“Lábios que Beijei” traz as nuances de um relacionamento amoroso

Ambientado principalmente em Brasília, o romance poético de H. Martins conta a história de Ângelo e Prudence com leveza e fluidez

Mariza Santana

Eles são um casal comum entre tantos que vivem em Brasília. Ângelo é um advogado bem-sucedido, Prudence uma jovem arquiteta. O casal se conheceu no aeroporto de Florianópolis. Mas logo descobriram que ambos moravam na capital federal e, apesar da diferença de idade, se apaixonaram, tiveram uma filha – a Bia -, enfrentaram os desencontros do relacionamento causados pelo ciúme e nada mais é aconselhável acrescentar.

O enredo não é surpreendente, mas “Lábios que beijei”, romance poético do escritor H. Martins é um deleite para os leitores. Escrito com leveza e fluidez, sem ordem cronológica, repleto de flashbacks, a narrativa aos poucos vai delineando o perfil psicológico dos dois principais personagens, assim como dos coadjuvantes, e elaborando a trama vivida pelo casal com uma delicadeza surpreendente.

Ângelo é um exemplo do próprio self made man. Fugiu de um orfanato ainda menino; e passou parte da adolescência e mocidade em Goiânia, onde se graduou em Direito. Seguiu para a capital federal, lugar de oportunidades para os mais talentosos. No Planalto Central construiu uma sólida carreira profissional. Prudence, ainda adolescente, deixou a mãe no Rio de Janeiro para escapar das investidas do companheiro dela; e foi buscar refúgio com o avô, que morava em Brasília, onde se formou em Arquitetura.

A saga de cada um dos dois, suas fugas, lutas e anseios, seguem no encontro, na atração mútua e nos desencontros tão comuns em casais que convivem por um longo período. O que diferencia o romance H. Martins é a linguagem fluida e cheia de referências a respeito de Goiânia e Brasília. Assim como a narrativa relacionada aos costumes dos anos 1980, 1990 e 2000, que garantem uma familiaridade aos leitores mais maduros que viveram intensamente essas décadas.

Busquei referências sobre H. Martins, mas elas são escassas. No livro é informado que ele nasceu em 1963. É poeta, romancista, advogado ambientalista e consultor nas áreas de Direito Ambiental, Sustentabilidade e Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL). Qualquer semelhança com o personagem Ângelo talvez não seja mera coincidência, já que o perfil jurídico deles têm alguns pontos em comum.

Talvez não seja coincidência o fato de que já elaborei resenha literária de outra obra de H. Martins, publicada no dia 5 de julho de 2020, no Jornal Opção, sobre o livro “Mais que perfeito – simples”. Por isso, a familiaridade que senti com a prosa lírica do escritor, sua forma de descrever os fatos rotineiros com leveza, a maneira de descrever as personagens femininas com lirismo e uma pitada de carinho.

Novamente, o livro “Lábios que beijei” não apresenta nada escrito na sua orelha e não ostenta um prefácio de apresentação, sendo que esse fato se tornou uma marca registrada do autor. Continuamos sem saber onde o escritor nasceu (será Anápolis, em Goiás, como Ângelo, embora o nome da cidade não seja citado no romance?).

Escritores envoltos em mistério não são uma novidade. Em 1926, a rainha dos livros do mistério e criadora do célebre detetive Hercule Poirot, a escritora britânica Agatha Christie, ficou desaparecida por dez dias e logo a polícia londrina iniciou intensas investigações. Ela reapareceu, mas até hoje o motivo do sumiço não foi esclarecido.

Sobre a escritora italiana Elena Ferrante, não se sabe se ela existe ou é apenas um pseudônimo, se de fato é mulher, ou esconde um homem. Ferrante é autora do livro “A filha desaparecida”, cujo filme homônimo concorre ao Oscar 2022 em três categorias: melhor roteiro adaptado, melhor atriz para Olivia Colman e melhor atriz coadjuvante para Jessie Buckley. Outra obra de sua autoria, “A Tetralogia Napolitana” é a base da série “Minha amiga genial”, cuja terceira temporada estreou recentemente no canal de assinatura HBO.

Outro exemplo de escritor envolto em mistério é o autor do livro “O apanhador no campo de centeio” O norte americano J. D. Salinger, que morreu em 2010, sempre foi avesso à imprensa e às formas de divulgação de sua figura. Esse comportamento fechado dificultou muito a vida de seus biógrafos.

Mas voltemos à H. Martins, seus romances poéticos e as poucas informações publicadas a seu respeito. Para o leitor, o que interessa é mergulhar na história de Ângelo e Prudence, e usufruir da literatura de qualidade que ele é capaz de oferecer.

Mariza Santana é jornalista e crítica literária. E-mail: [email protected]

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