Miragem, a história de um crime passional em São Paulo

Livro de estreia de Cláudio Sérgio Alves Teixeira desnuda o clima de uma delegacia paulistana e de seus integrantes, ao relatar o assassinato de uma bela ruiva

Mariza Santana

“Quid est veritas?” Traduzindo do latim, esta pergunta significa: “Qual é a verdade?” Atualmente mais utilizada como termo jurídico, a frase pode ser o ponto de partida de uma investigação criminal, principalmente quando se trata de um assassinato. Este é o tema do livro “Miragem”, obra de estreia do escritor paulista Cláudio Sérgio Alves Teixeira. Ele exerce o cargo de promotor de justiça em seu Estado desde 2007.

O romance conta a história da morte da jovem Tarsila Blath, de 22 anos, provavelmente assassinada pelo seu amante, um rico senhor que estava prestes a completar 70 anos. De imediato, o leitor fica sabendo que foi um crime passional semelhante a muitos outros. A ruiva, apresentada como dona de uma beleza indescritível e um de corpo fenomenal, certamente não estava mantendo um relacionamento amoroso com o empresário aposentado Salomão Laranjeiras por causa de seus belos olhos, mas sim devido a sua conta bancária recheada de cifras elevadas.

Entretanto, o crime passional é só o fio condutor do romance, que conta ainda com a participação dos seguintes personagens: o delegado John H Wolf II, cuja origem do seu nome já é um mistério; a escrivã de polícia Maria de Fátima e seu drama familiar; o policial militar André Huckemberg, mais conhecido como Hulk; além de outros com menor participação no drama, porém decisivos para o desenrolar da estória.

Conhecedor do ambiente de uma delegacia de polícia, Cláudio Sérgio traça uma narrativa envolvente, na qual a vida, as expectativas e a desilusões dos personagens vão se entrelaçando, e dando rumo às ações. Isso porque, de um jeito ou de outro, elas têm algum tipo de relação com o homicídio da jovem ruiva fatal; e ainda explicam a atitude suicida do velho empresário e o desempenho do policial militar no local do crime.

Cláudio Sérgio Alves Teixeira: escritor e promotor de justiça | Foto: Divulgação

“Miragem” é um romance fácil de ler, com muitos diálogos, o que garante a fluidez da história relatada pelo escritor. Alguns erros de revisão aparecem aqui e ali, mas nada que atrapalhe a compreensão do drama policial paulistano que vai tornando novos contornos para explicar a motivação dos personagens. Até culminar no chamado sad ending, ou seja, no final infeliz, que nesse caso já é descrito no início da obra: o homicídio de Tarsila na casa de um condomínio de luxo, do qual ela era assídua frequentadora, embora não morasse lá.

O experiente delegado fica chocado com o crime, embora já tenha realizado inúmeros inquéritos em sua carreira policial. Mas para a escrivã, peça-chave dentro do mecanismo da delegacia de polícia, são somente algumas novas oitivas a serem realizadas. O policial militar, por outro, está mais envolvido nos acontecimentos do que se deveria supor de início.

Não faltam ainda referências à corrupção envolvendo o setor privado e gestores públicos, já que Salomão Laranjeiras era um rico empresário cujos negócios prosperaram devido a essa relação espúria entre setores público e privado, tão comum no Brasil.

O livro “Miragem”, portanto, reflete o momento atual do País, em todas suas misérias e vicissitudes, sem retoques. O desfecho do romance consegue ser coerente com o que vemos diariamente na nossa pátria amada.

Mariza Santana é jornalista e crítica literária. E-mail: [email protected]

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