O Grupo, de Mary McCarthy, conta a história de universitárias formadas em Vassar, nos EUA

O romance reúne ficção com pitadas autobiográficas e traça um cenário detalhado das mudanças ocorridas nos Estados Unidos no período entre as duas guerras mundiais

Mariza Santana

A narrativa do livro “O Grupo” (Abril Cultural, 370 páginas, tradução de Fernando de Castro Ferro), de Mary McCarthy, começa com o casamento de Kay e Harald, uma cerimônia realizada fora dos padrões usuais da época, ao qual comparecem suas antigas colegas do Vassar College, da turma formada em 1933. São elas as protagonistas deste romance da escritora, crítica literária e ativista política norte-americana.

A própria autora também era egressa dessa tradicional universidade dos Estados Unidos, fundada em 1861. Em seus primeiros anos, a instituição de ensino foi destinada à elite protestante branca dos Estados Unidos e era exclusiva para mulheres. Somente em 1969 se tornou mista, aceitando também rapazes. Existe até os dias de hoje e está localizada em Poughkeepsie, a 100 quilômetros de distância ao norte da cidade de Nova York.

O livro, publicado em 1963, é de ficção mas com boas pitadas autobiográficas. Em “O Grupo”, as personagens principais são as moças Kay, Dottie, Pokey, Polly, Libby, Helena e Norine, muitas delas aqui nomeadas pelos apelidos da época da universidade. Como não há uma só protagonista, os capítulos se revezem contando as trajetórias das amigas depois que se graduaram na universidade, suas ânsias e desejos, seus questionamentos políticos, sociais e ideológicos. Essa forma de narrativa cria um caleidoscópio capaz de, em alguns momentos, confundir o leitor menos atento.

Mas, com o avançar da leitura, vão surgindo as conexões entre as personagens (isso muito tempo antes de existir as redes de relacionamentos tão comuns nos dias atuais). Além disso, a escritora cita vários acontecimentos ou comentários dos personagens, que possibilitam estabelecer o período histórico. Estamos em Nova York, na época compreendida entre as duas guerras mundiais, pouco depois da quebra da Bolsa de Nova York, que causou o colapso da economia do planeta (ou boa parte dele) e provocou o que ficou conhecido como Grande Depressão.

McCarthy faz referências ao Crash da Bolsa de 1929, à crise econômica e ao desemprego que se seguiram a esse acontecimento do mundo das finanças no território norte-americano. Depois, cita questões políticas como o New Deal de Franklin D. Roosevelt, a efervescência verificada nos sindicatos de trabalhadores, e o embate entre os comunistas (com a divisão entre stalinistas e trotskistas), além do surgimento dos movimentos fascistas na Europa, terminando com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a posição ainda neutra do Estados Unidos em relação ao conflito, em 1941.

Mary McCarthy: escritora americana | Foto: Reprodução

A escritora se mostra uma prosadora de fôlego, ao mesmo tempo em que vai tecendo o destino de cada personagem, apresentando suas origens sociais, amigos e familiares, como se comportavam no Vassar College e ainda como buscavam construir seu futuro em uma sociedade marcada pelas mudanças sociais e políticas que ocorreram na terceira década do século 20, um dos mais conturbados da história contemporânea.

Desse modo, a surpresa de não haver uma protagonista única vai sendo substituída pelo intricado das vidas das moças, seus acertos e receios. Não é bom adiantar a história para não ofuscar o brilho da construção narrativa. Mas vale ressaltar que o romance começa com um casamento e termina com um funeral, duas cerimônias importantes que marcam a vida da maioria das pessoas. A última volta a reunir as jovens egressas do Vassar College. O desfecho é o que podemos chamar de “gran finale”, comprovando que o romance é um clássico da literatura norte-americana.

Após ser publicado, o “O Grupo” ficou na lista de best-sellers do “New York Times” por quase dois anos. O romance foi adaptado em um filme homônimo, do diretor Sidney Lumet, lançado em 1966.

Vale falar mais algumas curiosidades a respeito da escritora. Ela foi casada quatro vezes, sendo que o primeiro marido se chamava Harald Johnsrud, portanto homônimo de um dos personagens do livro, Harald Petersen, e ambos (o real e o fictício) atuavam no meio teatral. A autora de “Memórias de uma Menina Católica” também foi casada com o crítico literário americano Edmund Wilson.

Foi vencedora do Horizon Prize (1941) e pertenceu à Academia Americana de Artes e Letras. Mas seu sucesso popular foi obtido graças à obra “O grupo”.

Mary MacCarthy também foi amiga da filósofa alemã Hannah Arendt, com quem trocou uma extensa correspondência que abordava temas intelectuais. Foi inventariante da obra da filósofa até 1989, quando morreu.

Mariza Santana é crítica literária. E-mail: [email protected])

Trecho inicial do romance de Mary McCarthy

“Foi em junho de 1933, uma semana depois da formatura, que Kay Leiland Strong, da turma daquele mesmo ano de Vassar, se tornou a primeira a dar a tradicional volta em torno da mesa no jantar de despedida: casou-se  com Harald Petersen na capela da Igreja de São Jorge, sendo a cerimônia oficiada pelo bispo da igreja episcopal, Karl F. Reiland. Lá fora, na Praça Stuyvesant, as árvores estavam cobertas de verde folhagem, e os convidados que chegavam de táxi, aos dois e três, podiam ouvir o alegre palrar das crianças brincando ao redor da estátua de Peter Stuyversant, situada no parque. Pagando aos motoristas e alisando as luvas e vestidos, os pares e trios de moças que chegavam, todas elas colega de turma de Kay, olhavam em derredor cheias de curiosidade, como se estivessem numa cidade completamente estranha. Estavam em vésperas de descobrir Nova York, imaginem só, quando algumas ali tinha passado a vida toda em cansativas mansões georgianas, cheias de espaços inúteis e localizadas nas ruas mais elegantes ou edifícios de apartamentos de Park Avenue, e, por isso, deliciavam-se em conhecer logradouros afastados e poucos frequentados, como aquele, com seu imenso celeiro e cada de reunião dos antigos Quakers, toda em tijolos vermelhos, corrimões de latão polido, bem ao lado da igreja Episcopal, pintada de um vermelho quase vinho — aos domingos atravessavam com seus namorados a Ponte de Brooklyn e iam passear nas sonolentas ruas da parte mais alta desse bairro; exploravam a ultra-residencial Murray Hill e travavam conhecimento com MaDougal Alley e Patchin Place, com as estrebarias Washington, cheias de estúdios de artistas; adoravam ao Hotel Plaza, com sua fonte, as mansardas verdes do Savoy Plaza e a fileirade pequenas carruagens com seus velhos cocheiros, esperando, como se estivessem numa place francesa, tentar os moços a darem um romântico passeio pelo pouco iluminado Central Park.”

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