Mario Vargas Llosa mostra que a cultura está a serviço do espetáculo

Em “A Civilização do Espetáculo”, Mario Vargas Llosa nos mostra, numa escrita fluída, como a pós-modernidade transforma as pessoas em meros reféns do capitalismo de consumo e da indústria do entretenimento

Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literatura e considerado um dos mais importantes escritores da atualidade

Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literaturae considerado um dos mais importantes escritores da atualidade

Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção

Era para ser mais um dia frio como tantos outros dias frios do inverno francês. Desci do metrô na Praça San Michel, no coração do bairro da intelectualidade parisiense: o Quartier Latin. De lá, enquanto caminhava apressadamente rumo às livrarias do Jardim de Luxemburgo, bem perto da Sorbonne, veio um ônibus vermelho com uma enorme propaganda que logo me chamou a atenção. “Saiu o novo livro de Paulo Coelho”, dizia o letreiro. Mais atento, pude perceber que a propaganda se repetia nos coletivos. Não em um, dois, três — enfim: vários deles estampavam em letras garrafais a chegada dos escritos do mago como se fosse um espetáculo.

Ao testemunhar esse acontecimento em plena terra de Voltaire, ocorreu-me uma ideia: já que estou de férias na cidade luz, por que não descobrir por que Paulo Coelho está entre os autores que mais vendem livro no mundo? Liguei para meu editor em Goiânia, e ele entusiasticamente me autorizou a elaborar a reportagem.

Permissão concedida, coloquei-me a caminhar pelas livrarias. Fiz isso em Paris, repeti o procedimento em Madri e Barcelona. Depois de tanto andar e conversar com funcionários das livrarias, constatei que o fenômeno Paulo Coelho era mesmo verdadeiro: seus livros vendem aos montes em todos os lados da Europa.

Constatado o fenômeno, veio-me a grande dúvida: por que o marido da artista plástica Cristina Oiticica faz tanto sucesso? Sei que ele não faz grande literatura. Sei que não é e nem de longe será Machado de Assis, Guimarães Rosa, James Joyce ou um Marcel Proust. Decidi­damente, Paulo Coelho não é um autor feito para transcender à morte. Irá como se vão as areias do tempo. Mas ele vende, vende mais que qualquer um desses ícones — verdadeiros patrimônios da humanidade.

Com esse pensamento na cabeça, pus-me a consultar quais eram os dez livros mais vendidos do mundo. Em primeiríssimo lugar, como não poderia deixar de ser, está a “Bíblia”. Nenhuma surpresa. Como também não foi nenhuma surpresa saber ser o “Livro Vermelho”, escrito por Mao Tsé-Tung, o segundo colocado. Um livro de comunista, escrito pelo líder da nação mais populosa do mundo.

As surpresas começaram a surgir a partir do terceiro colocado. Na lista, ainda, estavam “Harry Porter”, “O Código da Vinci” e, em quinto lugar, “O Diário de um Mago”, de Paulo Coelho. De fato: do terceiro ao décimo colocado só tinham na lista livros da chamada “literatura light”. Best-sellers concebidos para satisfazer as necessidades do momento, mas jamais feitos para vencer as areias do tempo.

Confesso que ver autores do porte universal de Shakespeare, Proust, Joyce, Borges, Vargas Llosa ou até mesmo Gabriel García Márquez fora dessa lista me doeu o coração. Autores eternos, com escritos eternos, perdendo espaço para a literatura do entretenimento, volátil como o álcool, concebida para ser consumida e desaparecer. Nunca perdurar.

Atento a essa realidade, um autor de primeira grandeza resolveu, para quem se delicia e sempre revisita seus clássicos escritos, no esplendor de sua maturidade intelectual, dar um tempo em seus escritos literários. Nessa perspectiva, mudou o foco e escreveu um belíssimo ensaio a respeito dessa cultura volátil que hoje presenciamos, em uma era que se conhece como sendo a pós-modernidade.

Trata-se de um de meus escritores prediletos, laureado e reconhecido internacionalmente com o Prêmio Nobel. Peruano de nascimento, mas cosmopolita por vocação. Que o digam seus escritos verdadeiramente literários. “Conversa na Catedral”, “A Festa do Bode”, “A Guerra do Fim do Mundo”, “Tia Júlia e o Escrevinhador”, “Pantaleão e as Visitadoras” — enfim: livros que relatam tudo que se propõe a fazer a literatura de primeira qualidade: tornar o ser humano melhor.

