“Naqueles Morros, Depois da Chuva”, a epopeia literária de Edival Lourenço

A paródia que permeia o enredo mostra que a intenção do autor não é uma transposição literária da História, mas sua reinvenção crítica e bem-humorada

Simone Athayde

Especial para o Jornal Opção

“A vida. A vida, meu Deus, a vida! É como se ela nos jogasse um aço e nos jungisse com rispidez severa como a um simples boi marruá. Com variações apenas de cenário, da paisagem ao derredor, a realidade insiste em ser sempre a mesma, desde os tempos mais remotos. Nossos sonhos há sempre alguém pronto para realizá-los em nosso lugar. Ainda que em outro tempo, no arrojo de outra geração. Já os pesadelos, é como se fossem o nosso tutano, e de nós ninguém o retira, sem antes nos moer os ossos.” P. 13

Edival Lourenço, na obra “Naqueles Morros, Depois da Chuva” (Hedra, 236 páginas), realizou uma epopeia literária, tanto no sentido da construção narrativa, com seus aspectos linguístico e estilístico, quanto no enredo que engendrou. Na literatura, uma epopeia é, por definição, um longo poema que narra as aventuras e desafios de determinado herói com o intuito de exaltar suas qualidades e conquistas ou as conquistas de um povo. Há, nesse gênero narrativo, por vezes, elementos míticos, sobrenaturais, que se sobrepõem ao herói ou vêm para ajudá-lo a cumprir sua missão. Como exemplos podemos citar a “Odisseia”, do grego Homero, e “Os Lusíadas”, do português Camões. Por extensão, entendemos epopeia como uma sucessão de ações gloriosas, de dificuldades vencidas por alguém ou por um grupo. No caso da obra “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, o diferencial é que enquanto a epopeia é um texto formal, grandioso e laudatório, neste livro temos uma mistura de carnavalização ao enredo, com toques de paródia repassados através do olhar de um narrador pouco confiável, que, em certo trecho, nos confirma que “afinal, só mais uns poucos dias e estaremos dando por concluída a mais esta viagem de epopeia grega”.

O enredo trata, basicamente, da descrição ficcional da expedição realizada no ano de 1739 pela caravana de Dom Luís de Assis Mascarenhas, capitão-general da capitania de São Paulo e Minas dos Goyases, até o Arraial de Nossa Senhora de Santana, atual Cidade de Goiás. Os objetivos da viagem eram a substituição do governador anterior, falecido, e a imposição de uma nova ordem que possibilitasse um incremento da produção do ouro e o seu envio, sem desvios, aos cofres do Reino de Portugal. A viagem é epopeica, seja pelas dificuldades enfrentadas pela caravana nesses sertões então praticamente virgens, cheios de “selvagens”, bichos peçonhentos e de todo tipo de obstáculos ainda desconhecidos, seja pela vanglorização do protagonista, Dom Luís, que é tratado pelos serviçais e pelo narrador como uma espécie de homem superior, um verdadeiro herói. No caminho, surgem figuras enigmáticas e exóticas, como Zuca Macumbela, um quilombola com poderes de profeta e trajes de mendigo, e um garimpeiro que, após sofrer um ataque perpetrado pelos índios, quer vender a filha, Joaquina, só pele e ossos, para salvá-los da miséria. Na narrativa também se alternam alguns capítulos nos quais temos a visão dos indígenas sobre os invasores e sua preparação para uma guerra contra esses “diabos brancos”. O cacique prevê, em sonhos e visões, a iminência da chegada do novo chefe dos homens brancos e sente que é chegada a hora de partir para o ataque com a finalidade de matar essa serpente do Mal. Porém, o cacique morre antes de conseguir sair para a batalha, deixando ao filho, um jovem despreparado, a grande responsabilidade de dirigir a empreitada.

