Livro de Flávio Gordon discute a corrupção da inteligência

O futuro só voltará a nos sorrir quando tivermos nas salas de aula, nos teatros, na imprensa, nos três poderes da nação discursos não comprometidos com o socialismo

Corrupção é uma palavra de uso comum no nosso meio. Há dela para todos os gostos. São tão constantes que já não nos surpreendem. As mais corriqueiras acontecem no governo e nas empresas. Políticos, burocratas e empresários estão na linha de frente. Alguns eventos foram tão escandalosos que já fazem parte da nossa história. São citados com frequência: Petrolão, Mensalão, Lava Jato, Odebrecht … que chegam a fazer parte do folclore nacional. Agora, pela primeira vez, surge uma novidade, a identificação de outro padrão de corrupção — a do intelectual.

Com perspicácia, o doutor em Antropologia Social Flávio Gordon batiza um tipo de corrupção, que existia mas estava “pagão”. Não tinha nome. No livro “A Corrupção da Inteligência — Intelectuais e Poder no Brasil” (Record, 364 páginas), o autor, em linguagem simples, direta, apaixonada, indignada, coloca foco no que é a causa da maioria dos nossos males — a corrupção da inteligência nacional. Traz à luz um assunto que todos devem conhecer nos seus detalhes. E o faz com grande competência e coragem. “Mata a cobra e mostra o pau”, como diz o adágio popular. São 364 páginas recheadas de nomes conhecidos, como corrompidos e como corruptores. Denúncias todas fundamentadas. Sem faltar no texto citações eruditas e detalhes dos acontecimentos.

Da leitura depreende-se que, sem a corrupção da inteligência e personalidade da maioria dos nossos intelectuais, não teria existido Lula da Silva, Dilma Rousseff e outros.   O corruptor PT é o primeiro partido da nossa história a encarnar a noção gramsciana de “intelectual coletivo”. Diz ser o partido dos trabalhadores, mas é, por excelência, o partido dos intelectuais. O “trabalhador Lula” é usado pela intelligentsia local para o seu projeto de poder, no seu início.  Mas a criatura superou o criador.

Antonio Gramsci, filósofo italiano: autor da ideia de se implantar o comunismo por vias democráticas | Foto: Reprodução

Entretanto, o seu triunfo político, segundo Gordon, não é explicado por seu superestimado carisma e facilidade de comunicação. Lula nunca foi um político brilhante (a eleição da ex-presidente Dilma Rousseff e a corrupção sem limites e sem escrúpulos são alguns dos seus erros de cálculo). Ardiloso, isto sim, e malandro, seu sucesso deveu-se muito mais aos seus vícios — à sua mais completa amoralidade, por exemplo, do que às suas virtudes. Ademais, ele partilha com Adolf Hitler um traço de personalidade que os distingue de quase todos os grandes líderes políticos e militares da história: uma autoridade histriônica e sentimentaloide, nada compatível com a têmpera de um grande estadista. Lula é pura forma sem substância.

Falando do filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937), referência na revolução cultural comunista, Gordon faz correto diagnóstico: a sua importância reside no fato de haver produzido uma guinada fundamental, tanto na teoria marxista quanto no método de ação política da esquerda mundial. A sua grande contribuição foi ter percebido que, dada a complexidade do desenvolvimento capitalista, o modelo marxista-leninista de tomada de violenta tomada do poder mediante golpe de Estado… tornara-se inadequado. Utilizando uma linguagem militar, Gramsci afirmou a necessidade de substituir uma guerra de movimento por uma guerra de posição. Tratava-se, segundo Gramsci, de um plano de implantação do comunismo por vias democráticas. Ao dar aos “intelectuais” o protagonismo da vanguarda da revolução, Gramsci conferiu-lhes poder, e isso recuperou a virilidade espiritual até dos mais combalidos e flácidos membros da Intelligentsia. Seriam eles os novos “engenheiros das almas”, que, segundo Stálin, que preparariam o povo para a futura sociedade comunista

O marxismo impregnou-se na linguagem dos formadores de opinião. No jornalismo contemporâneo, nada pode ser dito sem ofender ou violar alguma norma do moralismo progressista

O jurista Rui Barbosa é lembrado por ter sentenciado que a degeneração de um povo e de uma nação começa como desvirtuamento da própria linguagem. Fica evidente que estamos em maus-lençóis. O marxismo impregnou-se na linguagem dos formadores de opinião. No jornalismo contemporâneo, nada pode ser dito sem ofender ou violar alguma norma do moralismo progressista.