Em “A Civilização do Espe­táculo”, o autor de “A Cidade e os Cachorros” nos mostra, numa escrita fluída, o canto das sereias, que é a pós-modernidade. Nesta, inexiste o transformar do indivíduo por meio das artes para se transformar num mero objeto refém do capitalismo de consumo. Posto isso, proponho aos leitores destas linhas que, juntos, mergulhemos mais a fundo neste emocionante debate que se propõe “A Civilização do Espetáculo”. Trata-se de uma verdadeira radiografia de nosso tempo e da nossa cultura.

Em que consiste a civilização do espetáculo?

De que maneira um intelectual do quilate de Mário Vargas Llosa a enquadra no caleidoscópio da história? Comecemos pela sua própria definição do assunto. Llosa a entende como sendo “a civilização de um mundo no onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é o ocupado pelo entretenimento, no qual divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal”.

Mas o que esse conceito representa nos dias de hoje? Resposta: muito, em diferentes campos da chamada era pós-moderna.

A começar pelo próprio exercício da intelectualidade. Ser intelectual exige, antes de tudo, esforço e reflexão. O intelectual, para sobreviver na civilização do espetáculo, tem de se tornar um “bufão”. O que vai para as paradas de sucessos seria, na verdade, os fracassos em mundos anteriores ao da pós-modernidade. Veja-se o culto aos best-sellers (mais vendidos) capitaneados pela literatura light, que não exige nenhum esforço. Os escritores lights constroem suas obras com o mero objetivo de entreter. Não são seus escritos resultantes da reflexão profunda que exige esforço seja dos autores, seja dos leitores.

O leitor desse tipo de literatura não deseja (ou não é capaz) de se esforçar para mergulhar num mundo que necessita ser decifrado. Quanto a isso, convenhamos: não é fácil ler autores como Thomas Mann, James Joyce, William Faulkner ou Guimarães Rosa. Não tenham dúvidas de que o estético e o belo, para serem entendíveis, nos grandes escritores, requerem reflexão e muita transpiração. Só assim se sai maior da leitura do que se entrou. Este é o propósito da grande obra literária: transformar o homem pela palavra.

Por sua vez, a civilização do espetáculo explica o sucesso de pseudointelectuais como são Paulo Coelho e Dan Brown (autor do “O Código da Vinci”). Estes, sustentam-se mediante a mola mestra que impulsiona a civilização do espetáculo: a publicidade. A publicidade induz o navegar em águas não profundas. Nesse sentido, relata Vargas Llosa que esta “exerce influência decisiva sobre os gostos, a sensibilidade, a imaginação e os costumes”. Assim, o que era, antes, explicado pelos sistemas filosóficos, crenças religiosas, ideologias e doutrinas metamorfoseou-se no poder decisivo que tem o marketing no sentido de fazer a cabeça das pessoas na civilização do espetáculo. Quem de nós não pode dizer que a revista “Caras” não cumpre bem seu papel nos dias de hoje?

Para Vargas Llosa a civilização do espetáculo substituiu a alta cultura pelo entretenimento momentâneo de nomes como Andy Warhol e Woody Allen

Para Vargas Llosa a civilização do espetáculo substituiu a alta cultura pelo entretenimento momentâneo de nomes como Andy Warhol e Woody Allen

A civilização do espetáculo também manifesta sua visibilidade na atividade política. Nesse sentido, o que hoje se constata é a banalização cada vez mais intensa dessa atividade nos tempos da pós-modernidade. Basta observar o uso abusivo dos marqueteiros em tempos eleitorais. Se, antes, valores e convicções políticas faziam o sucesso do homem público assim o capacitando para exercer os cargos públicos; hoje, o que de fato conta é o poder da imagem e o que isso representa. É como nos relata Vargas Llosa em seus escritos: “O político de nossos dias, se quiser conservar a popularidade, será obrigado a dar atenção primordial ao gesto e à forma”. É exatamente aí que a publicidade reduz a atividade política a um mero produto de venda de imagens e formas, estas tão voláteis na civilização do espetáculo. Voltaremos ao assunto mais adiante.

O vazio cultural existente nessa sociedade midiática induz cada vez mais a um pseudoturismo, onde a visita flash em torno de museus, a exemplo do Louvre, em Paris, torna-se não uma busca da verdade histórica que permeia obras-primas como a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Os milhares de turistas que para lá vão todos os dias procuram mais dar uma satisfação momentânea do que a busca de reflexões aprofundadas que uma obra de arte representa. Busca-se, na verdade, o significado desconectado do significante. Agindo assim, o que é belo e estético se torna um mero objeto de consumo. Afinal, é chique ir a Paris e visitar museus. Não visitar museus na cidade luz é como ir a Roma e não ver o Papa. Tudo se passa por uma satisfação que as pessoas dão a si mesmas, ante o poder das imagens e o vazio cultural que existe dentro delas.

