“Mad Men” e a derrocada do homem contemporâneo

A série representa a derrocada do homem enquanto sujeito contemporâneo. Ao nos contar a história de Draper, Weiner conta a história do sujeito humano em vias de se transformar em pós-moderno, nas bordas das grandes explosões políticas e socio-culturais que já vivemos

Foto: reprodução

Ricardo Silva
Especial para o Jornal Opção

Temos clássicos irretocáveis produzidos para a televisão nos últimos anos. Os títulos facilmente brotam na memória do bom e atento espectador: The Wire (2002-2008), Família Soprano (1999-2007) e Breaking Bad (2008-2013), para apenas falar da minha tríade irretocável de poderosos produtos televisivos. Esses títulos promoveram uma reviravolta na forma como as grandes produções começaram a dar atenção ao que suas histórias tinham de mais humanas.

As séries se tornaram o melhor campo para o exercício da narrativa extendida, com possibilidades de tempo e configuração dos ambientes que o cinema não possui. Poder desenvolver a tridimensionalidade da personalidade de personagens que se tornariam icônicos e símbolos culturais por vários episódios distribuídos em diversas temporadas, transformou nomes como David Simon, David Chase e Vince Gilligan — os respectivos criadores das três séries que falei no parágrago acima — em verdadeiros regentes de orquestras que reuniriam as mais sagazes mentes do audiovisual norte-americano para dar conta da maestria e sutileza das histórias que iriam contar.

No panteão das produções mais sofisticadas e bem executadas das últimas décadas está a criação de Matthew Weiner — que roteirizou 12 episódios de Família Soprano — que conta a história de executivos de publicidade da década de 60 e que recebeu o irretocável título de Mad Men — algo que poderia ser traduzido como “homem louco” e que faz um trocadilho com “ad men” (publicitário) e também com o termo usado aos homens que frequentavam a Madison Avenue.

Mad Men é um primor do roteiro. Qualquer aspirante a roteirista precisa se debruçar sobre o trabalho de escrita capitaneado por Weiner. Ali estão contidas todas as sutilezas e contornos bem definidos da psicologia dos personagens, de plots inteligentemente bem costurados, ação psicológica, o ritmo de cena, diálogos que raramente veremos outra vez escritos assim nessa qualidade; além de uma poderosa condução do enredo que não buscou uma única saída fácil ou tangente para os seus núcleos de personagens. Tudo orquestrado com extremo detalhismo.

Livre de maniqueísmo tolos e rasos, a série atravessa sete temporadas alheia a velocidade, ditando um ritmo completamente idiossincrático — aos moldes das décadas em que se ambientam —, onde acompanhamos todas as embulições sociais, políticas e culturais que os anos 60 e 70 trouxeram consigo. Com uma trilha sonora equilibrada, atuações de primeiro escalão e principalmente boas escolhas ficcionais, não existe pontos cegos na trama de Weiner e companhia. Todos os elementos ali parecem servir fielmente como dispositivos bem encaixados que fazem as engrenagens da trama girarem sem qualquer emperro.

O grande trunfo de tudo isso está no protagonista da trama: Don Draper. Galã, charlatão, adúltero corriqueiro, mal caráter, prepotente, capcioso, frio e distante, além de um manipulador experiente, Draper — interpretado por Jon Hamm —, o fabuloso e genial diretor de criação da fictícia agência Sterling Cooper, agrega todas as características que poderiam nos fazer odiá-lo. No entanto, passamos sete temporadas torcendo para que ele saia das enrascadas em que se mete. Tudo isso porque sua malha psicológica é bem estruturada, verossímel, real, tactível. Isso se pode dizer todos os personagens que desfilam ao longo dos episódios, seja do elenco principal ou dos personagens secundários que conhecemos por não pouco mais de que algumas cenas ou episódios.

Mas a série não é um dos maiores feitos narrativos dos últimos anos somente por causa disso. É porque representa a derrocada do homem enquanto sujeito contemporâneo. Ao nos contar a história de Draper, Weiner conta a história do sujeito humano em vias de se transformar em pós-moderno, nas bordas das grandes explosões políticas e socio-culturais que já vivemos. Nada disso é ignorado pelos roteiristas da série. Das referências aos filmes clássicos às músicas que embalaram gerações, todos os elementos de transformação do homem antiquado dos anos 40 ao sujeito aberto a uma ampla gama de avanços tecnológicos que remodelaram a sua mentalidade e a sua cosmovisão, tudo isso compõe a estrutura narrativa da série e o pano de fundo para os seus enlaces.

A escolha da área profissional para dar conta de toda essa ebulição não poderia ser mais apropriada: a publicidade. Ainda encarada como uma profissão menos séria, a publicidade — que hoje é o carro chefe que conduz os grandes negócios e impregna visões de mundo através do consumo — estava se modulando, e se compreendendo como uma imensa influenciadora da opinião pública. O discurso da ilusão, da venda de conceitos, de que um produto não é apenas um produto mas uma experiência, tudo estava ali em processo de eclosão. A publicidade como força motriz de interferência política nasceria nos anos 60. Weiner sabia bem disso.

Foi utilizando Draper como totem desse sujeito dado ao domínio do discurso, de emocionar e tocar sentimentalmente seu público mas ser um livro fechado, um elemento completamente misterioso, que Weiner vai fazer uma reflexão potente em significados sobre a condição do homem contemporâneo. Quais vão ser suas fontes de concepção do mundo? O que lhe vai estimular a vida? O que vai permitir que a vida lhe seja um pouco mais leve? Todas as respostas estão, ele vai dizer, aqui: no consumo. E como fazer com que esse sujeito consuma mais? Publicidade.

Emulando discursos de preocupação com a emancipação espiritual do homem, a publicidade cria um engodo perigoso mas extremamente eficaz — do qual, atualmente, vemos os resultados de forma largamente capilarizada e enraizada nas nossas formas de conceber o mundo e os seus dispositivos simbólicos. Mad Men tece todas essas reflexões com extrema elegância e ironia.

Na sua caça por uma identidade em que se reconhecesse de forma genuína e não mais como uma farsa, Draper se reconfigura enquanto sujeito, se reformula como profissional, mas não perde nunca a essência do que o tornou um “ad men”: a capacidade de criar mundos irreais e dotá-los de realidade por meio do domínio discursivo e simbólico.

O mais irônico e engraçado dos episódios da série, é a sua session finale, em que Draper está numa comunidade hippie em busca de respostas para o seu “eu interior”, uma busca verdadeiramente espiritual e hamletiana, e de lá tira a ideia para uma das propagandas mais conhecidas de todos os tempos de uma marca, em que sobrepõe contracultura e a Coca-Cola. É como se Weiner estivesse dizendo: isso aqui não é arte, é propaganda, estúpido! E ganha quem paga melhor as contas.

A derrocada do homem contemporâneo está lá, contada nos mínimos detalhes na metáfora de Weiner em Mad Men: não existe discurso revolucionário que não renda um excelente produto para consumo. Para isso não temos saída, é uma luta perdida.

Ricardo Silva é graduando em Filosofia pela Universidade do Estado do Amapá (UEAP) e crítico de literatura e cinema.

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