Claudio Willer morreu na sexta-feira, 12, aos 82 anos. Intelectual de amplas ambições culturais, era poeta, tradutor, ensaísta e professor de literatura.

O trabalho de tradutor de Claudio Willer por certo obscureceu, ao menos em parte, o poeta.

Graças a Claudio Willer, os leitores brasileiros têm a obra de Lautréamont, um autor-enigma, traduzida, e muito bem, para o português. Não só. O bardo patropi também ajudou, assim como Leyla Perrone-Moisés, a explicá-lo, e até a decifrá-lo, para os não especialistas.

Claudio Willer também traduziu o dramaturgo francês Antonin Artaud, “louco” de tanta genialidade, o poeta Allen Ginsberg e o prosador Jack Kerouac. “Geração Beat” parece um livrinho, mas, ao relatar com clareza e amplitude o que foi a, digamos, Revolução Beat, Claudio Willer acabou por brindar os leitores com um livrão. Uma pequena bíblia, digamos assim. Vale conferir também “Os Rebeldes — Geração Beat e Anarquismo Místico”.

Há também a porção acadêmica de Claudio Willer, autor de uma tese de pós-doutorado com o título de “Religiões Estranhas, Misticismo e Poesia”.

Num artigo para a “Folha de S. Paulo”, Reynaldo Damazio assinalou: “Willer encarou a poesia como ato de rebeldia da consciência, da linguagem e de comportamento, atento para ‘a sensação lisérgica de estar aí’, presente na vertigem do mundo e suas contradições. Ao lado de Roberto Piva, Eunice Arruda, Lindolf Bell, Neide Arcanjo, Roberto Bicelli e Carlos Felipe Moisés, atuou como articulador de poetas da chamada geração 1960, em diálogo vivo com a obra de surrealistas e beats, atravessados pela realidade em desconstrução do período obscuro do regime militar”.

O poema abaixo foi mencionado por Reynaldo Damazio na “Folha”.

À tarde

Claudio Willer

“olhar com o olhar espantado

o voo do primeiro pássaro noturno

e saber que em breve

haverá algum tipo de confronto

de alucinação coletiva, uivo geral

saber

que por trás do olho

guardamos uma planície de risadas

dobrada em algum desvão da alma”

(do livro “Jardins da Provocação”)