Flávio Gordon: exame contundente da intelectualidade | Foto: Reprodução

A onda do politicamente correto, que corrompe a linguagem, surgiu nos Estados Unidos, na esteira da contracultura com os seus conhecidos “ismos”. E esta onda é avaliada como uma verdadeira “revolução acadêmica”. Assim surgindo as chamadas políticas de identidade, deixamos de ser indivíduos, mas representantes de determinada classe, raça, gênero ou tribo.

Não só deturpa-se a linguagem com a “novilíngua orweliana”, como escamoteando fatos dos leitores. É fato conhecido o empenho da imprensa para ocultar a existência do Foro São Paulo, e depois, quando isto já não era mais possível, minimizar a sua importância. Este revisor mesmo teve texto censurado, em dois veículos impressos nacionais. O artigo comenta os acertos econômicos que estavam sendo implantados pelo governo Pinochet. O que hoje resultou na melhor economia entre os subdesenvolvidos. O texto foi publicado no “Estadão”, por influência do redator-chefe do jornal, um amigo pessoal.

Ninguém mais do que os gramscianos para saber o peso do uso da linguagem na disputa pelo poder político. Importância que Gordon enfatiza dando destaque ao filólogo Victor Klemperer (1881-1960) sobre o uso da linguagem no Terceiro Reich. Segundo ele: as revoluções ocorrem primeiro, e de maneira mais profunda, no domínio da linguagem. O nazismo embrenhou-se de carne e osso nas massas por meio das palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas inconsciente e mecanicamente.

No nosso meio, a par com o desvirtuamento da linguagem tivemos uma seleção perversa. Só tinham espaço nos veículos de comunicação os membros das tribos. Os intelectuais não comprometidos eram marginalizados. Era tão escancarada o destaque aos pensadores da esquerda que o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), ícone da esquerda mundial, durante visita ao Brasil, em proselitismo a favor de Cuba e Argélia, em programa televisivo, de três horas, incrédulo perguntou aos colegas brasileiros (Fernando Henrique Cardoso e Luís Meyer): como é possível que uma empresa capitalista gastasse tanto tempo e dinheiro para que possamos fazer a nossa campanha pelo socialismo? A emissora, no caso a Globo, sempre foi abertamente progressista, encampando desde cedo algumas das principais bandeiras que, hoje, são moeda corrente na agenda da esquerda nacional. A respeito diz Olavo de Carvalho: …desde a década de 60, os altos cargos da nossa mídia são quase todos ocupados por militantes ou simpatizantes da esquerda.

Benedetto Croce distinguia entre o arrependimento moral, que condena o próprio ato como intrinsecamente mau, e o arrependimento moral, que não abjura do ato mas apenas de suas consequências indesejadas: um ladrão envergonha-se de ter roubado; enquanto outro de não ter conseguido escapar da polícia. O arrependimento moral não significa que o criminoso não voltará a reincidir. Mas o arrependimento econômico é quase uma garantia de reincidência. O comunismo acabou. O criminoso foi desmascarado. Mas os marxistas só mostram arrependimento econômico. Voltam a reincidir nas práticas que tanto mal fizeram ao mundo.

Revolta de Kronstadt, na União Soviética: brutalmente reprimida pelo governo bolchevique de Vladimir Lênin | Foto: Reprodução

Os arrependidos morais são, no livro, lembrados com o efeito Kronstadt, nome de uma fortaleza em que os soldados se rebelaram da tirania bolchevique. A rebelião foi brutalmente reprimida a mando de Lênin e resultou em um banho de sangue de milhares de rebeldes. A violência da repressão dividiu os socialistas de todo mundo. Dividiram-se entre os arrependidos morais e os econômicos. Kronstadt virou sinônimo de um choque cultural que muda a visão de mundo. Quantos ex-comunistas pediram publicamente desculpas pelos crimes da falida URSS? Não conheço nenhum.

Surpreende-se Alan Charles Kors de que, apesar de a maior parte dos bem-pensantes de esquerda terem abandonado o comunismo, porém o comunismo não os abandonou totalmente. Incrível como o Ocidente tolera um duplo padrão. Abomina o nazismo, com muita razão, mas, quase sem exceção, mantém silêncio sobre os crimes do comunismo.

