Na contramão de Kubrick, mineiro condena a violência de mãos dadas com a civilização

Matheus Moura faz, em seu romance gráfico, o que Coetzee não fez: explicita sua militância a favor dos chamados Direitos dos Animais

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Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

No início do clássico de ficção científica “2001 –– Uma odisséia no espaço”, de 1968, o cineasta Stanley Kubrick, dentre outras coisas, mostra a íntima relação que houve entre o consumo de proteína animal, a violência e a evolução biológica e técnica do que viria a ser a raça humana. A tese de Kubrick é simples e definitiva: nos primórdios da humanidade, os hominídeos que vagavam pelas estepes africanas eram tanto caça quanto caçadores. Aprender a matar com mais eficiência, tanto animais quanto outros hominídeos de grupos rivais, fazia a diferença entre triunfar ou fracassar na constante corrida pela sobrevivência. Para Kubrick, que voltou a defender tal perspectiva em obras-primas como “Laranja Mecânica” e “O Iluminado”, a violência anda lado a lado com a civilização, muitas vezes fomentando-a a partir de complexas teias de relação destruição/criação.

Em “2001 –– Uma odisséia no espaço”, matar e devorar outros seres vivos representou um pequeno passo para o “homem”, mas um grande passo para a humanidade. Nesse sentido, o pacifismo, e por extensão o vegetarianismo, existem como um efeito a posteriori desse processo. Luxos herdados pelas novas gerações, que não precisaram passar pela experiência de serem caçadas em estepes africanas.

No romance gráfico “O.R.L.A.”, que o roteirista mineiro Matheus Moura lançou em 2014, numa parceria entre as editoras Reverso e Quadrinhó­pole, sob patrocínio do Progra­ma Municipal de Incentivo a Cultura de Uberlândia, temos uma narrativa que vai à contramão da tese kubrickiana.

Sua posição filosófica, artística e ideológica é inegociável: o consumo de proteína animal, ou mesmo qualquer participação na cadeia produtiva que fomente isso, é indesculpável, devendo ser condenada e, se possível, punida. Diferente de Kubrick, aqui a violência não é mostrada como um fenômeno que existe por si só. Ou são ações terríveis que ilustram a barbárie hu­ma­­na ou, ao contrário, são atos cometidos por anjos exterminadores que se esforçam para recuperar a utópica paz antediluviana, justificando, talvez de modo inconscientemente maquiavélico, os atos pelos fins. Certamente é uma posição dualista, colocando carnívoros como maus e vegetarianos como bons, mas, acima de tudo, é, embora Matheus Moura de alguma forma se esquive no texto de apresentação, uma posição militante.

Está claro que “O.R.L.A.” só poderia ser escrito por um defensor apaixonado dos chamados Direitos dos Animais. Não necessariamente pela escolha do tema, mas em função de sua abordagem, pela construção dos diálogos e apresentação das motivações dos personagens.

Esse conjunto torna explícita a filiação do autor –– diferente, por exemplo, da novela “A vida dos animais”, do escritor sul-africano J. M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003. A gênese dessa narrativa é significativa. Coetzee foi convidado para proferir uma série de conferências na Universidade de Princeton, mas, ao invés de apresentar uma palestra tradicional, optou por ler para o público a história fictícia de uma escritora chamada Eliza­beth Costello. Ela, que foi convidada a ministrar uma série de conferências em uma grande universidade norte-americana, decidiu apresentar à plateia suas preocupações com os maus tratos sofridos pelos animais. A fala foi recebida com constrangimento e certa condescendência.

No romance gráfico “O.R.L.A.”, a posição filosófica, artística e ideológica de Matheus Moura é inegociável / Cleiton Borges

No romance gráfico “O.R.L.A.”, a posição filosófica, artística e ideológica de Matheus Moura é inegociável / Cleiton Borges

Na palestra dentro da palestra, Coetzee, um autor bastante discreto na vida pessoal, mas reconhecido por suas preocupações ambientais, optou por apresentar a situação de forma multifacetada, problematizando e até mesmo ironizando a fala engajada de sua alter ego e as reações suscitadas por ela. A estratégia literária de produzir esse jogo de espelhos diluiu seu aspecto de pregação ideológica, camuflando a militância pura ao mesmo tempo em que fortaleceu o escopo do assunto em si, valorizando-o enquanto tema e não como valor moral, numa dinâmica sofisticada que obriga o leitor a se esforçar para decifrar as intenções do autor.

