Mercado de artes visuais oscila na crise

Enquanto a economia brasileira patina no atoleiro das indecisões políticas, afetando vários setores de consumo, galerias de alto padrão mantêm-se aquecidas, mas os médios e pequenos artistas se viram como podem

Rodrigo Godá: “Ouço falar das dificuldades, mas, mesmo na crise, quem gosta de arte pode até diminuir, mas não deixa de consumir”

Em virtude da crise econômica vivida pelo Brasil nos últimos tempos, o mercado de arte em Goiânia reflete em partes essa agonia. Os artistas goianos que atingiram o coração da elite consumidora, que vendem suas obras em galerias de alto padrão, passam relativamente bem.

Já os que ainda batalham para conquistar espaço ou estão começando agora, estes sentem mais de perto a escassez de procura, mas não entregam os pontos. Criativos, buscam soluções alternativas.

“O mercado se adequa a questões econômicas do mo­mento. Hoje, há uma desconfiança, mas ele volta. Cole­cionadores habituais e aqueles que têm padrão de vida alto sempre vão estar comprando obra de arte.” A declaração é de Alexandre Liah, professor e coordenador da Escola de Artes Visuais (EAV), ligada à Secretaria de Estado da Cultura (Secult).

Liah já é um artista badalado. Tem quadros rodando o mundo, e já participou de exposições em países como Alemanha, França e Holanda. Também foi vencedor do prêmio BEG com sua obra exposta na sala Gercina Borges, no Palácio das Esmeraldas.

Sobre o mercado, ele argumenta que o segredo do negócio é nunca estar parado. “Inclusive, pretendo realizar uma exposição ainda este ano com obras maiores”, comenta.

Rodrigo Godá é outro artista de Goiânia que está nas grandes galerias. Já expôs seus trabalhos no Chile, em Cuba e na França, e acredita que o mercado nunca fecha as portas completamente. Ele segue a linha de raciocínio de Alexandre Liah. “Ouço falar das dificuldades, mas, mesmo na crise, quem gosta de arte pode até diminuir, mas não deixa de consumir”, avalia.

Apesar de enxergar um campo aberto para o consumo, Godá diz que não está focado em novas exposições no momento. “Atualmente, estou voltado para a produção de uma nova série de trabalhos com os mesmos materiais, mas em dimensões pequenas.”

O longo caminho

A pintura digital incrementa o portfólio de David da Luz: “Feita com programas como PhotoShop, a técnica é pouco conhecida, às vezes sem a valorização devida, mas a produção leva o mesmo tempo que o da mídia tradicional”

Como em qualquer mercado, o trabalho e a persistência são os pilares da conquista de espaço. Segundo Marcelo Solá, artista com mais de 20 anos de carreira, começar a vender é um longo caminho, mas para quem leva a sério, as portas acabam se abrindo, independentemente do cenário econômico. “Não me preocupo muito com a questão das vendas – faço primeiro por um desejo pessoal. Meu desenho é a forma de me comunicar com o mundo e, quando isso acontece, as vendas vêm naturalmente.”

Solá, que diz pensar em arte 24 horas por dia e já realizou exposição em cidades como Miami e Nova York, observa que o mercado de arte acaba sofrendo as consequências da “confusão” do país. Experiente, ele fala da relativa estabilidade do mercado, fazendo ressalvas: “As pessoas que compram arte e possuem um poder aquisitivo maior continuam comprando, mas, em geral, as vendas realmente têm diminuído.”

Ele ainda lembra aos artistas da nova geração, ou a quem esteja com dificuldade para vender suas obras, que a arte brasileira está cada vez mais valorizada no exterior. Neste sentido, há um mercado latente. “O mundo está de olho na arte produzida na América Latina, e o Brasil é uma das bolas da vez”, comenta.

Intermediário
Proprietário da “Menor Galeria do Mundo”, PX Silveira trabalha com exposições, projetos especiais e leilões, sempre na busca de algo novo, a fim de atrair o cliente. “Com a crise, o artista de preço mediano é o que mais sofre”, diz PX. Ele compara o momento em que começou com o atual, para quem está no início da carreira. “Goiânia vivia um boom de galerias em 1984, e nós conseguíamos cobrir todos os custos. Hoje, isso é muito mais difícil”.

O artista conta que tem uma exposição agendada para o primeiro semestre do ano que vem sobre Tai Hsuan-an, que deve ocorrer paralelamente no Museu de Fichuan, na China. Sua informação é praticamente uma dica a quem está oscilando. Para PX, os artistas da nova geração precisam tornar suas obras visíveis. “Existe a ilusão de que a galeria faz o artista, mas é ele quem tem de se fazer por meio de exposições e participações em projetos sociais. A galeria apenas mantém essa visibilidade”, ensina.

Nova geração

David da Luz: “Venho de uma escola realista de pintura, e depois que entrei para o design, passei a olhar mais para outros tipos de arte”

A nova geração de artistas é a que mais enfrenta dificuldades, pois precisa disputar espaço com profissionais que estão no mercado há muito mais tempo. Mas eles também sabem se virar. Para isso, focam no trabalho em grupo, divulgação na internet e em inovações tecnológicas.

Alexandre Gontijo atua nessa área há cerca de oito anos. Já realizou exposições na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás e no salão do Sesi, que, segundo ele, possui uma sensibilidade para “o artista mais iniciante”. A impressão de Alexandre é a de que o mercado, para os iniciantes, está difícil. “O público que consome arte está um pouco retraído por causa da crise, e quem tem dinheiro prefere comprar de alguém que já esteja com o nome no circuito.”

Se os espaços estão restritos, deve-se pôr o espírito de artista para trabalhar na criatividade de soluções. A nova geração se vira como pode. “Venho de uma escola realista de pintura. Depois que entrei para o design, passei a olhar mais para outros tipos de arte”, sublinha David da Luz, que está no mercado há seis anos, e utiliza a pintura digital para incrementar seu portfólio.

Apesar da oscilação do mercado, em uma coisa todos estão de acordo. É preciso ir para a rua, ganhar os espaços que existem, sejam físicos ou virtuais. Demonstrar profissionalismo é essencial para qualquer um. As portas acabam se abrindo.

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