refletir, mais do que qualquer outra coisa, a imagem que tem do moderno: espelho da morte, simboliza a guerra que grassa e desgraça. Esta é sua opinião, mas a opinião é necessária para o processo de restituição da humanidade.

Certos poderosos deste mundo são como aquele fazedor de calendários, o senhor Partridge, de quem o sátiro Jonathan Swift, com seu veneno, disse estar morto sem o saber. São apenas cadáveres “mal informados”. Na opinião de Carpeaux são muitos os cadáveres mal informados à frente das loucuras do século 20. O papel do intelectual esta definido: fazer a denúncia. O ensaísta, aparentemente tão conservador nas suas posições, interesses e afinidades intelectuais, deplora com veemência a sociedade moderna, burguesa e capitalista. Ela é a causa do seu mundo derruído. Os burgueses que admira, como Burkhardt e Goethe, são do velho estilo medieval, ainda idealistas, ainda ardorosos defensores da individualidade e da liberdade de espírito. Nada que se assemelha àquela classe que surgiu das revoluções industrial e francesa, que é a essência social da época em que viveu, produziu duas guerras mundiais em sequência e gerou o proletariado: “O capitalismo quebrará as formas orgânicas da sociedade, para dar lugar às multidões proletarizadas; a personalidade bem formada cede lugar à massa impessoal.”

Às massas, “incapazes de compreender e de conservar o que foi, incapazes de conceber e de construir o que será”, faltam, pois, gênio, capacidade e discernimento. Se não tece elogios à classe dominante, tampouco enfileira-se, ainda, ao lado da classe explorada, que, sendo bruta (e embrutecida), é incapaz de despertar nele alguma forma de esperança. As crises econômicas e as revoluções sociais nada significam para ele, que prefere identificar-se com o mundo das ideias. Eis a sua tese, antipositivista: “A história não é o teatro dos generais e dos diplomatas. A verdadeira história passa despercebida, tranquilamente, no centro da alma humana”.

Não foi o século, por exemplo, que salvou a Igreja espanhola no século 16 — foi Santa Tereza, ou (se assim o preferirmos) foi a eternidade, o espírito. Quem o profere é inegavelmente um homem idealista, e como tal só pode ser contra certos valores do mundo contemporâneo e seu materialismo inconsequente. Carpeaux, paladino das coisas perenes, tem em mira o utilitarismo da cultura moderna, e evocará o pré-romantismo por meio da sabedoria goethiana da natureza, para exaltar “o desinteresse completo do espírito”, que se manifesta pela da arte.”

De acordo com Goethe, o cosmo humano, destruído pela guerra, só encontra refúgio no espírito e nas suas obras, e tem apenas um rival: o poder, que é a sua face obscura. Napoleão representou essa força demoníaca, pouco mais de um século antes; revivem-na, em meados do século 20, os exércitos totalitários e até os liberais, que prometem impedir a marcha voraz dos inimigos da humanidade. Não estariam sendo confirmados os presságios burkhardtianos, que teriam adivinhado o “despotismo perfeito” e o “Estado militar industrial” no século 20? Há acontecimentos que se “repetem” periodicamente: as “Profecias” problematizam o conceito de história, e Carpeaux servir-se-a, ainda, de uma disciplina em crise para encontrar uma solução: a filosofia da história.

Entre os pensadores que vindicaram o caráter cíclico do tempo, Oswald Spengler e Arnold Toynbee golpearam o otimismo progressista legado pelo Iluminismo, aplicando as noções biológicas de nascimento, ascensão, declínio e morte aos impérios e às civilizações. Vico foi o grande precursor dessa concepção, ainda no século 17. À maneira de Auguste Comte, concebera três estágios evolutivos, muito embora, a partir do último, estivéssemos condenados a voltar à estaca zero da barbárie. Na perspectiva de Otto Maria Carpeaux, não era absurdo considerar que toda a civilização ocidental estava claramente ameaçada de voltar a esse ponto. Nas “Profecias”, parece que os acontecimentos não encerram mais aquele sentido de outrora. Por outro lado, Carpeaux lembra que: “Todas as teorias cíclicas da história, de Políbio até Spengler, opõem-se ao espírito do cristianismo, que não conhece mais que uma única revelação e uma única encarnação de Deus e, por isso, só admite a evolução retilínea, da criação até o juízo final”.

Mas o devoto católico vacila mais uma vez, surpreende e reverencia a concepção cíclica da história do filósofo italiano, que afinal previu o problema crucial do século 20: a ameaça de retorno da civilização ao estágio da barbárie. Logo, o diagnóstico de nosso tempo já foi dado, antes de todos os outros, por Vico. Nas “Profecias” a história é definida substantivamente pelo ensaísta como “tormenta”, “transtorno”, “paixão”, “tragédia”, “convulsão”, “formigueiro”, em oposição a qualquer noção de ordem. O século das grandes utopias mais parece uma distopia. A noite dessas associações tenebrosas desce sobre o racionalismo e sobre a ideia de progresso. Carpeaux é sensível a crise dos ideais iluministas: “Vico é o primeiro para quem a decadência não é um assunto de sermão moralizante, mas um problema da história. Não há sempre progressos, de modo nenhum; há também regressos terríveis, os “ricorsi” da doutrina viquiana”.

O século 20, tal qual o século 17 do sábio napolitano, é provavelmente de um “progressismo ingênuo e alegre”, “um século doente, na cega anarquia em que a voz da razão se cala”. Também não vivemos mais uma época de absolutos, mas de relativos, e Vico — criador do relativismo histórico — se sobressai outra vez, explicando-nos como profeta autêntico.

Sua sabedoria continua útil para nós, e com ele também o cosmo de uma explicação volta a se restabelecer sobre o caos da ignorância, pois “Está buscando o sentido superior atrás do absurdo da catástrofe.” É exatamente isso o procura fazer, também, o exilado Otto Maria Carpeaux. A estátua de pedra do filósofo pairando sobre Nápoles existe de verdade, e Carpeaux converteu as crianças que brincam à sua volta em metáfora: “Como a história, aquela estátua, na penumbra das árvores velhíssimas, parece insensível aos sofrimentos e sonhos humanos; contempla com o olhar frio de pedra as crianças inocentes que brincam ao pé do monumento, que não sabem quem foi aquele que lhes traçou, a elas também, os implacáveis destinos futuros”.

A estátua de Vico parece ser tão insensível à sorte dos homens quanto o olímpico Goethe o terá sido, em face da Revolução Francesa. E não seria a postura carpeauxiana igualmente insensível, uma vez que vindica seus mestres? A resposta é não; nada disso é verdade: todos eles cumpriram, com suas obras, o seu dever humano e intelectual. Resignemo-nos a esse “moinho infernal” da história, regido pelo ricorsi viquiano, ou, se o preferirmos, pelo seu sucedâneo conceitual, a dialética hegeliana, “sempre renovada.” Mas “as crianças inocentes” que brincam ao pé daquela estátua de pedra e a ignoram, essas representam a puerilidade do homem moderno. Puerilismo e falta de seriedade: eis a doença daquela primeira metade do século 20, tão distante da santidade de uma Teresa e tão próximo da perdição.

J.C. Guimarães é escritor e ensaísta.

via Revista Bula

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