Em “O.R.L.A.” não existe espaço para tais sutilezas, no que parece ser uma opção estética consciente de Matheus Moura. Mais do que discursar, seus personagens metem bala. Não por acaso o enredo é focado na ação de um grupo de ambientalistas radicais autointitulado O.R.L.A., sigla para Organização para Reabilitar e Libertar Animais, livremente inspirado na inglesa A.L.F. (cuja sigla se traduz para o português “Frente de Libertação Animal”). Tudo gira em torno da invasão de um laboratório de pesquisas que utilizam animais como cobaias e os desdobramentos imediatos desse fato.

Apesar de o aspecto ideológico ser o elemento motivador da obra, seu fio narrativo segue as convenções básicas das histórias policiais, com muita correria, tiroteios, incêndios criminosos e alguma investigação e intriga. Nesse espírito, os personagens são esquemáticos. Temos o protagonista rebelde e idealista, o amigo gordinho, o torturado inquebrável, o malvado cientista careca de óculos e cavanhaque que diz “excelente”, a advogada sedutora, a infiltrada que se deixa agredir, o vilão covarde, o tira bom e o tira mau, etc. É possível que essa obediência à receita padrão do gênero policial tenha sido uma estratégia dos autores para produzir um chamariz ao leitor médio, que, em principio, talvez, não se interesse pelas aventuras de um grupo de heróis ao mesmo tempo sanguinário e politicamente correto. Afinal, desejam tratar de um tema: os Direitos dos Animais. A aventura almeja ser o pacote, não o conteúdo.

A validade ou não dos argumentos dos militantes pelos direitos dos animais não é o foco dessa crítica, mas a maneira como foram utilizados na narrativa. Nesse aspecto, parece-me que a HQ prega para já convertidos. Isso ocorre porque os membros da O.R.L.A. parecem ser demasiadamente amadores, inconsequentes e sanguinários. Dife­rentes dos inspiradores da A.L.F., que evitam colocar vidas humanas em risco durante suas ações, a O.R.L.A. não tem pudores em matar a sangue frio e torturar com visível sadismo. Parecem se esquecer de que, do ponto de vista da biologia, o ser humano também é um animal, um primata; e, na natureza, primatas matam. Parecem que condenam o ser humano por sua racionalidade. Uma vez racional deve-se estar fora do jogo mortal que é a existência na natureza.

Pensando a partir de uma lógica jurídica, a O.R.L.A. retroage as bases da justiça às leis de Talião, “olho por olho, dente por dente”. Se cegou o olho de um animal, terá seu olho cegado; se arrancou o dente de um animal, terá seu dente arrancado. É bem provável que tais atitudes façam delirar a parcela mais radical dos leitores vegetarianos, sedentos por justiceiros. Porém, com esse perfil de terroristas vulgares, dificilmente conseguirão cooptar a simpatia dos vegetarianos mais equilibrados e ainda menos dos leitores carnívoros ou onívoros, mas sem opinião formada, que consomem proteína animal por puro hábito.

Reforça essa impressão o fato de chegarmos até a última página do livro e percebemos que a letra R da sigla O.R.L.A. não foi posta em prática. Nossos heróis aparecem usando máscaras de animais, sacrificando-os, mas, em momento algum vemos sequer um animal sendo reabilitado. A opção por priorizar a intriga e a ação não deixou espaço para humanizar os personagens, mostrando-os em relacionamentos diretos e afetivos com os animais. Sem isso o leitor é levado a duvidar da sinceridade dos ativistas, que ficam parecendo mais viciados em adrenalina do que legítimos ambientalistas preocupados com o destino dos bichinhos indefesos e torturados que pretendem resgatar.

Onde adquirir “O.R.L.A”: Na loja de quadrinhos Hocus Pocus, Avenida Araguaia, 957, Goiânia. Ou, então, pelo site www.ugrapress.webstorelw.com.br/products/o-dot-r-l-dot-a-liberdade-aos-animais

Onde adquirir “O.R.L.A”: Na loja de quadrinhos Hocus Pocus, Avenida Araguaia, 957, Goiânia. Ou, então, pelo site www.ugrapress.webstorelw.com.br/products/o-dot-r-l-dot-a-liberdade-aos-animais

De modo geral, o tom da HQ é bastante didático. Em diversos momentos os personagens param o que estão fazendo para explicar detalhes mórbidos das práticas, lamentavelmente, comuns em laboratórios e na indústria da carne. Percebe-se que foi feita uma tentativa de se incluir tais falas de modo natural nos diálogos e, embora as informações apresentadas sejam interessantes, nem sempre estão inseridas de modo orgânico na narrativa. Um exemplo ocorre quando o grupo entra numa sala repleta de cães. Um dos invasores observa: “Aquela sala está cheia de beagles. Falando nisso, alguém saberia dizer o porquê da preferência no uso de cães dessa raça para experiências?”. Segue-se uma explicação professoral e enciclopédica.

