“Mais Laiquis”: a internet que torna as pessoas cada vez mais obsessivas

Em novo livro, o paranaense Márcio Renato dos Santos satiriza a virtualidade das relações quotidianas

O escritor paranaense Márcio Renato dos Santos também é autor de “Minda-au”, “Golegolegolegolegah!” e organizador do livro “Dicionário amoroso de Curitiba”

O escritor paranaense Márcio Renato dos Santos também é autor de “Minda-au”, “Golegolegolegolegah!” e organizador do livro “Dicionário amoroso de Curitiba”

Ronaldo Cagiano
Especial para o Jornal Opção

O escritor paranaense Márcio Renato dos Santos, que vem de uma trajetória ficcional consolidada com as publicações de “Minda-au” (Ed. Record, 2010), Golegolegolegolegah!” (Travessa dos Editores, 2013) e “2,99” (Tulipas Negras, 2014), além da organização do “Dicionário amoroso de Curitiba” (2014), acaba de lançar o instigante volume de contos “Mais Laiquis” (Ed. Tulipas Negras, 2015).

Enfeixando 13 histórias, a obra mapeia o imaginário individual e coletivo da vida e das re(l)ações contemporâneas, notadamente dominadas pela virtualidade e pelo isolamento, características de uma sociedade aviltada em seus valores pelos tentáculos da tecnologia, do deus mercado e da visibilidade a qualquer preço.

Em clave irônica e uma inflexão crítico-satírica, o autor retoma situações do dia-a-dia, flagrantes deste tempo de aparências, superficialidades, usurpação da privacidade e fetiches da visibilidade, espelhando-se nas atitudes que governam as ações e atos humanos, cada vez mais seduzidos pela midiocracia/videolatria, em que o sucesso a qualquer custo e as exigências da sobrevivência na rede transformam indivíduos em seres obcecados pela exposição, transformando-os em diários ambulantes na rede, papagaios de pirata dos compartilhamentos, o que nos faz lembrar a definição de vidiotas e internéscios, a que se referia o saudoso poeta, tradutor e crítico José Paulo Paes.

O criativo título do livro remete-nos ao universo dos likes, prática adotada pelos internautas para se comunicarem por meio de postagens no facebook e instagram, com seus passos transmitidos on line, ancorados em selfies e outros dispositivos, exemplos cabais de transmissão de cada detalhe de seu comportamento mundo afora.

Ao mesmo tempo em que as histórias traçam o panorama desse ambiente tão sedutor, ao transpor para o papel o mundo que cerca essa imensa teia de usuários, deixa pistas para que o leitor questione as armadilhas dessa vida desconectada dos sentidos reais (afeto, toque, contato, encontros, conversas etc). Pois, cada qual, em menor ou maior grau, é um zumbi transitando noite e dia neste circuito em que tudo é extremamente intangível e não há espaço para sentir e perceber o outro, porque o exterior é que demanda a atenção, aquilo que é imediato e descartável. Os contos extremam esse sentimento do leitor, que ao mergulhar na densa estrada da tecnologia, percebe qual tênue é a fronteira entre vida verdadeira e existência fabricada.

Destacam-se no livro os diálogos secos, certeiros, cortantes e essenciais, (como em “O próximo show”, “Teletubbies” e “No dia em que te vi”) lembrando a técnica minimalista e eficiente de um Luiz Vilela, reproduzindo esse mundo tão real e interativo quanto caótico, reduzido à rapidez e ao recurso das poucas palavras, em que tudo parece ocorrer num fragmento de tempo e que tudo se comunica mais pelas imagens, pelos silêncios ou pelo não dito.

No fundo, esses contos querem transmitir o que é o sintoma dessa civilização contemporânea etiquetada pelas facilidades da comunicação, mas que deslocou o homem para uma galáxia insular: a individualidade, esse planeta de incomunicabilidade real e carnal (ditadura do ter rivalizando com o grito e/ou necessidades do ser), cercada de vazio, pela alienação e angústia por todos os lados, em que já não se sabe se lá fora é ficção ou vida (com no marcante “Boquitas pintadas”). Pois a despeito de querer a inclusão nesse mundo compartilhado, o que sobra é uma completa exclusão do mundo pulsante que nos rodeia.