A trama é costurada a partir do ponto de vista de um auxiliar de sentinela no séquito de Dom Luís. O personagem-narrador é filho bastardo do Anhanguera, o descobridor das minas de ouro em Goiás, e como mestiço alforriado pelo pai que é, não goza de nenhum privilégio social: “Um bastardo que não seja escravo, aos olhos de um homem de prol, vale muito menos do que quase nada”. Ele é apresentado como o homem-da-cobra, porque, para realizar as vigílias noturnas, tem que levar uma jiboia pendurada ao pescoço e travar com ela um duelo de sobrevivência: ele aperta o pescoço dela para não ser asfixiado, enquanto a cobra, por sua vez, suporta o desconforto na espera que o humano, caindo no sono, possa afrouxar a mão e ser vencido. Tal artifício servia para que as sentinelas ficassem acordadas a noite toda. Qualquer descuido e a asfixia era certa. Caso a cobra desaparecesse ou morresse, o vigia também pagava com a morte. Não bastasse a extravagância dessa função, o narrador nos conta que foi castrado por vingança num caso de briga e bebedeira. O interesse por mulheres e pela boemia foi substituído pela mansidão e desejo de saber sobre os acontecimentos que se desenrolam ao seu redor, mesmo os mais comezinhos. Sua aparente discrição revela-se na verdade um disfarce para apreender os segredos e artimanhas, tanto dos poderosos quanto das pessoas que os cercam. E tal narrador, embora queira colocar-se como altamente confiável, diz que faz algumas alterações pequenas no que é relatado: “Fica, portanto esclarecido ainda que inúmeros fatos que presenciei ou de que obtive informações fidedignas, dos quais não me separa nenhum viés de dúvida, não tive, no entanto, o pudor de lhes aplicar reparos de adequações, retirar as cascas supérfluas, lixar os calos e disfarçar as manchas […] de sorte a ganhar encaixe, proporção, coerência, harmonia, beleza apreciável”. É pela ótica satírica desse narrador-pícaro que vamos fazendo o percurso da leitura, na qual o sarcasmo vai desconstruindo a aparente formalidade e as boas intenções dos personagens e situações.

Percebe-se que para a composição da obra o autor realizou uma intensa pesquisa historiográfica e de costumes da época, como na descrição das doenças e das paisagens, instrumentais, alimentação e demais componentes de uma ficção histórica. Porém, a paródia que permeia o enredo mostra que a intenção do autor não é uma transposição literária da História, mas sua reinvenção crítica e bem-humorada. Há elementos de dois mundos constituindo essa obra: o solene e o carnavalesco. Assim, o ritmo da narrativa é lento, a linguagem é por vezes prolixa, difícil, com grande número de vocábulos eruditos, beirando ao barroco. As descrições pormenorizadas do ambiente e estilo de vida parecem ter o intuito de dar maior verossimilhança à narrativa e compactuar com os entraves naturais enfrentados pela caravana. É como se o estilo da escrita acompanhasse o ritmo e os desafios dos viajantes e exigisse uma cumplicidade do leitor que também deve passar por eles. Por outro lado, embora o autor (por meio do narrador) use um estilo rebuscado, ele utiliza, ao mesmo tempo, expressões chulas, palavrões ou gírias do goianês moderno, o que desmorona toda a sequência clássica e confere um tom inovador ao texto, mesclando assim, intencionalmente, o moderno ao antigo, o vanguardista ao clássico. Exemplos das intervenções modernas são: paráfrases, invenção de ditos populares ou o uso de ditados populares contemporâneos: “cão chupando mangaba”; “quanto mais se agacha, mais se mostra a bunda”; “pagando bem, meu bem, que mal tem?”, “a mulher mais coisa de doido do lugar”; “Pelo peixe que é, o molho está passando de bom”, “É preciso ainda que o tal cavalo não seja troncho, refugador, peidorreiro, frouxo, cambaio…”.