Por uma das incongruências da história, a ditadura militar de 1964-1985 foi considerada equivocadamente como de direita. Foi, antes de tudo, militar. Não por acaso, o único militar de viés liberal, o general Castello Branco, logo sofreu um golpe, por parte dos oficiais estatólatras da linha-dura, foi o “golpe dentro do golpe”. Não por acaso, alguns analistas do período vêm falando numa estranha derrota experimentada pelos militares: vitoriosos na política, mas fragorosamente derrotados na cultura e na memória. Foi da mente do general Golbery do Couto e Silva, grande ideólogo do regime, a ideia de entregar a cultura para as forças da esquerda, como técnica de descompressão do poder político. As esquerdas agradeceram. Não por menos que, a partir dos anos 60, todo o universo da produção cultural brasileira foi ocupado pela esquerda.

Esquerda e o flerte com o banditismo

A esquerda sempre flertou com o banditismo. Um famoso jornalista que afirma a necessidade de dar voz aos bandidos; a defesa dos arrastões por parte de intelectuais esquerdistas; as incessantes campanhas contra a polícia…e as recorrentes inibições de deslumbre e paternalismo de um senador petista com um rapper que vive de celebrar o crime e denegrir os agentes da lei; o empenho de partidos de esquerda em proteger menores criminosos, mesmo quando autores de crimes hediondos, etc. Toda esta cultura que celebra o criminoso como o cobrador de uma dívida social ajuda a colocar o país no topo da lista dos mais violentos do mundo.

Olavo de Carvalho, citado, diz: entre as causas do banditismo carioca, há uma que todo mundo conhece mas jamais é mencionada, porque se tornou um tabu: há sessenta anos os nossos escritores e artistas produzem uma cultura de idealização da malandragem, do vício e do crime. Como isto poderia deixar de contribuir, ao menos a longo prazo, para criar uma atmosfera favorável à propagação do banditismo?

Muito interessante é o depoimento de Dias Gomes, conhecido dramaturgo e intelectual do PCB, dando certa vez uma clara ilustração da má consciência que têm caracterizado a nossa intelectualidade de esquerda. Justificando em entrevista a sua opção pela televisão, em especial a sua entrada na “burguesa” Rede Globo, o comunista baiano explicou: “No teatro, eu vivia uma contradição, buscando fazer peças populares e alcançando apenas a elite, exatamente a elite que combatia. Todos os da minha geração vivemos essa contradição. Fazíamos um teatro antiburguês e tínhamos como plateia a burguesia. Na televisão, não. Segundo o Ibope ela é vista até por marginais. Isso, sim, é uma plateia popular”.

Como já foi dito, o Partido dos Trabalhadores surgiu como partido da elite intelectual. Durante anos o PT gabou-se de que a sua plataforma partidária fosse mais bem aceita por brasileiros “instruídos” (intelectuais, artistas, acadêmicos). Os mais pobres, dizia Lula, votam com as barrigas… A cúpula do partido tinha ciência de que, para tanto, eles teriam de ser conscientizados pelos intelectuais orgânicos do partido. Tanto que no 3º Congresso Nacional do PT foi dito: “Sabemos que não basta chegar ao governo para mudar a sociedade. É também importante mudar a sociedade para chegar ao governo”.

Depois dos escândalos da corrupção institucionalizada e dos desmandos na administração da coisa pública, o jeito petista de governar ficou desmoralizado. Gordon prevê que, auto-imunizados contra os efeitos causados pela corrupção pelo seu partido, aqueles justiceiros sociais já se aplicam na montagem de uma nova e mais nociva estrutura corruptora. É assim que, gramscianamente posicionados nas redações de jornais, nas universidades, no mercado editorial, na indústria cinematográfica, nas salas de aula, batalhões de corruptos intelectuais já se empenham na missão de reescrever a história conforme o desejo do Novo Príncipe. De acordo com a narrativa (novilíngua), eles terão sido, mais uma vez, os imaculados heróis da democracia, os amigos das “coisas frágeis e pobres” em luta perpétua contra os poderes deste mundo. Agora, resta que alguns brasileiros estejam a postos para impedir que a farsa prospere — diz, com um suspiro de esperança, o incorrupto intelectual autor do livro.

Esta resenha dá uma ideia do poder da cultura nos destinos de uma nação. Todo cidadão consciente deveria ler o texto original para melhor entender que, enquanto estivermos sob a influência da inteligência corrompida, os nossos resultados não serão diferentes daqueles em que estamos vivendo. O futuro só voltará a nos sorrir quando tivermos nas salas de aula, nos teatros, na imprensa e nos três poderes da nação discursos não comprometidos com o socialismo, que enalteça as virtudes e não os vícios.

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