“Lá vai o Brasil, descendo a ladeira”: o país mal na educação
05 setembro 2026 às 21h00

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Não se trata de saudosismo. São reflexões…
Por certo, muitos hão de concordar comigo; por outro lado, haverá quem se oporá ferozmente, possivelmente em razão de uma espécie de cegueira de fundo ideológico.
Tudo me faz crer que a educação no Brasil sofreu um imenso retrocesso ao longo dos últimos 60 anos. Historicamente, mais que isso, é verdade, mas por que digo 60 anos? Porque tenho 67 anos de vida e me lembro muito bem de como era o ensino, quando fui iniciado no mundo mágico das letras.
Eu tinha 6 anos, quando, depois de alfabetizado em casa por minha tia Yara Cupertino de Barros, ingressei na classe do pré-primário, no Grupo Escolar Manuel Gomes, na antiga Capital de Goiás, sob o comando da professora Marta Machado Mendes.
Quando a professora entrava na sala de aulas, todos nos púnhamos de pé, em sinal de respeito. A escola era um prolongamento do lar e, por conseguinte, um ambiente complementar para a nossa formação humana e social
Nunca chamávamos as professoras de “tias”; sempre, “professoras”, embora o afeto que nos unia fosse o mesmo dos laços de parentesco. Todavia, uma demarcação era bastante clara: nós éramos os estudantes e, elas, as professoras.
O ambiente escolar era uma espécie de disciplina mesclada com ternura, mas o respeito e as boas maneiras eram a tônica.
Quando a professora, ou mesmo quando alguém estranho ao nosso quotidiano entrava na sala de aulas, todos nos púnhamos de pé, em sinal de respeito. Não acredito que isso prejudicasse a pedagogia, nem se afigurasse como algo absurdamente autoritário. A escola era um prolongamento do lar e, por conseguinte, um ambiente complementar para a nossa formação humana e social.
Éramos, ao longo dos quatro anos do curso primário, uma turma onde havia uma mescla de todas as classes sociais. Convivíamos em harmonia, independentemente do poder econômico de nossos pais, ou da cor de nossa pele.
Hoje, depois de tantas décadas, ao encontrar colegas do grupo escolar, constato que, infelizmente, nem todos puderam aproveitar plenamente os ensinamentos recebidos, pois as desigualdades de oportunidades ao longo da vida impediram voos mais ousados.
Ao fim da escola primária, éramos capazes de redigir um ofício e fazer regras de três para solucionar problemas. Hoje, mesmo no ambiente universitário, não se encontra facilmente quem seja capaz de fazer essas coisas
Muitos ficaram por ali, em trabalhos mal remunerados e pouco reconhecidos, apesar de sua imensa utilidade no dia a dia; outros seguiram caminhos diversos e terminaram por adquirir profissões mais rendosas.
Fato é que, ao fim de nossa escola primária, éramos capazes de redigir um ofício; uma carta comercial ou de cunho pessoal; fazer um recibo; lavrar uma ata; fazer regras de três para solucionar problemas correntes. Hoje, mesmo no ambiente universitário, não se encontra facilmente quem seja capaz de fazer essas coisas…Havia um zelo pelo uso correto da língua portuguesa, mesmo no seu emprego coloquial. Os cacófatos eram ciosamente evitados.
Hoje, mesmo em jornais de renome, não é raro lermos “por cada” ou “acerca dela”. Isso, sem falar do verbo haver flexionado na terceira pessoa do plural, quando, no sentido de existir, é sempre invariável. Ah, e o “a muito tempo”, sem a letra h do verbo haver?… isso é ainda mais frequente, infelizmente.
“Mim não faz nada. Mim é um grande preguiçoso”, ensinava com propriedade dona Laila Amorim. Atualmente, há muitos graduados de nível superior que incorrem, rotineiramente, nesse erro crasso, dizendo “para mim fazer”, em lugar de “para eu fazer”…
Outra coisa: minha geração ainda se lembra de poemas inteiros, que conservamos vivos na memória. Perguntem a um jovem, ou mesmo àqueles na faixa dos 30 a 40 anos, se são capazes de dizer uma estrofe que seja! Duvideodó
E quando essas coisas nos doem nos ouvidos e, com jeitinho, nos dispomos a oferecer ajuda para o uso da forma correta, há olhares de impaciência, de desprezo, ou muxoxos mal contidos.
Outra coisa: minha geração ainda se lembra de poemas inteiros, que conservamos vivos na memória. Perguntem a um jovem, ou mesmo àqueles na faixa dos 30 a 40 anos, se são capazes de dizer uma estrofe que seja! Duvideodó!!!!
Nunca leram um poeta sequer… ah, mas não deixemos entrar nessa contabilidade a música que se convencionou chamar de “sertanejo universitário “, que nem é sertaneja, e muito menos universitária! Essas, sim, por certo saberão de cor e salteado… que pobreza!!!
E mais: o hábito da leitura parece ter-se perdido, de modo irremediável.
O mais deprimente, contudo, a meu ver — e isso atinge até mesmo os cursos universitários — é que a cada mudança nos conteúdos curriculares ou nas estratégias de ensino e aprendizagem, os resultados só pioram. Um culto à superficialidade e ao conhecimento de coisas inúteis à vida prática parece ter-se imposto como corolário da mediocridade e da falta de disposição para se adquirir conhecimentos. Que lástima!!!
O resultado de tudo isso é que o Brasil ainda está entre os países de menor desempenho educacional no grupo avaliado pelo Programme for International Student Assessment (Pisa), especialmente em matemática, ciências e leitura.
O maior desafio não é apenas o de ampliar o acesso à escola — objetivo em grande parte já alcançado —, mas o de elevar, de forma consistente, a qualidade da aprendizagem. Nossas crianças e jovens, já há algum tempo, estão sendo condenados ao analfabetismo funcional, e isso é muito grave.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.