Edival Lourenço: escritor | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Para além da paródia, há momentos em que temos um trabalho estilístico muito bonito na construção de descrições metafóricas, como no trecho da página 204, que descreve a manhã indo para sua metade; na p.138, na descrição de um personagem comparado a um morcego “em sua inteireza lembra um morcego morto, deixado secar ao sol”; na p. 131, com a descrição da alegria das mulas após um descanso; ou na página 147, no trecho sobre os dias passados, que só são bons quando vistos no futuro. Ao mesmo tempo, assim como Guimarães Rosa, Edival faz uso de neologismos como “jabutido em paramentos de cobre”, e “jabute-se na própria carapaça”.

A sátira e a ironia também estão presentes para mostrar a corrupção na Igreja e no Estado, para trazer leveza ao texto e até para formar alguns aforismos: “Nada de ficar tolerando mineradores que trabalham pouco para não ficar rico depressa, só para economizar pobreza”; “É preciso causar tal impressão que se tivesse como ser a melhor que ótima, essa é que seria a boa”; “Ainda o quanto antes é preciso definir nossas opções de como vamos gastar o tempo, que o tempo já tem definido as suas de como vai gastar a nós”; “Mas toda lamentação, assim como o arrependimento, é tardia e como tal ineficaz.”; “Vá vossenhor tentar entender o espírito humano. Sobretudo quando esse humano tem lá o seu avantajado quinhão de espírito de porco”.

Sobre a composição dos personagens, todos são vistos com olhar crítico e cínico pelo narrador, menos o capitão-general Dom Luís, típico representante dos sangue-azul, que é o único idealizado, reunindo as características de um herói da escola Romântica, pois traz em si tanto a calma, a generosidade e o espírito pacificador de um homem temente a Deus, ex-padre que é, quanto a força, o espírito estoico de um guerreiro, ex-capitão de cavalaria, além da ambição para a conquista do ouro para o Rei e para si, seu objetivo maior nas minas goianas. Nem o narcisismo escancarado, nem a malícia própria dos governantes corruptos, são colocados como defeito do protagonista, mas sim como uma qualidade administrativa, uma esperteza governamental. Em várias cenas temos exemplos da força de corpo e alma do protagonista, como na expressão um “Aquiles com calcanhar de aço”. Entretanto, a cena em que a camisa de Dom Luís é manchada por uma bola de estrume atirada por um coice de cavalo, essa mancha parece anteceder de forma metafórica outra mácula da biografia do personagem. Ou seja, o autor, através de seu narrador, cria mais uma desconstrução, o que é mais uma mostra da modernidade da obra, já que a literatura moderna não gosta tanto das idealizações.

Nos trechos que descrevem a preparação para a guerra dos índios Caiapós contra os homens brancos e a profecia de Zuca Macumbela, paira no ar, para o leitor, a promessa de um grande conflito. Porém, tal promessa não se concretiza e o clímax esperado não ocorre. Talvez o clímax da obra se dê no final do livro, quando o protagonista se vê diante de um drama psicológico. Fica para o leitor a tarefa de concluir a história, tentando imaginar o que teria acontecido depois, confirmando o que disse Joseph Conrad: “o autor só escreve metade do livro. Da outra metade, deve ocupar-se o leitor.” Aliás, o fato de terminar como obra aberta é outro contraponto para o aparente arcaísmo de “Naqueles Morros”.

Ao conseguir o sucesso no prêmio Jabuti e no Jaburu com esta obra grandiosa, percebemos que há espaço para todo tipo de narrativa, contando que exista um trabalho primoroso na escrita e uma originalidade na concepção, que no caso do livro se dá pelo diálogo com a modernidade e nessa desconstrução carnavalesca da História e das personalidades que a escrevem. Uma obra que figura entre as maiores da literatura goiana.

2 respostas para ““Naqueles Morros, Depois da Chuva”, a epopeia literária de Edival Lourenço”

  1. Avatar Iraides Barbosa disse:

    Mais uma análise impecável de Simone Athayde. Agora entendemos melhor a razão da premiação da obra primorosa, assim como essa narrativa de mais um talento do Estado de Goiás.

  2. Avatar Rosy Cardoso disse:

    Maravilhosa sua observação de detalhes dessa grandiosa obra Simone.

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