E o que dizer das telenovelas da Globo, dos shows da cantora colombiana Shakira, do budismo zen, dos filmes de Hollywood. São coisas como essas que fazem parte de uma falsa cultura chamada de “diversão”. Diversão que se aprecia ao sabor do momento, mas que se esvai como a delícia momentânea de comer um sanduíche. Nada disso se relaciona com a alta cultura, cultura essa que se alicerça na vontade expressa do enfrentamento do complexo.

Nesse sentido, foram-se os tempos em que o cinema produzia criadores como Ingmar Bergman, Luchino Visconti ou Luís Buñuel. O que vemos hoje na civilização do espetáculo é o culto a Woody Allen e sua comunicação dentro do cinema desconectada da reflexão. Ou, no campo das artes, não a contemplação do complexo da obra universal de Van Gogh, mas a idolatria de figuras esotéricas como Andy Warhol. Cá entre nós, nada mais esdrúxulo do que o dramaturgo Gerald Thomas se despir em público e mostrar as nádegas para um teatro repleto de espectadores. Coisas típicas das esquisitices de um mundo que nem de longe tangencia a arte de apreciar o complexo.

Por fim, faço a seguinte ressalva: quanto a Woody Allen, vai aqui uma pequena discordância com o grande mestre Vargas Llosa: apesar dos filmes dele trilharem pelos rumos do entretenimento de altíssimo nível, vale ressaltar que eles nos conduzem ao deleite para quem aprecia, como este escriba, seus filmes. Que o diga o delicioso “Meia-Noite em Paris”, um culto à belle époque ocorrida no início do século passado na cidade luz.

E assim se caracteriza a civilização do espetáculo: são tempos em que a verdadeira cultura, a alta cultura, é substituída pelo entretenimento momentâneo que se esvanece com o passar dos anos e não conduz o ser humano a algo precioso para sua evolução: a autotransformação.

O sexo na civilização do espetáculo

A atividade sexual é outro campo no qual se manifesta a pós-modernidade da civilização do espetáculo. Foram-se os tempos em que o erotismo era a negação do sexo fácil. No entender do autor, “o sexo light é o sexo sem amor e sem imaginação, o sexo puramente instintivo e animal”. E acrescenta: “Desafoga uma necessidade biológica, mas não enriquece a vida sensível e emocional, nem estreita a relação do casal para além do embate carnal; em vez de livrar o homem ou a mulher da solidão, passado o ato urgente e fugaz do amor físico, devolve-os à solidão com uma sensação de fracasso e frustração. A civilização do espetáculo ao imantar a liberdade sexual liberta os seres humanos de preconceitos, mas, ao mesmo tempo, restringe a atividade sexual, atividade essa que necessita não da pornografia, mas do erotismo tão necessário para que, sob a influência do privado e não das luzes das ruas, transforme-se”. A atividade criativa inerente ao sexo é compartilhada. E este compartilhamento prolonga e sublima o prazer físico, cercando-o de uma encenação e de refinamentos que o transformam em obra de arte.

Em um mundo permeado pela pornografia que restringe a imaginação do ato sexual, as liberdades sexuais banalizam o ato de fazer amor. Na civilização do espetáculo, o ato sexual conduz ao prazer momentâneo, mas a falta da teatralidade inerente ao erotismo leva o ser humano para a solidão.

No entender do autor de “Conversa na Catedral”, “uma vida imantada pelo sexo, e só por ele, rebaixa essa função a uma atividade orgânica primária, que não é mais nobre nem prazenteira que comer por comer, ou defecar”. Entre nós, a civilização do espetáculo faz do sexo um espetáculo que adentra no cotidiano de nossos lares. Que o digam programas como “Big Brother” ou o fetiche explícito e público da mulher melancia.

E assim vivemos num mundo que faz do sexo pelo sexo um instrumento que conduz ao prazer momentâneo como o de deliciar um bolo Madeleine. O preço que se paga se revela no vazio existencial que se materializa ante a falta de algo que faz do sexo algo sublime: a paixão, o amor e a teatralidade do erotismo.

Política, cultura e poder na era do espetáculo

Uma sociedade vibrante e com consciência política que fazia pulsar a cidadania naquele Brasil dos anos de 1960. Quem se dispor a enfrentar as mais de 770 páginas da seminal biografia do ex-presidente João Goulart, escritas pelo historiador Jorge Ferreira, verá isso.

