Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Leituras de verão (1) Sob o sol do Nordeste, “Os olhos do deserto”

Diante da promessa de sol e mar, o cronista se propõe a aproveitar a quinzena desta temporada de verão, na companhia da família e de uma leitura desobrigada

Foto: reprodução

O cronista se lembra de quando mais moço e ainda entusiasmado por cinema, era instado a ver os faroestes (westerns) como um recreio aos filmes ditos “cabeça”. Havia uma dicotomia entre os filmes que problematizavam e os que apenas “divertiam”. Não sei se a dicotomia sobrevive ainda hoje, nem mesmo se é algo válido.

O fato é que o verão como um imperador provisório era responsável por modas, como uma certa “tanga do Gabeira” que marcou época, num país ainda verde em problematizar, contestar e que expunha a opção privilegiada pelo protesto via tangas e biquínis, em lugar da luta armada em que o próprio jornalista Fernando Gabeira havia decaído. Era como se a “dianóia” cedesse o lugar à poesis (e à noesis), como se o “bicho-grilo” desse lugar aos caprichos do verão e nos forçasse a abandonar o discursivo e o argumento-limite da guerrilha.

O país não é o mesmo. A “dia-nóia” de separar os Outros em grupos excludentes nos contaminou a todos. A revista semanal que o cronista assinava por quase três décadas afundou em repercutir o divisionismo, como se o poema de Drummond daquela época ingênua (no sentido naif do termo) se quedasse ao império do ódio, como se (no melhor sentido da mimesis aristotélica) a poesia imitasse a vida. A verdade refletida é que num tempo de entretenimento e culto ao prazer, livros “empenhados” (para usar a expressão do saudoso Segismundo Spina) são fundamentais ao entendimento do século:

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
[…]

De “Filosofia da cultura”, salvo essas notas esparsas de um caderno antigo, onde José Maurício de Carvalho analisando o pensamento do pensador português Delfim Santos, o expande para entender o pensar contemporâneo. “O pensamento só pode pensar o que foi aberto pela palavra desocultante da poesia”.

Ora, não é tempo de pensar nas agruras. É verão e o sol converge para a leveza e a Esperança, mas, afinal, que espécie de ângulo poderia ser este, a partir do qual fosse impossível problematizar a existência? Parece impossível ao homem deitar a cabeça no travesseiro e se tornar impassível ao ritmo absurdo do século.

Abro “Os olhos do deserto” de Marco Lucchesi e aceito o desafio do peregrino mediterrâneo, o católico romano que deseja se abrir hesseanamente aos segredos do Oriente. Vou com ele, no calor similar ao do deserto, sob o sol pernambucano, vaguear por desertos, ruas e colinas da Beirute em Ruínas à Síria de Padre Paulo Dall’Oglio, do Marrocos à Mauritânia, da “clara solidão” ao “voo com o Simurg” este pássaro mítico e benevolente criatura alada da tradição persa –  isto e tudo o mais em Lucchesi é imersão e condensação – a subida a altitudes impensadas pelo leitor e o mergulho consciente no universo da linguagem. Em Lucchesi, como em tantos outros mestres da peregrinação poético-espiritual vislumbro essa “palavra desocultante da poesia” de que nos fala o filósofo.

Havia planejado a leitura que, embora elaborada, fosse também entretenimento, mas sob as excusas da Amazon, fiquei impedido da leitura de Flávio Carneiro, para ser levado ao mosteiro no deserto, neste “Olhos do deserto[i]”, ouvindo com o Autor a voz do jesuíta do deserto, padre Paulo Dall’Oglio que se parece ao tom do poeta-narrador:

Um mosteiro no deserto é uma luz que avistamos de longe, é uma parada na estrada, uma etapa da peregrinação, na qual Deus se torna nosso hóspede e nos tornamos hóspedes de Deus.”

A hipótese não confirmada com o autor é que nessa viagem de autoconhecimento, traduzida em diário poético, narrativa e poesia Lucchesi, então no vigor dos sua trintena de anos, o autor cunhou o que viria ser o ponto alto de suas traduções primorosas do “Peregrino Querubínico” (Silesius) e as imersões na mística do Ocidente cristão e do Oriente arábico – de Silesius a Al-Märi e Rûmi, toda esta aventura tendo sido iniciada no “Sidarta” de Hermann Hesse: “Percebo que muitos capítulos hessianos, como que por usucapião, já me pertencem. E de modo definitivo. Hesse me deu uma sede interminável de horizontes. O mundo, em Sidarta, é um grande rio, e o curso das águas seguia o seu destino. Era-me essencial descobrir onde. Era-me essencial descobrir quando. Os livros de Hesse não diziam onde nem quando. Mas a duração e o espaço podiam emergir tão-somente de minhas próprias águas. Tal como hoje, que me acerco da nascente do Orontes…

O católico romano, de origem mediterrânea, é esse moço em viagem de formação e fixação dos valores, já tem no interior de si mesmo a chama e o chamado. Atende-os, aciona a ignição. Viaja. Há certa culpa em privilegiar o Oriente, em detrimento de sua formação cristã Ocidental, como no capítulo “Mistérios do nome”, mas “A beleza me salva e me assombra” – conclui o narrador dono de novo nome não cristão: Al-Hajj Abdaljamil:

“Sinto o peso desse encontro e deixo, confuso, da mesquita, a repetir o meu nome, os pássaros que tecem meu destino. A figura que me espreita. A escada que me espera. Peregrino. Servidor da Beleza.
[…]
“O deserto tem seus desafios. O deserto tem seus riscos. Suas pequenas mortes. O deserto tem suas vertigens. Como suportar essas forças?”