Ronaldo Cagiano é escritor e crítico literário. Atualmente, reside em São Paulo.

Leia “Mais laiquis”, conto de Marcio Renato dos Santos que dá nome ao seu último livro lançado

capa_mais_laquis_fechada_alta“A vida é um problema.” Encontrei a frase no Facebook, há alguns minutos. Não sei quem é o autor, mas a afirmação define a minha vida agora: um imenso e aparen­temente insolúvel problema.

Fui convidado pra escrever um conto, e aceitei. Tenho que entregar o texto daqui a sete dias. Será publicado numa edição de domingo no caderno de pensatas do maior jornal do país.
Outro escritor, talvez, fizesse de tudo, ou quase tudo, para receber o mesmo convite, seja pelo reconhecimento, pela repercussão ou por causa do cachê –– são mais de quinhentos dólares.
No meu caso, não é falta de inspiração, tempo ou bloqueio.

Sou citado, e respeitado, por professores de letras, jornalistas e escritores. Tenho três livros, sucesso de crítica, incluindo prêmios literários. Quem frequenta livrarias já folheou, comprou e talvez até tenha lido algum dos livros que traz o meu nome na capa.

Mas eu não sou o autor das obras.

Participo de mesas e bate-papos e os autores e as pessoas que frequentam esses eventos me elogiam. Dizem gostar do que eu escrevo e, principalmente, admiram a minha conversa. Mas falar qualquer um, ou quase qualquer um, fala. Leio jornal, revista, até livro eu leio. E por causa disso, da leitura, tenho repertório: basta repetir aquilo que eu li.

Faz dois ou três anos, comecei a desconfiar que alguns escritores não escrevem. Tem um que sempre aparece com roupas coloridas, penteado impecável e sorriso permanente. Como é o nome dele? Duvido que tenha escrito uma linha. E aquele que participa de mais de cinquenta, sessenta, setenta eventos por ano? Também não lembro o nome. Recebeu prêmios, mas não acredito que seja escritor. Até por que vive em festas, mesas e encontros literários. Em que momento do dia, da vida, ele escreve?

E aquele baixista, ou tecladista?, de uma banda de rock? A minha editora contou e pediu sigilo: ele paga para um escritor fazer a revisão, mas o escritor reescreve tudo.

Mas, agora, essas histórias não me interessam. Preciso resolver o meu problema. Tenho que entregar um conto e o Aurélio viajou. Ele é o escritor que escreve tudo o que é publicado com o meu nome. O Aurélio pediu um tempo e avisou que não vai acessar e-mail e estará sem celular. Disse que precisa de descanso.

Eu não deveria trabalhar apenas com ele. Talvez fosse mais sensato ter dois ou três escritores produzindo pra mim. Mas, tenho que admitir, o Aurélio é acima da média, tem ideias, energia e consegue realizar o que o cliente precisa –– ele não escreve apenas pra mim. Se a tendência do mercado, e dos prêmios literários, é experimentalismo, prosa poética ou recriação de um episódio histórico, o Aurélio sabe como e o que fazer.

E se eu procurar um livro de um autor estrangeiro, pouco conhecido, e copiar um conto? Seria fácil, talvez ninguém percebesse, mas tenho preguiça de fazer a pesquisa e, depois, digitar.
Vou beber, muito, e dormir. Numa dessas, amanhã encontro alguma solução ou procuro, não um desses redatores que fazem sucesso no meio literário, mas algum escritor, um prosador de verdade, sem reconhecimento. Tem muito pé-rapado talentoso por aí. Basta oferecer uma graninha. É isso. Vou comprar um conto.

Afinal, mais do que o conto, o que me interessa é compartilhar no Face o link do texto publicado no jornal. É que preciso de laiquis, de muitos, muitos laiquis pra sorrir e me sentir feliz, muito feliz.

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