Deposto Jango, o Brasil se calou ante o autoritarismo que imperou por mais de 20 anos neste país continente. É bem verdade que a nação, a partir do final dos anos 1980, voltou a se abrir para os anseios diretos da sociedade. Mas o dano já estava feito, uma vez que uma geração cresceu acéfala do que seja se organizar para com isso reivindicar suas demandas por meios políticos.

O que vemos hoje na nossa sociedade democrática é exatamente a escassez de cidadania ante a civilização do espetáculo e o que disso resulta: o completo empobrecimento da atividade política. Mas esse empobrecimento não é um privilégio nosso. Os escritos de Vargas Llosa revelam que tal fato vem ocorrendo em todas as partes do mundo, subdesenvolvidas ou não: “No compasso da cultura reinante, a política foi substituindo cada vez mais ideias e ideais, debate intelectual e programas, por mera publicidade e aparências”, enfatiza o autor.

Sem entrar em julgamentos ideológicos, convenhamos: no mundo dos anos de 1960 pipocaram revoluções e agitações políticas imanadas do povo por todos os lados, tendo os ideais de mudar o mundo como principal combustível. A revolução cubana, a resistência a deposição do ex-presidente do Chile, Salvador Allende, e a queda de Jango, no Brasil, são exemplos visíveis da vivacidade das sociedades latino-americanas da época. Pessoas morriam por um ideal sincero de transformação da sociedade.

Hoje, o que de fato conta no jogo político da civilização do espetáculo é a comunicação e a imagem dos candidatos, não suas ideias. O que aparenta ser pesa mais na balança do que o de fato é. E é, por essa razão, que a imagem do espetáculo empobrece uma atividade tão repleta de nobreza como é a atividade política. Esse ambiente afasta gente de valor, mas atrai oportunistas que fazem da política um meio para atingir um fim: o bem próprio, e não o bem comum.

O jornalismo se enquadra como mais uma atividade a deteriorar-se no mundo da civilização do espetáculo. Nesse sentido, a invasão da privacidade se torna a face mais visível na qual inexistem fronteiras entre o que é público e privado. Mais uma vez o mundo desenvolvido e subdesenvolvido encontram um denominador comum. Observar a vida privada do atual presidente da França, outrora um país tão cioso da ética, é um exemplo atual do progresso que vem tendo o chamado jornalismo marrom. E no jornalismo marrom o que de fato vale é o espetáculo. Afinal de contas, é como nos ensina o autor de “A Festa do Bode”: “Haverá algo mais divertido que espiar a intimidade do próximo, investigar os desvios sexuais de um juiz, comprovar que chafurda no lodo quem era visto como respeitável e exemplar?”.

O que se constata nos dias de hoje é que o jornalismo se tornou uma das muitas vítimas da pós-modernidade, em cujo contexto se insere a banalização da cultura que se volta única e exclusivamente para o entretenimento. O divertir, o devaneio ligeiro e superficial se tornou mais importante do que “martirizar o cérebro” com coisas complexas. Só a verdadeira cultura possibilita um mergulhar no complexo do ser humano rumo à autotransformação.

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A religião na civilização do espetáculo

No púlpito a cena se repete: o pregador conduz, numa linguagem simplória, a promessa de chegada ao paraíso. Os templos, abertos dia e noite, recebem fiéis sempre a procura dos confortos para suas dores imediatas. O que era para ser pastoreado se torna espetáculo no qual se promete de tudo. Nesse cenário, fé e razão não se coabitam nem se coabitarão jamais. Ateus como Karl Marx chamam a religião de “o ópio do povo”, justamente porque a busca do paraíso acaba por anestesiar a rebeldia dos espíritos, assim, possibilitando que os patrões vivam tranquilos a explorá-los. Agnós­ticos como Vargas Llosa têm um olhar mais equilibrado quando avaliam os efeitos da religião no mundo da pós-modernidade, um mundo em que a racionalidade não explica a existência de Deus. Afinal, o que é divino passa pelos caminhos únicos da fé. No entender do autor, a função de igrejas e religiões, no desenvolvimento histórico e na vida cultural dos povos, é por onde se pode usar a razão para explicar o progresso ou não de uma nação.

Um bom exemplo deste embate racional pode ser constatado na Turquia e na liderança que levou aquele país mulçumano à modernidade: Atatürk. Conta-nos, em seus escritos, Vargas Llosa que lá, graças a Mustafá Kemal Atatürk, a sociedade viveu um processo de secularização (impulsionado por métodos violentos) e, “há alguns anos, apesar de a maioria dos turcos ser de confissão mulçumana, a sociedade foi-se abrindo para a democracia muito mais que o resto dos países islâmicos”.