O que torna a situação inverossímil é tanto o contexto quanto os personagens da cena. Um ativista envolvido ao ponto de aceitar participar de uma ação extrema como aquele deveria saber a resposta da própria pergunta. Do contrário seria um incompetente inaceitável para a missão.

Esse desejo de mostrar o resultado da pesquisa realizada para confecção da HQ rende até alguns momentos de humor involuntário. Por exemplo: numa cena um dos ativistas recusa um chocolate porque seu rótulo informa que ele foi colorido artificialmente a base de insetos. O que deveria ser interpretado como idealismo abnegado ganha ares de obsessão neurótica. Ficamos imaginando-o como um tipo folclórico, ao estilo de certas apologias sobre São Francisco de Assis que defendiam que ele se recusava a apagar fogueiras, para não matar o “Irmão Fogo”, e pedia desculpas quando pisava na “Irmã Pedra”.

O romance gráfico é ilustrado, possivelmente por questões logísticas, por três artistas: Caio Majado, Rafael Vasconcellos Leite (Abel) e Joniel Santos. Esse expediente muito comum no quadrinho comercial, em função da velocidade fabril com que é produzido, precisa ser analisado com cuidado no quadrinho autorais. Nesse caso, os estilos diferem bastante entre si.

Majado possui um traço limpo e até certo ponto cartunesco, com ritmo sequencial mais tradicional. O estilo de Abel é forte, com ampla utilização de contraste claro e escuro. Sua divisão de quadros é bastante arrojada, dando sensação de urgência e claustrofobia, enriquecendo as propostas do roteiro. Joniel Santos desenhou o prólogo e o epílogo. Seu traço é deliberadamente sujo, sem deixar de ser detalhista. Chama atenção seus enquadramentos e cortes de cena cinematográficos.

Essa variação de traços, embora evidencie a qualidade desigual da arte em cada capítulo, não compromete. O maior problema nesse sentido foi certa dificuldade na identificação de alguns personagens nas diferentes interpretações de cada artista. Exige mais atenção do que seria ideal, prejudicando um pouco o fluxo de leitura. Fluxo esse que é bastante ágil, embora cronologicamente confuso nas páginas finais, deixando algumas pontas soltas. O que talvez se explique em função do livro indicar que possivelmente haverá continuações. Essas pontas soltas poderão ser atadas futuramente.

Enquanto a parte dois não aparece, Matheus Moura deixou os leitores com uma ampla quantidade de extras: estudos de personagens, trechos do roteiro original, galeria de pin ups, sugestões de livros e filmes, diversos textos, etc. Destaque para o ensaio “Quadrinhos e Direitos dos Animais”, assinado por Matheus Moura e Gian Danton, uma boa introdução ao tema. O mesmo não pode ser dito sobre o artigo “Vivissecção”, composto por trechos de um trabalho acadêmico maior, de autoria de Natalie Neuwald, que é nitidamente partidário e controverso em suas conclusões, o que se evidencia pela bibliografia “chapa branca” utilizada, devendo ser lido com bastante senso crítico. Mas é um detalhe menor em um livro que, em seu conjunto, é interessante e, sobretudo, relevante no debate no qual se insere.

Para fechar, destaco o curioso detalhe de que em “O.R.L.A”, apesar de ocorrerem dois ataques a um laboratório de pesquisas, não vemos nenhum animal sendo efetivamente resgatado. Se ocorreu, não foi mostrado. O que é lamentável concluir é que, apesar de tudo, apesar de todas as barbáries cometidas ali, talvez essa seja uma boa notícia. Afinal, no filme “Extermínio” (2002), de Danny Boyle, o apocalipse zumbi começou com um ataque cheio de boas intenções a um laboratório de pesquisas. Provavelmente, nessa realidade alternativa os membros da O.R.L.A., transformados em zumbis sem consciência ecológica, acabariam se devorando mutuamente.

Ademir Luiz é doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG), nos cursos de História e Arquitetura e Urbanismo. Docente do programa de mestrado interdisciplinar Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (TECCER). Pós-doutor em Poéticas Visuais e Processos de Criação pela Faculdade de Artes Visuais (FAV/UFG). Email: [email protected]

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