O narrador desses “Olhos…” se submete a essas forças e sobrevive por conta de uma vontade firme que é mais do que heroísmo e tem algo de santidade (afinal, creio ter sido Carlyle quem aproximou os poetas do heroísmo e de uma santidade não canônica; santidade canônica que seria uma irreverência com um Dante ou um Shakespeare, uma espécie de impiedade!) Por isso, não o repetiria com Marco Lucchesi, mas reafirmo com o autor que: “Consigo vencer o dêsânimo, cavaleiro das sombras e do não. Pois minha vontade é maior. Percebo a álgida beleza das coisas, que ardem, ilusórias. Percebo, mas não desisto.”

Homem do diálogo, Lucchesi pende sua balança para o Oriente como dizia, mas se deixa resgatar por uma aventura em que “…as armas e os barões/as tempestades e aventuras” fazem-no sonhar: “Sonho com as Pleiâdes voltadas para Órion. Sonho com o Tempo que não passa. Uma vida interminável. Simultânea e permanente. As batalhas de Tasso [Torquato, de “Jerusalém libertada”, edição org. por Lucchesi]. A pluralidade dos mundos. Caaleiros do luar, andarilhos da distância. E o diálogo, sempre. O diálogo em flor. Passam os dias, mas não passam minhas esperanças.

“Os sentimentos essenciais” ressurgem nestes “Olhos…” Como no “Enigma de Qaf” (de Alberto Mussa), lugar especial onde o mundo árabe ganha uma dimensão de alteridade respeitada e respeitosa. Somos movidos pelo perdão, em direção ao diálogo ecumênico do autor/narrador – a persona poética que se vai movendo ao longo do caminho, pois este livro é um grande caminho rumo à auto-libertação de onde ele contempla “do alto a baía de Jouneh, o mar incomparavelmente azul…” ainda que a cidade esteja em ruínas, e justamente por conta disso o autor delas se enamora, pois são “ruínas tão próximas das minhas…”

“Sinto-me em paz e me deixo levar por este abandono, dádiva singular: este pequeno jardim suspenso de Beirute, estas águas calmas, este Sol, prestes a extinguir-se, partilhado pelas mulheres que amei, e a sensação de que a falta há de terminar, e que o Santo Sepulcro não seguirá mais vazio, justamente hoje, quanto todas as presenças invisivelmente me consolam; esta paz, que me parece eterna, cultivada ao sol deste jardim suspenso, onde me vejo reconstruído...”

O católico romano e homem mediterrâneo pela origem italiana, pelo amor ao “mediterrâneo da Guanabara”, e de todos os sóis que operam “estranhos milagres” é ele próprio um místico na melhor linhagem do Ocidente e do Oriente, pois trafega como um embaixador da poesia heroica e épica, o que também se põe ao Sol, com uma nesga de “sombra de melancolia”, mas aquele que ao fim da peregrinação deita no Supremo Poeta Dante Alighieri todas as suas esperanças e, por isso…“…por isso deixo-me viver, deixo-me estar esquecido, neste mar de promessas, neste mar que é mulher, como o sorriso de Deus, o sopro do amor, que move a lua e as estrelas.

E por um momento, quedo-me a este Sol do Nordeste, “sol da mais exata geometria” – como num poema antigo que me assaltou aqui mesmo no Recife, para crer que há mais do que homens divididos no mundo da Poesia. E, só depois deste “prefácio de angústia”, desta noite vasta, com Drummond e Lucchesi, haverá o leitor atento de descobrir “o mundo que emerge das pedras da Síria” e as divisões dos homens e dos dias. Se há Beatriz, Laura, Marília, Clio e Euterpe, eis que surge desses “Olhos do deserto” a figura soberana de Leila:

William Adolphe Bouguereau, “A noite” (La nuit)

“…uma noite, Leila, flutuava em teu rosto, banhado de sombras, e se revelava num claro fulgor, longe dos males do exílio, das mortes que se abatem, nas folhas levadas pelo vento, tristes desarmonias, desferidas pelo fundo das coisas; e teu rosto luminoso, Leila, e teus lábios, fontes de consonâncias, onde moram os deuses; não vejo e não sofro essa luz esbatida, esse incêndio, essa fuligem de tristeza, essa mágoa de abandono; o Sol do esquecimento queima o corpo dos dias; mas teu rosto, Leila, podia amanhecer, e teus olhos de horizonte guardavam trinta pássaros, e tua brisa, cálida como o deserto, lançava centelhas de areia sobre a minha caravana solitária; Leila, dá-me o teu refúgio, pousa aqui o teu rosto, descansa tua glória, desce as asas das pálpebras, o sereno de teus olhos, teu súplice lábio, enquanto bebo na fonte da inquietação, descansa a pétala das pálpebras, Leila, e a dor intransmissível, teu sonho fugidio, tua irisada primavera, que se perde na memória evanescente; Leila, teus dias esperam incêndios e inundações, mas teu excesso me fascina e me espanta: abre teus velames, tuas velas várias e vãs, dá-me a vertigem da verdade, o vórtice da vida, o centro da conquista, o espamo da espera, mares de brias matutinas, e teus olhos tardios, como nuvem de pranto, sêmen de solidão, sombra que vela o zéfiro dos desejos; teus sobressaltos, Leila, e o mundo como página que se perde na indumentária de tuas metáforas, primaveras do medo, harpas da beleza, enquanto voltas aos sonhos que se perdem na escuridão de teus segredos…”

*Adalberto de Queiroz, 62, é jornalista e poeta, autor, entre outros de “Frágil armação”, 2ª. Ed., Caminhos, 2017. Email do autor: [email protected]

[i] LUCCHESI, Marco. 1963- “Os olhos do deserto”/ Marco Lucchesi. – Rio de Janeiro, Record, 2000. 159 p. Todas as citações entre aspas, exceto as de José Maurício de Carvalho, são do livro em referência.

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