Ao avaliar que o eterno conflito entre o capitalismo e a religião, pondera o autor de “Tia Júlia e o Escrevinhador” que essa ideologia política necessita de um freio no sentido de não “provocar transtornos profundos e traumáticos na sociedade”. Para que isso venha a ocorrer aponta, o escritor peruano, a necessidade laica do Estado para que possa assim florescer e prosperar o sistema político que ele, Vargas Llosa, de fato acredita: a democracia.

Nesse sentido, acontecimentos como a proibição do uso do véu nas escolas francesas esconde algo inadmissível nas sociedades democráticas: a discriminação e a inferiorização da mulher. O pano de fundo é este. O véu fere a natureza democrática de um Estado eminentemente democrático como é o caso da França. A árvore necessita ser inserida no todo da floresta para ser de fato entendida.

A reconhecida erudição do autor conduz a quem se dispõe a enfrentar seus escritos ao mundo do cristianismo e o que para este significa a fé cristã ao longo da história: violência nos tempos em que essa religião era de domínio dos pobres e desvalidos; porém, à medida que o cristianismo foi se identificando com as classes dirigentes da sociedade, foi se tornando mais comedido. Nesse sentido, atenta Vargas Llosa que “sua identificação ou proximidade [do cristianismo] com o poder o induziu muitas vezes a fazer concessões vergonhosas a reis, príncipes, caudilhos e, em geral, aos poderosos”.

Enfim, se pudermos resumir o olhar desse grande escritor no tocante à religião, certamente, será possível centrar o caminhar desta, hoje, pelo espetáculo, sim, mas também pelo imenso poder de que dispõe a fé religiosa de se impor a um mundo que se metamorfoseia a passos acelerados. Não tenho dúvidas de que o reconhecido talento do autor de “Conversa na Catedral” vai muito além de seus belos romances. Brilha também ele, como podemos observar, pelos caminhos do ensaio.

É o fim da cultura?

Ao concluir o mergulho pelos escritos deste ensaio, creio ser oportuno tentar responder à instigante pergunta que nos coloca Vargas Llosa como reflexão final: é o fim da cultura?

O esforço de enfrentar o complexo como o “Ulisses”, de James Joyce, ou o calhamaço de mais de 30 mil páginas de “Em Busca do Tempo Perdido” será em vão num mundo em que a cultura se reduz a um mero espetáculo? Até onde a cultura do Google decodifica informações que conseguimos obter sem o menor esforço no simples dedilhar no teclado de um notebook?

Mais: valerá a pena entender obras de artistas como a pintura de Picasso, a música erudita de Mozart ou o teatro de Bertolt Brecht?

Creio que sim. Reforcei ainda mais minha crença embevecendo-me da verdadeira cultura que sábios como Mario Vargas Llosa nos proporcionam. Sou daqueles que recusa o mundo fácil da informação que delicia a maioria dos jovens e não jovens na era da sociedade em rede.

A informação vista como consumo imediato não leva à transformação do ser humano. Sou também daqueles que recusa os livros digitais, pois aprecio “o prazer espiritual da leitura com o prazer físico de tocar e acariciar”. Este prazer só o livro impresso proporciona.

Compartilho ainda da opinião de um dos meus escritores favoritos de que “ler é uma operação que, além de informar sob o conteúdo das palavras, significa também, e talvez principalmente, gozar, saborear aquela beleza que, tal como os sons de uma linda sinfonia, as cores de um quadro insólito ou as ideias de uma argumentação aguda, é emitida pelas palavras unidas a seu suporte material”. Tal prazer só a verdadeira cultura proporciona. Transpirar se faz necessário para se chegar ao deleite da beleza que induz nossa autotransformação. Não, não é o fim da cultura, pelo menos a cultura como a enxergo.

Salatiel Soares é engenheiro e mestre em Planejamento pela Unicamp.

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F. Batre

Ótimo texto para reflexão. Contudo, é importante perceber que “cultura” envolve uma rede de significados e que, portanto, existe cultura tanto no mais erudito quanto naquele que é analfabeto. Vejo muita gente se basear nesse padrão de Eruditismo para definir o que é cultura. O maior problema do Eruditismo é que ele se pretende uma cultura fechada, e não sou eu que digo isso, mas sim Nietzsche. A dificuldade de acesso aos simbolos é que faz ela ser o que é. Veja bem, não estou defendendo esse cerceamento , só constatando um fenômeno. Essa oposição entre cultura popular, mais ligada… Leia mais